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Satélites e IA redesenham o mapa do desenvolvimento humano no mundo
Estudo publicado na revista Nature Communications cria estimativas do IDH em alta resolução para 61 mil municípios e 819 mil áreas de 10 km²; mais da metade da população global estava classificada no quintil errado dentro do próprio país
Por Laercio Damasceno - 18/02/2026


Foto: Nasa


Um consórcio internacional de pesquisadores conseguiu, pela primeira vez, estimar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em escala global com resolução municipal — e até em grades de 10 km por 10 km — usando imagens de satélite e aprendizado de máquina. O trabalho, publicado nesta terça-feira (17), na revista Nature Communications, indica que 58% da população mundial foi classificada no quintil errado de IDH dentro do próprio país quando se utilizam apenas dados provinciais. Em grades ainda mais detalhadas, o índice chega a 65%.

O estudo, intitulado “Global high-resolution estimates of the UN Human Development Index using satellite imagery and machine learning” (DOI: 10.1038/s41467-026-68805-6), foi conduzido por pesquisadores da Stanford University, University of British Columbia, California Institute of Technology e do United Nations Development Programme (PNUD).

Do país ao quarteirão

Criado pela ONU em 1990, o IDH combina renda, educação e expectativa de vida para medir o desenvolvimento humano. Oficialmente, o United Nations Development Programme divulga o índice apenas no nível nacional (191 países). Pesquisas recentes haviam avançado para cerca de 1.739 províncias.

O novo estudo vai além: produz estimativas para 61.530 municípios e 819.309 áreas de 0,1° x 0,1° (aproximadamente 10 km²).

“Grande parte das decisões públicas acontece em nível local, mas os dados disponíveis estavam agregados demais”, afirma Jonathan Proctor, da Universidade de British Columbia, um dos autores principais. “Isso gerava um viés de agregação significativo.”

Segundo os pesquisadores, ao atribuir o mesmo IDH a toda uma província, regiões urbanas desenvolvidas e áreas rurais vulneráveis eram colocadas no mesmo patamar estatístico — mascarando desigualdades internas.

Como o modelo funciona

O método combina imagens diurnas de alta resolução (cerca de 5 metros) com dados de luminosidade noturna e técnicas de aprendizado de máquina. A abordagem — chamada MOSAIKS — transforma padrões visuais de infraestrutura, densidade urbana, estradas e ocupação do solo em variáveis capazes de prever indicadores socioeconômicos.

Nos testes:

O modelo explicou 96% da variação total do IDH provincial quando ancorado às médias nacionais;
Explicou 52% da variação dentro dos países;
No Brasil, México e Indonésia — onde havia dados municipais independentes para validação — o modelo explicou entre 20% e 53% da variação intraestadual;
Ao testar outro indicador, o International Wealth Index, a metodologia capturou até 56% da variação dentro dos países.

“O desempenho é comparável a abordagens treinadas com dados muito mais detalhados”, diz Luke Sherman, da Stanford.


O retrato das desigualdades

As estimativas revelam padrões invisíveis nas estatísticas tradicionais: capitais como Moscou exibem centros com IDH elevado cercados por áreas periféricas menos desenvolvidas; no Paquistão e no noroeste da Índia, regiões irrigadas próximas ao rio Indo apresentam IDH maior que áreas desérticas vizinhas e em diversos países, estradas e eixos logísticos concentram bolsões de maior desenvolvimento.

O estudo calcula que, com base nas estimativas em grade fina, 20,4% da população mundial estava um quintil abaixo do que indicavam os dados provinciais; 21% estava um quintil acima e cerca de 9% estavam dois quintis deslocados para cima ou para baixo.

Para testar implicações práticas, os autores simularam um programa social no México destinado aos 10% mais vulneráveis.

Com dados provinciais, a taxa de acerto no direcionamento foi de 32,3%.
Com dados municipais estimados por satélite, subiu para 43,7% — um ganho de 11,4 pontos percentuais.

“Mesmo estimativas imperfeitas podem melhorar significativamente a eficiência do gasto público”, escrevem os autores.


Eles ressaltam, porém, que o modelo não substitui censos ou pesquisas domiciliares, mas pode complementar dados em países onde levantamentos são raros ou desatualizados. Segundo o artigo, apenas metade dos países de baixa renda realizou um censo na última década.

Limites e cautela

Os pesquisadores reconhecem limitações: as estimativas tendem a ter menor variância que os dados reais;  o modelo é mais preciso para renda e escolaridade do que para expectativa de vida; e a validação direta foi possível apenas em três países.

Especialistas alertam que decisões baseadas em algoritmos exigem transparência e avaliação contínua de vieses.

Ainda assim, o avanço abre uma nova fronteira: a possibilidade de medir desenvolvimento humano com granularidade quase cartográfica, atualizável com imagens recentes de satélite.

Os dados completos foram disponibilizados publicamente pelos autores para uso de governos e pesquisadores.

Em um mundo em que a desigualdade se desenha no detalhe do território, a combinação de satélites e inteligência artificial começa a revelar aquilo que as médias nacionais insistiam em esconder.


Referência
Sherman, L., Proctor, J., Druckenmiller, H. et al. Estimativas globais de alta resolução do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU usando imagens de satélite e aprendizado de máquina. Nat Commun 17 , 1315 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68805-6

 

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