Inteligência artificial mapeia risco global e indica como evitar extinção de peixes de água doce
A pesquisa utilizou dados atualizados da International Union for Conservation of Nature (IUCN) e aplicou algoritmos de random forest — uma técnica de aprendizado de máquina — para classificar espécies como 'ameaçadas'.

Cardume de piraputangas sob a sombra da mata ciliar. Foto: José Sabino/Natureza em Foco
Um modelo de inteligência artificial treinado com dados ambientais, econômicos e biológicos de 10.631 espécies revela um retrato inédito sobre o que separa peixes de água doce ameaçados daqueles que ainda escapam do risco de extinção. O estudo, publicado na revista Nature Communications, mostra que variáveis como disponibilidade de água, conectividade dos rios, intensidade de barragens e indicadores socioeconômicos são mais determinantes para prever a segurança das espécies do que suas próprias características biológicas.
A pesquisa, liderada por Christina A. Murphy, da U.S. Geological Survey, com colaboração da Oregon State University e da University of Girona, utilizou dados atualizados da International Union for Conservation of Nature (IUCN) e aplicou algoritmos de random forest — uma técnica de aprendizado de máquina — para classificar espécies como “ameaçadas” (Vulnerável, Em Perigo ou Criticamente Em Perigo) ou “não ameaçadas”.
Um terço à beira do desaparecimento
O ponto de partida é alarmante: quase um terço dos peixes de água doce do planeta já enfrenta risco de extinção, segundo a própria IUCN. Trata-se do grupo de vertebrados mais ameaçado do mundo — e também um dos mais diversos.
Os ambientes dulcícolas vêm sofrendo pressão crescente desde o século 20. Dois terços dos grandes rios globais já foram represados, milhares de novas barragens estão em planejamento e a expansão urbana, agrícola e industrial fragmenta ecossistemas antes contínuos. A mudança climática adiciona estresse térmico e altera regimes de chuva.
“Queríamos entender não apenas por que espécies entram em colapso, mas o que permite que outras permaneçam resilientes”, afirmou Murphy no artigo. “Antecipar o risco pode ser mais eficiente do que reagir quando a espécie já está criticamente ameaçada.”
Precisão maior para prever quem está seguro
O modelo alcançou 88% de acurácia global. Curiosamente, foi mais eficaz para identificar espécies não ameaçadas (90,1% de acerto) do que ameaçadas (81,8%). Segundo os autores, isso sugere que os fatores associados à estabilidade ecológica são mais consistentes e previsíveis, enquanto os processos que levam ao declínio tendem a ser mais variados e específicos.
Entre os principais preditores de não ameaça estão: maior disponibilidade hídrica (cobertura permanente de água, vazão estável); baixa a moderada densidade de barragens; menor pegada humana; estabilidade econômica regional; menor fragmentação hidrogeomorfológica.
A diversidade hidrogeomorfológica — isto é, a multiplicidade de tipos de habitat dentro da área de ocorrência da espécie — apareceu como o fator isolado mais influente. Paradoxalmente, maior heterogeneidade espacial esteve associada a maior probabilidade de ameaça, possivelmente por refletir paisagens fragmentadas, com conectividade comprometida.
“A conectividade é vital para peixes que dependem de diferentes habitats ao longo do ciclo de vida”, destacam os autores. Barragens e represamentos interrompem migrações, alteram regimes de fluxo e reduzem a variabilidade natural dos rios.
Ambiente pesa mais que biologia
Variáveis ambientais e socioeconômicas responderam pela maior parte do poder explicativo do modelo. Fatores intrínsecos — como fisiologia ou história de vida — tiveram peso inferior a 10%.
Ainda assim, a ordem taxonômica apareceu como o segundo fator mais relevante, indicando que linhagens compartilham vulnerabilidades semelhantes. Outro ponto sensível foi a “lacuna de conhecimento”: espécies com poucos dados disponíveis tendem a ser classificadas como ameaçadas com maior frequência, possivelmente por precaução.
O estudo analisou 52 variáveis provenientes de 12 bases globais, incluindo clima (WorldClim), hidrologia (GloRiC), cobertura do solo (Copernicus), população humana (WorldPop), PIB (World Bank), barragens (Global Dam Watch) e áreas protegidas.

Crédito: Natalya Aksenova/Getty Images
Proteger antes de perder
Para os pesquisadores, os resultados reforçam a importância de estratégias preventivas. “Os dados sugerem que proteger espécies ainda estáveis pode ser mais eficiente e menos custoso do que tentar recuperar populações colapsadas”, escrevem.
Historicamente, políticas de conservação concentram esforços nas espécies já listadas como ameaçadas. Mas intervenções nesse estágio costumam ser caras e complexas. Antecipar riscos pode reduzir entraves regulatórios e ampliar a eficácia das ações.
O modelo também pode ser aplicado a espécies ainda não avaliadas ou classificadas como “dados insuficientes”, ampliando a cobertura global da avaliação de risco.
A preservação dos peixes de água doce vai além da biodiversidade. Eles sustentam cadeias alimentares, garantem segurança alimentar a milhões de pessoas, movimentam a pesca recreativa e mantêm tradições culturais.
Em regiões tropicais, onde a diversidade é maior e a pressão por infraestrutura hídrica cresce rapidamente, os resultados acendem alerta. O Brasil, que abriga a maior biodiversidade de peixes de água doce do mundo, concentra grandes bacias já intensamente represadas, como a Amazônica, a do Paraná e a do São Francisco.
A combinação entre crescimento econômico, expansão energética e fragilidade regulatória pode acelerar perdas irreversíveis.
Os autores defendem a incorporação de dados temporais — incluindo cenários climáticos futuros — e maior padronização nos critérios de listagem da IUCN. Também sugerem que modelos semelhantes sejam usados para prever mudanças futuras no status de conservação.
“O aprendizado de máquina não substitui avaliações de campo, mas oferece uma ferramenta poderosa para orientar prioridades globais”
Em um cenário de crise da biodiversidade, a tecnologia passa a atuar como aliada da conservação. O desafio, agora, é transformar previsões estatísticas em decisões políticas antes que a próxima espécie desapareça silenciosamente das águas continentais.
Referência
Murphy, CA, Olivos, JA, Arismendi, I. et al. Ambiente, taxonomia e fatores socioeconômicos predizem a não ameaça de extinção em peixes de água doce. Nat Commun 17 , 1661 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-025-68154-w