Forças invisíveis sob a costa brasileira ajudam a explicar variações do nível do mar, aponta estudo
Pesquisa publicada na revista Scientific Reports mostra que movimentos da crosta terrestre e fatores climáticos locais influenciam mais do que se imaginava as medições do nível médio do mar ao longo do litoral do Brasil

Foto: Antônio More/Arquivo/Gazeta do Povo
Por décadas, cientistas e gestores públicos trataram o aumento do nível do mar como um indicador quase direto das mudanças climáticas globais. Mas um novo estudo sugere que, ao longo da costa brasileira, a história é mais complexa — e que processos geológicos e meteorológicos locais podem alterar significativamente a interpretação desses dados.
Publicado nesta sexta (6), na revista científica Scientific Reports, o trabalho analisa como fatores não oceânicos — como movimentos da crosta terrestre, temperatura do ar e padrões de precipitação — afetam as medições do nível médio do mar em diferentes regiões do litoral brasileiro. A pesquisa foi conduzida por N. S. Ribas Junior, E. F. Guedes, A. P. N. de Castro e A. M. da Silva Filho, ligados principalmente à Universidade Estadual de Feira de Santana e à Fundação Oswaldo Cruz.
Os resultados mostram que, em vários pontos do litoral, as variações registradas no nível do mar podem refletir tanto processos oceânicos quanto mudanças no próprio terreno onde as medições são feitas.
“O nível médio do mar é um indicador crucial para monitorar as mudanças climáticas, mas sua interpretação precisa considerar os efeitos locais”, escreveram os autores no estudo.
A ciência por trás do nível do mar
O nível do mar sempre foi objeto de observação humana. Desde tempos antigos, populações costeiras acompanharam as marés para navegação, pesca e segurança. Hoje, essas medições se tornaram essenciais para prever impactos climáticos, planejar infraestrutura costeira e avaliar riscos de inundação.
Tradicionalmente, as análises baseiam-se em dados de marégrafos — instrumentos que registram a altura da água — e em medições por satélite. Mas os cientistas ressaltam que fatores locais podem distorcer essas observações.
Entre eles está a subsidência costeira, o afundamento gradual do terreno. Quando isso ocorre, o mar pode parecer subir mais rápido do que realmente está. “Esse processo pode criar a impressão de uma elevação acelerada do nível do mar, mesmo quando a elevação global permanece estável”, afirmam os pesquisadores.
Para investigar essas influências, o estudo combinou séries temporais de dados coletados entre 2002 e 2023 em estações maregráficas distribuídas ao longo da costa brasileira. Os dados vieram da Rede Maregráfica Permanente para Geodésia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Além do nível do mar, os pesquisadores incorporaram três variáveis independentes à análise: altimetria GNSS (que mede movimentos verticais da crosta terrestre), precipitação e temperatura do ar.
Um método estatístico pouco usado
O estudo também traz uma inovação metodológica. Em vez de usar apenas técnicas estatísticas tradicionais, os pesquisadores aplicaram métodos de correlação multiescala — conhecidos como pDCCA e DMC2x — capazes de detectar relações complexas entre diferentes séries temporais.
Essas técnicas permitem analisar como as variáveis interagem em diferentes escalas de tempo, identificando padrões que podem permanecer ocultos em análises convencionais.
Segundo os autores, essa abordagem é particularmente útil para fenômenos geofísicos, que frequentemente apresentam comportamento não estacionário — ou seja, mudanças estruturais ao longo do tempo.
“O coeficiente DMC2x permite medir simultaneamente a influência de múltiplas variáveis sobre o nível do mar, preservando a capacidade de análise em múltiplas escalas”, explicam os pesquisadores.
O que os dados revelaram
Os resultados mostram que a altimetria GNSS — usada para detectar movimentos verticais do solo — apresentou as correlações mais fortes e consistentes com o nível médio do mar.
Isso foi especialmente evidente em cidades como Salvador e Santana, onde os dados indicam que deslocamentos da crosta terrestre podem influenciar diretamente as medições do mar.
Em Salvador, por exemplo, estudos geológicos já indicam que a região está localizada sobre uma falha tectônica que separa as áreas conhecidas como Cidade Alta e Cidade Baixa, associada à formação da Bacia Sedimentar do Recôncavo.
Já a temperatura do ar mostrou correlações positivas persistentes em algumas localidades, incluindo Arraial do Cabo e Belém, sugerindo que o aquecimento do oceano — e a consequente expansão térmica da água — também contribui para mudanças no nível do mar.
A precipitação, por outro lado, apresentou relações mais fracas e instáveis ao longo do tempo. Segundo os pesquisadores, isso pode refletir a influência de processos hidrológicos locais, como o escoamento de rios e a variabilidade climática regional.
Implicações para o futuro
Os autores afirmam que compreender essas interações é essencial para melhorar previsões sobre riscos costeiros.
Se medições do nível do mar forem interpretadas sem considerar fatores geológicos e climáticos locais, políticas públicas podem basear-se em estimativas imprecisas de risco.
O estudo também identificou padrões regionais dinâmicos e eventos extremos sazonais, como episódios observados em Fortaleza em 2021, reforçando a necessidade de monitoramento contínuo e análises de longo prazo.
No contexto global, o trabalho se soma a um crescente corpo de pesquisas que apontam a complexidade do sistema climático costeiro. Embora o aumento global do nível do mar esteja fortemente associado ao derretimento de geleiras e à expansão térmica dos oceanos, fatores locais podem amplificar ou mascarar esses sinais.
Para os autores, a combinação de dados geodésicos, meteorológicos e oceânicos abre novas possibilidades para compreender melhor a dinâmica costeira.
“Os resultados reforçam a complexidade dos fatores que controlam o nível médio do mar”, conclui o estudo, acrescentando que os métodos utilizados podem ajudar a identificar padrões multivariados importantes para o planejamento costeiro e a avaliação de riscos climáticos.
À medida que comunidades costeiras enfrentam a ameaça crescente da elevação do mar, pesquisas como essa mostram que entender o que acontece sob a superfície — literalmente — pode ser tão importante quanto observar as ondas que chegam à praia.
Referência
Junior, NSR, Guedes, EF, de Castro, APN et al. A influência de forças não oceânicas no nível médio do mar da costa brasileira: uma abordagem bivariada e multivariada. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-39554-9