Mundo

Proteína rica em histidina reescreve a história da cola do mexilhão
O estudo mostra que a adesão do mexilhão é mais complexa — e mais sofisticada — do que se imaginava.
Por Laercio Damasceno - 16/02/2026


Banco de imagem


Durante décadas, a ciência atribuiu o poder de adesão dos mexilhões a um único protagonista químico: a DOPA, um aminoácido modificado capaz de grudar em superfícies molhadas. Agora, um estudo publicado nesta segunda-feira (16), na revista Nature Communications, desafia esse paradigma e apresenta um novo personagem central nessa história: uma proteína rica em histidina, batizada de mefp-12, que atua como arquiteta da estrutura porosa da cola subaquática.

O trabalho, liderado por pesquisadores da McGill University, em colaboração com a University of Mons, o Max Planck Institute of Colloids and Interfaces e a University of Göttingen, mostra que a adesão do mexilhão é mais complexa — e mais sofisticada — do que se imaginava.

Um enigma além da DOPA

Os mexilhões do gênero Mytilus edulis fixam-se às rochas do litoral por meio de filamentos chamados fios de bisso, que terminam em uma placa adesiva microscópica. Essa placa é um material proteico poroso, resistente às ondas e à água salgada.

Desde os anos 1980, estudos apontavam a DOPA como principal responsável pela adesão, graças à sua capacidade de formar ligações com superfícies e metais. Mas, apesar de duas décadas de esforços em biomimética, adesivos sintéticos inspirados em DOPA jamais reproduziram integralmente o desempenho do material natural.

“O foco excessivo na DOPA nos impediu de enxergar outros componentes críticos do sistema”, afirma o químico Matthew J. Harrington, autor sênior do estudo. “Nossos resultados mostram que a formação da estrutura sólida da placa depende de um mecanismo distinto, controlado por histidina e zinco.”

A descoberta da mefp-12

Ao isolar vesículas secretoras da glândula adesiva do pé do mexilhão, a equipe identificou pelo menos dez proteínas envolvidas na formação da cola — o dobro das cinco tradicionalmente descritas. Entre elas, destacava-se uma proteína de alto peso molecular, fortemente marcada por corantes específicos para histidina.

A análise proteômica revelou tratar-se de uma proteína ainda não caracterizada, agora denominada mefp-12 (mussel foot protein 12). O gene correspondente foi confirmado por técnicas de biologia molecular e mostrou-se conservado em diferentes espécies do gênero Mytilus, separadas evolutivamente há pelo menos 182 milhões de anos.

A mefp-12 contém cerca de 9% de histidina em sua composição e apresenta uma região central com aproximadamente 18% desse aminoácido — uma densidade incomum em proteínas estruturais.

Glândulas secretoras do pé de mexilhão

Zinco como gatilho molecular

Modelagens estruturais com ferramentas de inteligência artificial indicaram que a mefp-12 forma estruturas helicoidais do tipo “coiled-coil”, estabilizadas por coordenação com íons de zinco (Zn²?). Diferentemente das interações hidrofóbicas típicas dessas estruturas, aqui a estabilidade depende da ligação metal-histidina.

Experimentos in vitro com um peptídeo sintético derivado da mefp-12 mostraram que, em condições semelhantes às encontradas no organismo do mexilhão, ocorre separação de fases líquido-líquido (LLPS) dependente de pH e zinco. Quando o pH aumenta — simulando a transição do ambiente ácido de armazenamento para o pH alcalino da água do mar (8,2) — os condensados líquidos se solidificam espontaneamente, formando uma rede porosa nanométrica.

A estrutura obtida em laboratório é notavelmente semelhante à da placa adesiva natural, cujos poros variam entre 0,2 e 2 micrômetros.

Um modelo revisado de adesão

O novo modelo proposto sugere que a mefp-12 forma o esqueleto sólido da placa por meio de ligações histidina-zinco, enquanto proteínas ricas em DOPA permanecem como fases líquidas nos poros, garantindo adesão interfacial e autorreparo.

Essa arquitetura em rede aberta pode explicar a durabilidade da cola do mexilhão, capaz de resistir a forças mecânicas repetidas. Ligações histidina-zinco são mais fracas que as de DOPA com metais como vanádio ou ferro — cerca de um terço da força molecular — o que sugere um papel de “ligações sacrificiais”, dissipando energia antes da ruptura estrutural.

“O sistema combina duas redes metálicas com forças diferentes, algo semelhante aos hidrogéis de dupla rede usados em engenharia”, explica Harrington. “Isso pode ser crucial para a resistência e a capacidade de auto-recuperação do material.”


Impacto biomédico e tecnológico

A adesão em ambiente úmido é um dos maiores desafios da engenharia de materiais. Adesivos cirúrgicos, selantes para tecidos e revestimentos anticorrosivos poderiam se beneficiar de um entendimento mais completo da química do mexilhão.

Segundo os autores, compreender o papel da histidina e do zinco abre novas rotas para o desenvolvimento de adesivos biomiméticos mais robustos e controláveis por estímulos químicos, como pH e íons metálicos.

Além disso, a descoberta revisa um dos paradigmas mais consolidados da bioquímica marinha. Ao deslocar o foco exclusivo da DOPA, o estudo amplia o horizonte da pesquisa em materiais inspirados na natureza.

“Estamos apenas começando a entender a sofisticação desse sistema”, conclui Harrington. “A cola do mexilhão não é produto de uma única molécula genial, mas de uma orquestra bioquímica cuidadosamente afinada ao longo da evolução.”


Referência
Rivard, MD, Poulhazan, A., Renner-Rao, MJ et al. Estruturas em espiral ricas em histidina promovem a auto-montagem dependente de zinco e a cura de colas porosas de mexilhão. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69504-y

 

.
.

Leia mais a seguir