Estudo aponta terapia personalizada contra bacteraemia por Staphylococcus aureus e identifica grupo que mais se beneficia de antibiótico combinado
O estudo reuniu dados individuais de 369 pacientes incluídos em dois ensaios clínicos randomizados conduzidos em 37 hospitais espanhóis. A pesquisa foi liderada por equipes do Bellvitge University Hospital, do Instituto de Salud Carlos III e...

Staphylococcus aureus
Uma das infecções mais letais da prática hospitalar — a bacteriemia por Staphylococcus aureus — pode exigir menos antibiótico para alguns pacientes e mais intensidade terapêutica para outros. É o que sugere uma análise publicada nesta segunda-feira (16), na revista The Lancet Regional Health - Europe, que valida um modelo de estratificação de risco capaz de identificar quem realmente se beneficia da adição de fosfomicina ao tratamento padrão.
O estudo reuniu dados individuais de 369 pacientes incluídos em dois ensaios clínicos randomizados conduzidos em 37 hospitais espanhóis. A pesquisa foi liderada por equipes do Bellvitge University Hospital, do Instituto de Salud Carlos III e de outros centros vinculados à rede CIBERINFEC.
Mortalidade varia até 13 vezes conforme perfil clínico
A bacteriemia por S. aureus permanece uma das principais causas de sepse no mundo, com taxas de mortalidade em 30 dias que variam entre 15% e 30%, a depender da idade, comorbidades e complicações associadas.
No conjunto analisado, a mortalidade global em 60 dias foi de 15,7%. Mas o dado agregado esconde uma heterogeneidade dramática.
Aplicando a classificação FEN-AUREUS — ferramenta que utiliza dados clínicos das primeiras 24 horas para definir subfenótipos de risco — os pesquisadores observaram que pacientes classificados como alto risco apresentaram mortalidade em 60 dias de 23,2%, contra 6,6% no grupo de baixo risco (razão de risco de 3,49).
Quando essa estratificação foi combinada com os critérios de bacteriemia complicada definidos pela Infectious Diseases Society of America (IDSA), emergiu um gradiente ainda mais acentuado: baixo risco + infecção não complicada: mortalidade de 2,8%; alto risco + infecção complicada: mortalidade de 38,6%
Ou seja, o risco de morte foi quase 14 vezes maior no grupo mais grave em comparação ao de melhor prognóstico.
“Confirmamos que os subfenótipos clínicos identificam diferenças prognósticas robustas mesmo dentro de populações de ensaios clínicos”, afirma Jordi Carratalà, do Hospital Universitário de Bellvitge, um dos coordenadores do estudo.
Fosfomicina: benefício concentrado no grupo mais grave
Ensaios anteriores que testaram combinações antibióticas para S. aureus falharam em demonstrar benefício consistente. Segundo os autores, parte do problema pode ter sido a inclusão de grande número de pacientes de baixo risco, diluindo um possível efeito em subgrupos mais graves.
Na nova análise, a adição de fosfomicina ao tratamento padrão mostrou resultados distintos conforme o perfil:
Baixo risco + não complicada (107 pacientes): mortalidade semelhante com monoterapia (2,1%) e combinação (3,4%). Taxa de sucesso terapêutico superior a 89% em ambos.
Alto risco + complicada (44 pacientes): sucesso terapêutico em 8 semanas foi de 69,2% com fosfomicina, contra 25,8% com monoterapia — diferença absoluta de 43,4 pontos percentuais (p=0,007). A mortalidade em 60 dias caiu de 45,2% para 23,1%, embora sem significância estatística formal.

Antibióticos intravenosos
Nesse subgrupo de maior risco, o número necessário para tratar (NNT) foi estimado em 4,5 para prevenir uma morte em 60 dias e 2,3 para obter um sucesso terapêutico adicional.
“Os dados sugerem que a terapia combinada pode ser decisiva justamente nos pacientes com pior prognóstico inicial”
Belén Gutiérrez-Gutiérrez, coautora do estudo.
Os pesquisadores também aplicaram a metodologia DOOR (Desirability of Outcome Ranking), que integra mortalidade, sucesso terapêutico e eventos adversos em um único desfecho ordinal.
Entre pacientes de baixo risco e infecção não complicada, a probabilidade de um doente em monoterapia apresentar melhor desfecho foi de 54,8%. Já no grupo de alto risco com infecção complicada, essa probabilidade caiu para 30,8%, favorecendo claramente a terapia combinada.
Rumo à medicina personalizada em infecções graves
A pesquisa reforça uma mudança de paradigma na infectologia hospitalar: abandonar o modelo “tamanho único” e avançar para estratégias guiadas por risco individual.
Segundo os autores, integrar subfenotipagem precoce com critérios tradicionais de complicação pode evitar uso desnecessário de antibióticos combinados em pacientes de baixo risco; reduzir toxicidade e custos; concentrar terapias intensificadas nos doentes com maior probabilidade de benefício.
Financiado pelo Instituto de Salud Carlos III e registrado no ClinicalTrials.gov (NCT07155590), o estudo oferece uma base para futuros ensaios clínicos desenhados com menor heterogeneidade e maior precisão estatística.
Em um cenário de crescente resistência bacteriana e pressão por uso racional de antimicrobianos, os resultados apontam para uma medicina mais seletiva — e potencialmente mais eficaz — no combate a uma das infecções sanguíneas mais letais da prática hospitalar.
Referência
Fosfomicina adjuvante guiada por subfenótipo e complicação versus monoterapia padrão em bacteremia por Staphylococcus aureus : análise conjunta de dois ensaios clínicos randomizados. The Lancet Regional Health – Europe, DOI: 10.1016/j.lanepe.2026.101611