Busca por alimentos saudáveis de origem animal cresce, mas rótulos confundem os consumidores
Conscientização da população sobre a classificação dos produtos é essencial, segundo Maria José Hötzel

Existem selos confiáveis no Brasil para indicar produtos fabricados de forma mais responsável – Foto: Freepik
A monotonia do sistema agroalimentar afeta diretamente a rotina alimentar e qualidade de vida dos seres humanos. O modelo de produção se expressa na criação intensiva, na falta de variedade de raças e nas más condições de bem-estar animal. Em meio a esse contexto, diversos mecanismos e equipamentos nocivos à saúde humana são utilizados, como agrotóxicos, pesticidas e antibióticos.
O uso em larga escala desses produtos contribui para a disseminação de bactérias resistentes, o que gera diversos problemas na saúde mundial. Dessa maneira, os consumidores precisam se conscientizar a respeito do que ingerem no dia a dia e procurar vias mais saudáveis e sustentáveis de alimentação.
Obstáculos
Maria José Hötzel, pesquisadora parceira da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP, comenta a dificuldade dos brasileiros em encontrar alimentos mais saudáveis de origem animal. “Existem poucos produtos e geralmente com maiores preços que aqueles que são produzidos sem essas práticas. Esses produtos em geral têm certificação e rotulagem.”
Os termos utilizados no mercado alimentício para rotular os produtos, como “verde” e “natural”, podem confundir os consumidores, de acordo com a pesquisadora. Grande parte dos alimentos rotulados com essas terminologias não é certificada ou oriunda de práticas responsáveis de produção. Essa variedade de rótulos e a escassez de conscientização dos brasileiros a respeito desses termos são grandes empecilhos na rotina alimentar das pessoas no País.
Rotulagem no Brasil
Em meio a divergências no mercado, existem selos confiáveis no Brasil para indicar produtos fabricados de forma mais responsável. Embalagens de ovos, por exemplo, apresentam figuras que fazem referência à “galinha feliz” e selos de bem-estar. “Esses indicadores já existem no País há algum tempo. Eles indicam que o produtor segue padrões de produção considerados de maior bem-estar animal. Alguns são de certificação de produção no sistema caipira, outros do sistema orgânico e alguns são certificados para bem-estar animal”, afirma Maria.
A rotulagem dos alimentos de origem animal oferece uma gama de alternativas e preços para o consumidor. Entretanto, a pesquisadora alerta que é necessário um domínio dos conceitos e selos presentes nas embalagens por parte dos consumidores. Para que não haja confusões e possíveis desvios de interpretação, a comunicação das empresas e distribuidoras de alimentos precisa ser transparente nessa etapa da informação ao consumidor.
Papel dos consumidores
Ao longo do tempo, o consumo de produtos de origem animal mais saudáveis aumenta a garantia de venda, estimulando maior produção e escala, o que tende a diminuir o preço ao consumidor. Contudo, Maria defende que essa responsabilidade não pode recair apenas na população. “Contar somente com o consumidor para estimular a mudança nos sistemas de produção não é justo nem viável. Mesmo em países onde os consumidores têm maior poder aquisitivo, nem todos os consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos diferenciados.”