Calor e seca no subsolo ampliam estresse das plantas e ameaçam produtividade vegetal, aponta estudo
Um estudo publicado nesta semana na Nature Communications, que identifica a ação humana como principal motor da escalada desses extremos 'seco-quentes' no solo e de seus impactos sobre ecossistemas naturais e agrícolas.
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Um tipo de evento climático extremo ainda pouco visível fora do meio científico — a combinação de solo mais quente e mais seco ao mesmo tempo — está se intensificando e já provoca perdas crescentes na produtividade da vegetação. É o que mostra um estudo publicado nesta semanana Nature Communications, que identifica a ação humana como principal motor da escalada desses extremos “seco-quentes” no solo e de seus impactos sobre ecossistemas naturais e agrícolas.
Conduzida por pesquisadores chineses, a pesquisa analisou séries históricas de dados climáticos, de umidade e temperatura do solo e de produtividade vegetal ao longo de várias décadas. O diagnóstico é claro: desde os anos 1980, aumentaram tanto a frequência quanto a extensão geográfica dos episódios em que o solo combina calor anormal com déficit hídrico — uma dupla que reduz a capacidade das plantas de realizar fotossíntese e crescer de forma saudável.
“Esses extremos compostos representam um fator de estresse crítico, mas subestimado, para os ecossistemas”, afirmam os autores no artigo. Segundo Yani Liang, pesquisadora envolvida no estudo, “o aquecimento do solo induzido por atividades humanas intensifica simultaneamente o calor e a secura, ampliando os danos à produtividade da vegetação, mesmo em regiões onde a chuva não diminuiu de forma significativa”.
Um problema além das ondas de calor
Historicamente, os debates sobre clima e agricultura se concentraram em ondas de calor atmosférico ou em secas prolongadas. O novo trabalho desloca o foco para o que acontece abaixo da superfície. O solo, ao aquecer mais rapidamente por efeito das mudanças climáticas e do uso intensivo da terra, perde umidade com maior velocidade. Esse processo cria condições adversas persistentes para as raízes, afetando diretamente a produtividade primária bruta — indicador-chave da capacidade das plantas de capturar carbono da atmosfera.
De acordo com Jun Wang, outro autor do estudo, “o solo funciona como uma memória climática. Quando ele entra em um estado seco e quente, os efeitos podem durar semanas ou meses, prolongando o estresse vegetal muito além de um evento extremo isolado”.

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Embora a análise tenha se concentrado na China, os pesquisadores alertam que o mecanismo identificado é relevante em escala global. Regiões agrícolas intensivas e áreas naturais sensíveis podem enfrentar reduções na produtividade, maior risco de degradação ambiental e impactos indiretos sobre segurança alimentar e ciclos de carbono.
“O aumento desses extremos compostos pode comprometer tanto a produção agrícola quanto a capacidade dos ecossistemas de atuar como sumidouros de carbono”, escreve a equipe. Em um cenário de aquecimento contínuo, isso tende a criar um círculo vicioso, com mais carbono na atmosfera e maior pressão sobre solos e vegetação.
O estudo reforça a necessidade de políticas climáticas e agrícolas que considerem não apenas a temperatura do ar e o regime de chuvas, mas também a dinâmica térmica e hídrica do solo. Para os autores, estratégias de manejo da terra, restauração de ecossistemas e mitigação das emissões de gases de efeito estufa são fundamentais para conter a escalada desses extremos invisíveis, porém decisivos.
“Se quisermos proteger a produtividade vegetal e os serviços ecossistêmicos, precisamos olhar para o que acontece sob nossos pés”, conclui Liang.
Detalhes da publicação
Liang, Y., Wang, J., Hao, Z. et al. Impacto crescente, impulsionado pela ação humana, de eventos extremos de seca e calor no solo sobre a produtividade da vegetação. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68878-3