Carro elétrico em clima frio ainda polui menos, mas vantagem diminui, aponta estudo
Mesmo em regiões dependentes de carvão e com invernos rigorosos, veículos elétricos emitem menos gases de efeito estufa do que os movidos a gasolina. Benefício, porém, encolhe com frio intenso e matriz energética suja.

Domínio público
Um estudo publicado nesta segunda-feira (2) na revista Scientific Reports, lança luz sobre um ponto sensível da transição energética: até que ponto o carro elétrico é de fato mais limpo quando roda em regiões frias e abastecidas majoritariamente por energia fóssil. A resposta curta é positiva — mas com ressalvas importantes.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Shandong Huayu University of Technology e da Universiti Putra Malaysia, comparou veículos elétricos a bateria (BEVs) e carros a gasolina ao longo de todo o uso anual, considerando diferenças regionais da rede elétrica chinesa e o impacto das baixas temperaturas sobre o desempenho das baterias. O foco foi a província de Heilongjiang, no nordeste da China, onde o inverno é severo e a eletricidade ainda depende fortemente do carvão.
Os resultados mostram que, em média anual, os veículos elétricos emitem 25,3% menos gases de efeito estufa do que os automóveis a gasolina. Em números absolutos, são cerca de 3,1 toneladas de CO2 equivalente por ano, contra 4,15 toneladas dos modelos convencionais, para uma rodagem de 20 mil quilômetros.
“O carro elétrico mantém vantagem climática mesmo em condições adversas, mas essa vantagem não é uniforme nem automática”, afirma Sining Ma, autor principal do estudo. Segundo ele, “o desempenho ambiental do veículo elétrico está diretamente ligado à matriz elétrica e à eficiência da bateria em diferentes temperaturas”.
Frio extremo reduz ganhos
No inverno de Heilongjiang, onde a temperatura média chega a –16 °C, a eficiência de recarga das baterias cai para cerca de 59%, elevando o consumo de eletricidade e, consequentemente, as emissões associadas. Nessa condição, a diferença entre elétricos e veículos a gasolina diminui drasticamente: a redução de emissões cai para 14,2%.
Em alguns cenários sazonais, os elétricos chegam a emitir mais do que os carros a combustão, especialmente quando o aumento do consumo para aquecimento do veículo se soma a uma rede elétrica altamente carbonizada.
“Isso desmonta a ideia simplista de que basta trocar o motor para resolver o problema climático”, diz Amir Hamzah Sharaai, coautor do trabalho. “Sem eletricidade limpa, o carro elétrico perde boa parte de sua razão de ser ambiental.”
Impactos além do CO2
O estudo também chama atenção para impactos menos visíveis. Embora emitam menos gases de efeito estufa, os veículos elétricos apresentaram impactos 2,6 vezes maiores em transformação do uso do solo, relacionados sobretudo à geração de eletricidade — incluindo hidrelétricas e mineração de carvão.
Por outro lado, no balanço de danos a longo prazo, os elétricos se saem melhor em custos de esgotamento de recursos naturais. A pesquisa estima que os carros a gasolina geram um custo potencial futuro de US$ 652 em recursos, contra apenas US$ 58 dos elétricos, considerando extração de petróleo, gás e carvão.
Um debate com história
Desde os anos 2000, a China aposta nos veículos elétricos como peça-chave para reduzir a poluição urbana e cumprir metas climáticas. O país é hoje o maior mercado mundial de EVs e tem como meta alcançar a neutralidade de carbono até 2060. O novo estudo, porém, reforça uma conclusão recorrente na literatura científica: eletrificar o transporte sem descarbonizar a energia limita os ganhos ambientais.
“A verdadeira transição exige duas pernas: veículos mais eficientes e uma rede elétrica mais limpa”, afirma Nazatul Syadia Zainordin, pesquisadora da área de gestão ambiental.

Para regiões frias e dependentes de carvão — não só na China, mas também em partes da Europa Oriental, Canadá e Rússia —, o trabalho traz um alerta. Incentivos ao carro elétrico precisam caminhar junto com investimentos em renováveis, redes mais eficientes e tecnologias de bateria adaptadas ao frio.
Caso contrário, o risco é transformar o “carro zero emissão” em um rótulo mais simbólico do que real.
Como resume o estudo: a eletrificação do transporte é um passo necessário, mas insuficiente. Sem energia limpa e inovação tecnológica, o futuro elétrico pode chegar — mas ainda carregando o peso do carbono do passado
Detalhes da publicação
Ma, S., He, Z., Sharaai, AH et al. Avaliação do ciclo de vida de veículos elétricos e a gasolina considerando diferenças na rede elétrica e clima frio na China. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-38471-1