Estudo aponta que evitar trilhas de condensação pode poupar até 9% do “orçamento climático” até 2050; atraso de uma década reduz ganho a quase nada

Domínio público
Um ajuste de rota de poucos quilômetros no céu pode ter um efeito desproporcional no clima da Terra. É o que indica um estudo publicado nesta semana na Nature Communications, que conclui que a adoção ampla de estratégias para evitar a formação de trilhas de condensação — as nuvens finas deixadas por aviões em determinadas condições atmosféricas — pode reduzir significativamente o aquecimento global associado à aviação já nas próximas décadas.
Segundo os autores, liderados pela engenheira Jessie R. Smith, da Universidade de Cambridge, se nenhuma ação for tomada, a aviação deverá responder, até 2050, por um aquecimento médio global de 0,094 grau Celsius, somando os efeitos do CO2 e das trilhas de condensação (contrails). Isso equivale a 19% da diferença entre a temperatura atual do planeta e o limite de 2 °C estabelecido pelo Acordo de Paris, um “orçamento” climático cada vez mais exíguo.
As trilhas de condensação, formadas quando o vapor d’água dos motores congela em regiões supersaturadas de gelo, têm um impacto climático comparável ao de todo o CO2 acumulado da aviação desde o início da era do jato. A diferença é o tempo de resposta: enquanto o CO2 permanece na atmosfera por séculos, as contrails duram horas — o que torna sua mitigação uma oportunidade rara de reduzir o aquecimento quase imediatamente.

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“O risco climático mais significativo associado às trilhas de condensação é a inação”, afirma Smith. De acordo com o trabalho, um programa global de desvio de rotas iniciado entre 2035 e 2045 poderia recuperar até 9% do orçamento climático restante até 2050. Mas um atraso de dez anos reduziria esse ganho para apenas 2%, efeito equivalente a perder cerca de 78% da eficácia potencial da medida.
O estudo utilizou o modelo Aviation Climate and Air Quality Impacts (ACAI), que combina projeções de crescimento do tráfego aéreo, emissões de CO2 e formação de contrails com simulações climáticas alinhadas ao mais recente relatório do IPCC. Em um cenário sem ação, as trilhas de condensação sozinhas responderiam por 0,054 °C de aquecimento em 2050, superando o impacto do CO2 da própria aviação, estimado em 0,040 °C.
Uma das objeções recorrentes à estratégia é o aumento do consumo de combustível, já que os aviões precisariam desviar de áreas propícias à formação das nuvens artificiais. O trabalho, porém, indica que esse custo climático é pequeno. Mesmo em um cenário pessimista, com aumento médio de 10% no consumo de combustível, o aquecimento adicional por CO? seria duas ordens de magnitude menor do que a redução obtida ao evitar as contrails. Em cenários mais realistas, com penalidade inferior a 2%, a diferença chega a ser centenas de vezes favorável à mitigação.
Os autores comparam ainda a eficácia do desvio de rotas com o uso de combustíveis alternativos de menor emissão. Embora esses combustíveis reduzam a formação de fuligem e possam cortar até 42% do efeito climático das trilhas, seu impacto total até 2050 seria menor do que o de um programa de desvio iniciado cedo e com eficácia moderada. “A evitação de contrails é uma das poucas medidas capazes de reduzir o aquecimento da aviação em escala relevante e no curto prazo”, afirma Steven Barrett, coautor do estudo e também pesquisador de Cambridge.
Historicamente, a aviação foi tratada como um setor difícil de descarbonizar, dependente de avanços tecnológicos de longo prazo. O novo estudo sugere uma inversão de lógica: enquanto aeronaves elétricas ou combustíveis sintéticos avançam lentamente, o redesenho inteligente das rotas pode oferecer ganhos climáticos imediatos, desde que adotado sem demora.
Em um momento em que o planeta já aqueceu cerca de 1,4 °C em relação aos níveis pré-industriais, cada fração de grau conta. No céu, ao que tudo indica, o relógio climático corre mais rápido do que nos aeroportos.
Mais informações sobre o artigo
Smith, JR, Grobler, C., Hodgson, PJ et al. As oportunidades e os riscos climáticos da evitação de rastros de condensação. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68784-8