Metade do avanço no rendimento do trigo vem de 'manutenção genética', mostra estudo internacional
Análise de 13 mil ensaios em quatro países indica que ganhos atribuídos ao potencial produtivo foram superestimados; erosão silenciosa nas cultivares antigas consome quase metade do progresso

Domínio público
Um amplo estudo publicado nesta quarta-feira (4), na revista Nature Communications, concluiu que quase metade do aumento observado na produtividade do trigo nas últimas décadas não decorre de saltos no potencial genético das novas variedades, mas da necessidade de substituir cultivares antigas que perdem desempenho ao longo do tempo.
A pesquisa, intitulada “Maintenance breeding and breeding for yield potential both contribute to genetic improvement in wheat yield” , analisou 13.003 combinações de dados de cultivares, locais, anos e tratamentos com fungicida em ensaios conduzidos na Argentina, França, Reino Unido e Estados Unidos. No total, foram avaliadas 849 cultivares em 17 locais experimentais após o ano 2000.
Os autores estimaram um ganho médio global de 73 quilos por hectare por ano (kg/ha/ano) no rendimento do trigo ao comparar cultivares modernas com variedades “check” — aquelas amplamente plantadas logo após seu lançamento e mantidas por mais de uma década nos testes. No entanto, desse total, 33 kg/ha/ano correspondem à chamada “erosão de rendimento” das cultivares antigas — compensada por melhoramento de manutenção — e apenas 40 kg/ha/ano podem ser atribuídos ao aumento real do potencial produtivo.
“Comparações diretas entre cultivares antigas e modernas nas condições atuais tendem a superestimar os ganhos genéticos em potencial de rendimento”, afirmou o agrônomo Patricio Grassini, da Universidade de Nebraska-Lincoln, autor correspondente do estudo. Segundo ele, ignorar a erosão das variedades antigas cria uma ilusão de progresso mais acelerado do que o real.
Erosão silenciosa
O conceito central do estudo é que cultivares perdem adaptação com o tempo devido a mudanças no clima, na pressão de pragas e doenças, nas práticas agrícolas e até na composição atmosférica. Esse declínio progressivo — descrito como “yield erosion” — exige que programas de melhoramento lancem novas variedades não apenas para aumentar o teto produtivo, mas para evitar perdas.
Nos ensaios analisados, as cultivares “check” tratadas com fungicidas apresentaram queda média de 33 kg/ha/ano ao longo do tempo. Quando não tratadas, a redução foi ainda mais acentuada, chegando a 64 kg/ha/ano, indicando aumento de suscetibilidade a doenças foliares.
“O melhoramento de manutenção é tão essencial quanto o melhoramento para maior potencial produtivo. Sem ele, haveria declínio real no rendimento.”
Kenneth G. Cassman, coautor do estudo
Os pesquisadores utilizaram modelos estatísticos de efeitos mistos para separar tendências genéticas e não genéticas. Em todos os países analisados, exceto no caso de cultivos tratados no Reino Unido, foi detectada tendência negativa associada à erosão das variedades antigas.
Impacto global
O trigo é a cultura alimentar mais cultivada do mundo, com 217 milhões de hectares colhidos globalmente, respondendo por cerca de 20% das calorias e proteínas consumidas pela humanidade, segundo dados da FAO citados no estudo.
Os quatro países incluídos na análise representam juntos 30 milhões de hectares e 129 milhões de toneladas de produção — aproximadamente 14% da área e 17% da produção mundial de trigo.
A constatação de que ganhos no potencial produtivo podem estar sendo superestimados tem implicações para projeções globais de segurança alimentar. Se o avanço genético for mais lento do que se acreditava, futuros aumentos de produção dependerão mais fortemente do fechamento das lacunas de rendimento nas lavouras comerciais e da adoção de práticas agronômicas mais eficientes.
“Clareza sobre os fatores que realmente impulsionam o rendimento é essencial para definir prioridades de pesquisa”, escrevem os autores. Eles alertam que projeções otimistas de capacidade produtiva podem estar infladas caso não considerem a erosão genética.
Mudança de paradigma
Historicamente, muitos estudos estimaram o progresso genético com base na regressão entre rendimento e ano de lançamento das cultivares, assumindo que variedades antigas manteriam desempenho estável ao longo do tempo. O novo trabalho desafia essa premissa.
“A literatura sobre aumento de potencial produtivo provavelmente superestimou esses ganhos”, concluem os pesquisadores.
Para os autores, o resultado não diminui a importância do melhoramento genético, mas redefine seu papel: além de buscar avanços no teto produtivo, ele atua como escudo contra perdas graduais que poderiam comprometer a produção global de alimentos.
Em um cenário de mudanças climáticas e pressão crescente por alimentos, a distinção entre avanço real e manutenção pode ser decisiva para planejar o futuro da agricultura mundial.
Referência
Andrade, JF, Man, J., Monzon, JP et al. Melhoramento de manutenção e melhoramento para potencial de rendimento contribuem para o melhoramento genético no rendimento do trigo. Nat Commun 17 , 2078 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69936-6