Estudo reconstrói, pela 1ª vez, o 'cérebro' gravitacional das águas-vivas-de-pente
A descoberta reforça a ideia de que há múltiplas formas de organizar um sistema nervoso funcional, inclusive sem cérebro centralizado ou arquitetura clássica.

Os ctenóforos
Um estudo publicado nesta semana na revista eLife apresenta o primeiro mapeamento completo das conexões neurais do órgão responsável pelo senso de gravidade em um ctenóforo — grupo marinho conhecido como águas-vivas-de-pente. A pesquisa, liderada por cientistas do National Institute for Basic Biology, da Heidelberg University e da University of Exeter, reconstruiu em nível microscópico a rede neural do órgão aboral da espécie Mnemiopsis leidyi, revelando uma arquitetura inédita e desafiando modelos clássicos sobre a evolução do sistema nervoso.
O trabalho, conduzido por Kei Jokura e Gáspár Jékely, utilizou microscopia eletrônica volumétrica para reconstruir 1.011 células, das quais 905 pertencem ao órgão aboral — estrutura que funciona como um estatocisto, o sensor de gravidade do animal. Foram identificadas 396 sinapses e três grandes neurônios sinciciais, formando o que os autores chamam de rede nervosa aboral (ANN).
“Nosso objetivo era entender como esses animais, que não têm um cérebro centralizado, coordenam movimentos tão precisos”, afirmou Jokura, em comunicado divulgado pelas instituições. “O que encontramos foi uma rede neural organizadora, e não um simples circuito reflexo.”
Um sistema nervoso fora do padrão
Os ctenóforos ocupam posição central no debate evolutivo. Estudos genômicos sugerem que podem ser o grupo-irmão de todos os demais animais, hipótese que implicaria uma origem independente do sistema nervoso. A ausência de marcadores neurais clássicos nesses organismos reforçou essa possibilidade nos últimos anos.
Agora, a nova pesquisa detalha como funciona o estatocisto — uma cavidade que abriga um “estatólito”, pequena massa celular que pressiona cílios sensoriais conforme a orientação do corpo na água. Esses cílios pertencem às chamadas células balancim, distribuídas em quatro quadrantes simétricos.
O grupo reconstruiu o circuito que conecta essas células a neurônios sinciciais — estruturas contínuas, com múltiplos núcleos e sem divisão celular convencional. Diferentemente do que se esperava, não há sinapses das células sensoriais para os neurônios, o que contraria o modelo clássico sensório-motor.
“Não encontramos evidência de um fluxo linear de informação, do sensor ao motor”, escrevem os autores. “A rede parece atuar como coordenadora da atividade ciliar.”

Organização da rede nervosa sináptica aboral
(A) Representação morfológica do grande neurônio da rede nervosa aboral ANN_Q1-4, abrangendo todos os quatro quadrantes, em vista aboral (esquerda), vista sagital (painel central) e vista tentacular (painel direito). As esferas indicam as posições dos núcleos.
Coordenação, não comando
Além da reconstrução anatômica, a equipe realizou gravações em alta velocidade (100 quadros por segundo) para medir o batimento dos cílios sob diferentes orientações gravitacionais.
Os resultados mostram que eventos de parada e retomada do movimento (“arrest” e “re-beat”) são sincronizados entre quadrantes específicos do corpo. No plano sagital, as paradas ocorrem simultaneamente; no plano tentacular, há defasagens temporais de até 2,16 segundos. Já a retomada do movimento ocorre de forma coordenada nos quatro quadrantes.
Segundo o artigo, isso sugere que a ANN funciona como um sistema de sincronização global, modulando padrões rítmicos em vez de disparar comandos motores diretos.
Implicações evolutivas
Para Gáspár Jékely, da Universidade de Heidelberg, os resultados ampliam o entendimento sobre a diversidade dos sistemas nervosos. “Os ctenóforos mostram que circuitos neurais podem evoluir soluções distintas para problemas comuns, como manter a orientação no espaço”, afirma o pesquisador.
O estudo também dialoga com pesquisas anteriores que apontaram a existência de redes nervosas sinciciais no corpo desses animais, mas sem sinapses definidas. Aqui, os cientistas identificaram uma segunda classe de neurônios sinciciais, com organização própria e conexões estruturadas.
A descoberta reforça a ideia de que há múltiplas formas de organizar um sistema nervoso funcional, inclusive sem cérebro centralizado ou arquitetura clássica.
Próximos passos
Os autores destacam que ainda não se sabe quais neurotransmissores estão envolvidos nem como esses neurônios são ativados em tempo real. Estudos futuros deverão integrar dados moleculares e funcionais para esclarecer se o sistema dos ctenóforos representa uma linhagem evolutiva independente ou uma variação extrema de um plano ancestral comum.
Publicada em 17 de fevereiro de 2026, a pesquisa inaugura uma nova etapa na chamada “neurobiologia comparativa profunda” — campo que busca compreender como diferentes linhagens animais resolveram, ao longo de centenas de milhões de anos, o desafio de sentir e responder ao mundo físico.
Em um cenário em que a origem do sistema nervoso ainda é tema de disputa científica, as águas-vivas-de-pente voltam ao centro do debate — agora com um mapa neural detalhado em mãos.
Referência
Kei JokuraSanja Jasek, Lara Niederhaus, Pawel Burkhardt, Gáspár Jékely (2026). Conectoma neural do estatocisto do ctenóforo eLife 14 :RP108420. https://doi.org/10.7554/eLife.108420.3