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Calor e barulho do trânsito juntos afetam coração e memória, aponta estudo
O estudo simulou em laboratório as condições típicas do verão na cidade iraniana de Sari, combinando temperatura elevada (WBGT de 30,6 °C) e ruído de tráfego a 75 decibéis — nível comparável ao de uma avenida movimentada.
Por Laercio Damasceno - 22/02/2026


iStock.com/batuhanozdel


A combinação de calor intenso e ruído de trânsito — dois elementos cada vez mais comuns nas grandes cidades — provoca alterações mensuráveis no sistema cardiovascular e piora o desempenho cognitivo, segundo estudo publicado neste domingo (22), na revista Scientific Reports.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Mazandaran University of Medical Sciences e do Shahid Sadoughi University of Medical Sciences, simulou em laboratório as condições típicas do verão na cidade iraniana de Sari, combinando temperatura elevada (WBGT de 30,6 °C) e ruído de tráfego a 75 decibéis — nível comparável ao de uma avenida movimentada.

“Observamos que a exposição simultânea ao calor e ao ruído produz efeitos mais pronunciados do que cada fator isoladamente”, afirmou o pesquisador Seyed Ehsan Samaei, autor correspondente do estudo. “Isso sugere uma sobrecarga fisiológica real em ambientes urbanos quentes e ruidosos.”

Experimento controlado com 80 voluntários

O estudo envolveu 80 universitários saudáveis (40 homens e 40 mulheres, média de 26 anos), expostos, em dias diferentes, a quatro cenários:

1. Conforto térmico e silêncio (controle)
2. Calor isolado
3. Ruído de trânsito isolado
4. Calor e ruído combinados

Os pesquisadores monitoraram frequência cardíaca, pressão arterial e temperatura corporal, além de avaliar atenção sustentada (teste CPT) e memória de trabalho (teste n-back).

Os dados foram analisados por ANOVA de medidas repetidas, com nível de significância de 5%.

Foto do New York Daily News /Marcus Santos

Pressão arterial e frequência cardíaca sobem mais no cenário combinado

Entre os principais achados: a pressão diastólica aumentou significativamente no cenário combinado (p<0,001), com diferença de 4 a 6 mmHg em relação ao ruído isolado; a frequência cardíaca também se elevou na exposição dupla (p=0,032); a temperatura corporal central subiu tanto sob ruído (p=0,008) quanto na condição combinada (p=0,007).

Segundo os autores, o padrão indica maior carga cardiovascular quando os dois estressores atuam simultaneamente.

“O calor altera o volume intravascular e ativa mecanismos compensatórios, enquanto o ruído desencadeia respostas do sistema nervoso simpático. Quando combinados, esses mecanismos podem amplificar a resposta do organismo”, explicou Samaei.

Atenção e memória ficam mais lentas

No campo cognitivo, o impacto também foi claro.

O tempo de reação no teste de atenção sustentada aumentou significativamente sob calor (455 ms) e na condição combinada (462 ms), em comparação ao cenário de conforto (433 ms; p=0,001).

Nos testes de memória de trabalho (n-back), os níveis mais complexos (2 e 3) mostraram diferenças estatisticamente significativas entre as condições (p<0,001). De modo geral, o desempenho foi pior sob calor e na exposição combinada do que sob ruído isolado.

“Os resultados indicam que o calor parece ser o principal fator de lentificação cognitiva, mas o ruído adiciona uma carga extra”, escreveram os autores no artigo.

Implicações para cidades e ambientes de trabalho

Os pesquisadores destacam que, embora o estudo tenha sido conduzido em ambiente controlado, os resultados têm relevância direta para contextos urbanos e ocupacionais — especialmente em regiões de clima quente.

“Ambientes de trabalho ao ar livre, como construção civil e transporte, frequentemente expõem indivíduos a calor e ruído simultaneamente. Nossos dados sugerem que limites de exposição deveriam considerar a interação entre estressores, não apenas cada um isoladamente”, argumentam os autores.


Eles defendem que políticas públicas e normas ocupacionais passem a incorporar modelos de risco baseados em múltiplos fatores ambientais.

A amostra foi composta por jovens saudáveis, o que limita a generalização para populações mais vulneráveis, como idosos ou trabalhadores com doenças crônicas. O tempo de exposição também foi curto (30 minutos por sessão), não refletindo jornadas reais de trabalho.

Os autores recomendam estudos de campo em contextos ocupacionais reais e análises com populações diversas para confirmar a magnitude dos efeitos observados.

Ainda assim, o estudo reforça um alerta crescente na literatura científica: em um mundo mais quente e urbanizado, o impacto combinado de fatores ambientais pode ser maior do que a soma de suas partes.


Referência
Yousefinezhad, R., Jamchi, N., Amrolahi, M. et al. Impacto da exposição termoacústica no desempenho humano de adultos saudáveis: simulação do ruído do tráfego e das condições térmicas no ambiente urbano. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-41251-6

 

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