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A maior ninhada de ovos de crocodiliformes do Mesozoico já descoberta é encontrada no Brasil
A descoberta indica novas implicações evolutivas para uma das faunas de crocodilomorfos fósseis mais diversas, fornecendo informações sobre seus hábitos e adaptações reprodutivas complexos e bem-sucedidos.
Por Sandee Oster - 06/03/2026


A maior ninhada de ovos de crocodiliformes do Mesozoico já encontrada, MPM 447, com 47 ovos. Crédito: Paixão et al. 2026


Em um estudo publicado no Journal of Vertebrate Paleontology , a Dra. Giovanna MX Paixão e seus colegas analisaram os restos fossilizados de três ninhadas de ovos do Cretáceo Superior. Uma dessas ninhadas, com um total de 47 ovos, é a maior ninhada de ovos de crocodiliformes do Mesozoico já encontrada. A descoberta indica novas implicações evolutivas para uma das faunas de crocodilomorfos fósseis mais diversas, fornecendo informações sobre seus hábitos e adaptações reprodutivas complexos e bem-sucedidos.

Descobrindo as três ninhadas de ovos

As unidades do Cretáceo Superior do Grupo Bauru, no Brasil, contêm alguns dos fósseis mais bem preservados do final do Mesozoico na América do Sul. Entre os fósseis recuperados, encontram-se titanossauros, terópodes, tartarugas, serpentes e diversos crocodiliformes, além de ovos fossilizados e icnofósseis.

O afloramento fossilífero contendo as três posturas de ovos foi descoberto pela primeira vez em 2004 pelo Dr. William Nava, um dos autores do estudo, em Presidente Prudente, no Grupo Bauru, Brasil. Os próprios ovos foram descobertos apenas em 2020, 16 anos depois, e posteriormente escavados ao longo de três temporadas de campo entre 2021 e 2023. As posturas de ovos, MPM 445, MPM 447 e MPM 448, continham 21, 47 e 15 ovos, respectivamente.

Postura MPM 445 com 21 ovos. Crédito: Paixão et al. 2026

Análise das posturas de ovos

A análise dos fósseis revelou que os ovos tinham formato elipsoidal, com extremidades rombas, cascas finas (0,3 a 0,8 mm de diâmetro) e unidades de casca trapezoidais apresentando protuberâncias basais largas e uma ultraestrutura tabular, todas características típicas de ovos de crocodiliformes.

Considerando que o subgrupo notossúquio é o crocodiliforme mais abundantemente representado no Grupo Bauru, é muito provável que os ovos tenham sido postos por eles.

Embora os autores se abstenham de identificar as espécies, a alta porosidade e espessura das cascas dos ovos, bem como o tamanho dos ovos, sugerem que estes foram postos em um ambiente mais úmido. Isso distingue essas ninhadas dos ovos menores e adaptados a ambientes mais secos de outros crocodiliformes conhecidos do Grupo Bauru, como os esfagesaurídeos e baurusuchídeos terrestres.

Embora não haja evidências diretas que liguem a ninhada a um táxon específico, as adaptações a condições úmidas são consistentes com crocydiliformes peirosaurídeos semi-aquáticos, embora a ligação permaneça provisória.

Segundo o Dra. Paixão, "A diferença no tamanho da ninhada reflete adaptações específicas do táxon, já que as três ninhadas também diferem em seu estado de preservação. ... Essa descoberta amplia nossa compreensão das estratégias reprodutivas dentro do grupo, incluindo o comportamento de nidificação e o cuidado parental."

As posturas dos notossúquios normalmente contêm apenas de dois a cinco ovos, o que está de acordo com o comportamento reprodutivo de uma espécie com estratégia K. Enquanto isso, os crocodiliformes modernos podem pôr entre 10 e 80 ovos por postura.

A ninhada do espécime MPM 447, composta por 47 ovos, é a maior já encontrada em um crocodiliforme do Mesozoico, fornecendo novas informações sobre as estratégias reprodutivas desse grupo. No entanto, os autores alertam que a ninhada pode representar múltiplos eventos de postura ou até mesmo nidificação comunitária.

Além dos próprios ovos, o sítio arqueológico também fornece informações sobre o comportamento de nidificação. O Dra. Paixão explica: "A disposição espacial dos ninhos sugere não apenas uma área de nidificação colonial de crocodilomorfos, mas também um local de nidificação mais amplo que pode ter permitido interações entre diferentes espécies. Atualmente, estamos realizando análises em outras ninhadas fósseis da mesma localidade que pertencem a outros grupos, como os dinossauros terópodes."

Estudos futuros irão explorar outras ninhadas do sítio, explica o Dra. Paixão. "Atualmente, estamos desenvolvendo análises adicionais sobre outras ninhadas do sítio atribuídas a dinossauros terópodes, incluindo aves. Esses estudos ainda precisam ser correlacionados com o artigo publicado, já que todos os ninhos ocorrem no mesmo nível estratigráfico e contexto geológico."

Em conjunto, essas descobertas revelam que o local de nidificação em Presidente Prudente foi utilizado por uma gama notavelmente diversa de répteis ovíparos e fornecem novas informações sobre as estratégias reprodutivas e o comportamento parental dos crocodiliformes do Mesozoico, incluindo a descoberta da maior ninhada de ovos já encontrada.


Detalhes da publicação
Giovanna MX Paixão et al, Evidências fósseis de posturas de ovos excepcionalmente grandes lançam luz sobre a diversidade reprodutiva em crocodiliformes do Cretáceo Superior do Brasil, Journal of Vertebrate Paleontology (2026). DOI: 10.1080/02724634.2025.2596997

Informações sobre o periódico: Journal of Vertebrate Paleontology 

 

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