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Estudo mapeia limites físicos para adaptação de quase 800 deltas à elevação do mar
A equipe de cientistas analisou 769 deltas — que concentram cerca de 96% da área geomorfológica deltaica do mundo — onde vivem aproximadamente 348 milhões de pessoas, o equivalente a 4,3% da população global.
Por Laercio Damasceno - 15/02/2026


O delta dos rios Ganges-Brahmaputra-Meghna visto pelo satélite Envisat da Agência Espacial Europeia (ESA). Crédito: ESA, CC BY-SA 3.0 IGO (http://www.esa.int/spaceinvideos/Terms_and_Conditions)


Um amplo levantamento internacional publicado neste sábado (14), na revista Nature Communications, conclui que todos os grandes deltas do planeta ainda dispõem, ao menos em tese, de uma estratégia fisicamente viável para se adaptar à elevação do nível do mar até 2100. O alerta, porém, vem acompanhado de um diagnóstico incômodo: em muitos casos, especialmente nos deltas mais populosos e urbanizados, as opções são restritas, caras ou dependem de inovação tecnológica e cooperação internacional em escala inédita.

O estudo, intitulado “Physical limits of sea-level rise adaptation in global river deltas” (Limites físicos da adaptação à elevação do nível do mar em deltas globais), foi conduzido por pesquisadores da Utrecht University e da Deltares. A equipe analisou 769 deltas — que concentram cerca de 96% da área geomorfológica deltaica do mundo — onde vivem aproximadamente 348 milhões de pessoas, o equivalente a 4,3% da população global.

“Queríamos entender não apenas se a adaptação é desejável, mas se é fisicamente possível”, afirma a geógrafa Kiara G. Lasch, autora principal do trabalho. “Em todos os deltas encontramos ao menos uma estratégia viável até 2100 com as tecnologias atuais. Mas isso não significa que todas as opções estejam abertas.”

Cinco caminhos, limites distintos

Ancorado na tipologia do IPCC, o estudo classifica a adaptação em cinco estratégias: avançar sobre o mar (criar novas áreas costeiras), proteger com o rio aberto (diques e barreiras), proteger com o rio fechado (bombas e retenção de água), acomodar (elevar infraestrutura) e recuar (realocar áreas urbanas).

Sob um cenário intermediário de aquecimento (SSP2-4.5), com elevação média global do mar estimada em 0,47 metro até 2100, os pesquisadores calcularam que:

Proteger com o rio aberto é fisicamente viável em 99% dos deltas com tecnologias atuais;
Acomodar (elevar construções) é possível em 84%;
Recuar é factível em 98%;
Proteger com o rio fechado é viável em 75% quando considerados eventos extremos de vazão;
Avançar sobre o mar é a estratégia mais restrita: 27% dos deltas não dispõem das condições físicas mínimas, mesmo sob hipóteses de inovação.

A diferença decorre de fatores como largura da foz, profundidade costeira, vazão dos rios, disponibilidade de sedimentos e extensão das áreas urbanizadas. “O tamanho importa”, resume o coautor Jaap Nienhuis. “Deltas grandes, urbanizados ou frequentemente inundados têm menos espaço de manobra.”

Urbanização contrai espaço de solução

O contraste aparece de forma clara quando se comparam deltas densamente ocupados, como o Ganges-Brahmaputra-Meghna, o Mississippi ou o Reno-Mosa, com deltas menores e rurais. Nos primeiros, a elevação de infraestrutura pode exigir mais de dois metros de altura, e a construção de barreiras supera larguras já testadas na prática. Em alguns casos, a capacidade de bombeamento necessária para manter o interior seco ultrapassa os limites atuais.

No delta do Reno-Mosa, na Holanda, por exemplo, nenhuma das estratégias em sua versão de “baixo recurso” é considerada viável em escala deltaica. Ainda assim, o país investe cerca de € 1,25 bilhão anuais no Fundo Delta, com forte tradição em engenharia hidráulica.

Já em deltas menores e menos urbanizados, como o Buller (Nova Zelândia) ou o Mangoro (Madagascar), o leque é mais amplo. Barreiras estreitas, recuo planejado e elevação pontual são soluções fisicamente mais acessíveis.

Gargalo global: sedimentos e competição por recursos

A estratégia de “avançar” — criar terra nova para compensar a elevação do mar — revela o maior entrave material. Para estender 8 km de costa em todos os deltas analisados, seriam necessários cerca de 3.099 km³ de sedimentos, volume muito superior ao fornecimento fluvial global previsto até 2100.

Cerca de 17% dos deltas são classificados como “deficitários” em material, o que implicaria importação de sedimentos. O volume requerido — 2.409 km³ — é quase 40 vezes maior que o orçamento anual global de dragagem e aterro registrado em 2010.

Capturada por um dos satélites Copernicus Sentinel-2 em 6 de março de 2022, mostra o delta do Reno-Mosa-Escalda (RMS) na costa oeste dos Países Baixos. Crédito:  ZoomViewer

“Se muitos deltas optarem por avançar simultaneamente, haverá competição por areia e sedimentos”, alerta Marjolijn Haasnoot, coautora do estudo. “A adaptação deixa de ser apenas um desafio local e passa a ser uma questão geopolítica.”

Características físicas pesam mais que o clima

Um dos resultados mais surpreendentes é que, até 2100, as características físicas atuais — como largura do rio ou profundidade costeira — influenciam mais a viabilidade das estratégias do que as diferenças entre cenários climáticos moderados.

Elevar casas em 1 ou 2 metros, por exemplo, representa um salto técnico maior do que a diferença entre os cenários SSP1-2.6 e SSP5-8.5 para o fim do século. Da mesma forma, dragar areia a 60 metros de profundidade é mais limitante tecnologicamente do que uma elevação adicional de meio metro no nível do mar.

Para além do físico

Os autores ressaltam que viabilidade física não implica aceitação social, viabilidade financeira ou sustentabilidade ecológica. Barreiras e diques podem afetar ecossistemas; recuos planejados enfrentam resistência política; e países de baixa renda podem não dispor de capital para obras de grande porte.

Ainda assim, o estudo reforça que há margem de ação. “O espaço de soluções existe, mas não é infinito”, diz Lasch. “Quanto antes os deltas planejarem, maior a chance de manter opções abertas e evitar decisões irreversíveis.”

Num século em que a elevação do mar já é considerada inevitável em alguma medida, a mensagem central é ambivalente: o mundo ainda pode se adaptar — mas os limites físicos, materiais e institucionais estão cada vez mais próximos.


Referência
Lasch, KG, Nienhuis, JH, Winter, G. et al. Limites físicos da adaptação à elevação do nível do mar em deltas de rios globais. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69517-7

 

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