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Plásticos já custaram 83 milhões de anos de vida saudável ao mundo, aponta estudo
Entre 2016 e 2040, o mundo perderá o equivalente a 83 milhões de anos de vida saudável — os chamados disability-adjusted life years (DALYs) — em decorrência das emissões associadas à produção, ao descarte e à queima de plásticos.
Por Laercio Damasceno - 27/01/2026


Foto: unsplash


Um sistema global dependente de plásticos, tal como funciona hoje, impõe um custo silencioso e crescente à saúde humana. Entre 2016 e 2040, o mundo perderá o equivalente a 83 milhões de anos de vida saudável — os chamados disability-adjusted life years (DALYs) — em decorrência das emissões associadas à produção, ao descarte e à queima de plásticos. O dado está no mais abrangente estudo já realizado sobre os impactos do ciclo de vida dos plásticos na saúde global, publicado na revista The Lancet Planetary Health.

Coordenada por Megan Deeney, da London School of Hygiene & Tropical Medicine, a pesquisa combina análise de fluxo de materiais com avaliação de ciclo de vida para estimar, pela primeira vez em escala planetária, os efeitos do plástico sobre doenças, mortes prematuras e degradação ambiental. “Os danos à saúde estão presentes em todas as etapas do ciclo do plástico, mas são particularmente intensos na produção primária, ligada à indústria de petróleo e gás”, afirma Deeney.

Produção é o principal vilão

Segundo o estudo, 82% do impacto sanitário do plástico decorre da produção de polímeros virgens — processo intensivo em energia fóssil e emissões tóxicas. Apenas em 2016, o sistema global de plásticos foi responsável por 2,1 milhões de DALYs, número que deve mais que dobrar até 2040 caso nada mude. As principais causas são o aquecimento global, a poluição do ar por partículas finas e a liberação de substâncias químicas associadas a cânceres e doenças crônicas não transmissíveis.

Figura 1. DALYs associados a 1 ano do sistema global de plásticos P?O BAU em 2016 e 2040, por indicadores de ponto médio e processos do ciclo de vida.

A pesquisa mostra que políticas focadas apenas em reciclagem ou gestão de resíduos têm efeito limitado. Mesmo cenários com expansão da coleta e da reciclagem reduzem pouco o peso total sobre a saúde. “Reduzir a produção primária de plásticos é, isoladamente, a medida mais eficaz para aliviar os danos à saúde”, explica Lorie Hamelin, professora da Université de Toulouse, coautora do estudo.

Alternativas ajudam, mas não resolvem sozinhas

Os pesquisadores testaram seis cenários globais, do “business as usual” a um cenário de “mudança sistêmica”, que combina redução de produção, aumento de reciclagem, eliminação de plásticos de uso único e substituição por outros materiais. Mesmo no cenário mais ambicioso, o mundo ainda registraria 2,6 milhões de DALYs em 2040 — uma melhora relevante, mas insuficiente para reverter a tendência de alta. 

O estudo também alerta para armadilhas: materiais alternativos, como papel, bioplásticos ou sistemas de vidro reutilizável, podem gerar novos impactos se não houver energia limpa e desenho adequado. “Não existe solução simples. Substituir plástico sem reduzir consumo pode apenas transferir o problema”, observa Xiaoyu Yan, da University of Exeter.

Contexto histórico e disputa política

A publicação surge em meio às negociações do Tratado Global dos Plásticos, discutido desde 2022 por mais de 175 países no âmbito da ONU. O estudo dá respaldo científico às posições que defendem metas obrigatórias de redução da produção, e não apenas de reciclagem. Para os autores, a falta de transparência sobre a composição química dos plásticos limita políticas eficazes e pode levar à subestimação dos danos “em pelo menos uma ordem de magnitude”.

Os efeitos recaem de forma desigual: países de baixa e média renda concentram maior exposição à poluição do ar, à queima a céu aberto e a sistemas precários de descarte. “O plástico não é apenas um problema ambiental; é um problema de saúde pública e de justiça social”, resume Suneetha Kadiyala, também da London School of Hygiene & Tropical Medicine.

A conclusão é direta: sem cortes profundos na produção global de plásticos, o custo humano continuará crescendo — invisível nas prateleiras dos supermercados, mas mensurável em milhões de vidas encurtadas.


Mais sobre o artigo
Publicação The Lancet Planetary Health - janeiro de 2026 - Megan Deeney, MSc; Professora Lorie Hamelin, PhD; Claire Vialle, PhD; Prof Xiaoyu Yan, PhD; Rosemary Green, PhD; Joe Yates, MSc; Professora Suneetha Kadiyala, PhD
DOI: 10.1016/j.lanplh.2025.101406 Link externo também disponível no ScienceDirect

 

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