Novo estudo internacional usa dados de quase 800 espécies para identificar áreas de maior risco de transmissão do vírus entre animais e humanos

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Um amplo estudo internacional publicado neste sábado (7), na revista científica Nature Communications, revela que os movimentos e a diversidade de aves aquáticas ao redor do planeta podem prever com grande precisão onde surgirão surtos de gripe aviária. A pesquisa, liderada por cientistas da Academia Chinesa de Ciências e de instituições da Europa e dos Estados Unidos, desenvolveu um indicador inédito que permite mapear áreas de risco global para a disseminação do vírus.
A ferramenta, chamada “entropia de atividade de aves aquáticas” — ou Waterbird Activity Entropy (WAE) — combina dados sobre diversidade, frequência e permanência de espécies em determinadas regiões. Com base nesse índice, os pesquisadores conseguiram explicar a distribuição mundial de casos de influenza aviária com alta precisão estatística, alcançando uma capacidade preditiva de 0,87 na escala AUC, um indicador amplamente utilizado em modelos epidemiológicos.
“Descobrimos que a intensidade e a diversidade da atividade das aves aquáticas são fortes indicadores do risco de transmissão do vírus”, afirmou o geógrafo Jinwei Dong, do Instituto de Ciências Geográficas e Pesquisa de Recursos Naturais da Academia Chinesa de Ciências e autor correspondente do estudo. Segundo ele, o método permite antecipar onde a influenza aviária pode emergir ou se espalhar.
Reservatórios naturais do vírus
A gripe aviária — causada por vírus influenza do tipo A — representa uma das principais ameaças zoonóticas do planeta. As últimas quatro pandemias de influenza, incluindo a de 1918 e a de 2009, tiveram origem total ou parcial em vírus derivados de aves.
No ambiente natural, aves aquáticas que vivem em pântanos, lagos, estuários e áreas costeiras funcionam como reservatórios do vírus. Muitas dessas espécies percorrem longas distâncias em migrações sazonais, carregando diferentes variantes do patógeno e favorecendo recombinações genéticas que podem gerar novas cepas.
“Essas aves se deslocam por continentes inteiros e frequentemente entram em contato com aves domésticas, gado e seres humanos”, explicou o ecólogo Yuzhe Li, primeiro autor do trabalho. “Esse contato cria oportunidades para o vírus atravessar barreiras entre espécies.”
Um modelo global de migração
Para construir o modelo, os pesquisadores analisaram registros de observação de aves disponíveis em grandes bases de dados internacionais, como o Global Biodiversity Information Facility (GBIF). A partir dessas informações, eles reconstruíram a distribuição mensal de 779 espécies de aves aquáticas em todo o planeta.
Três algoritmos de aprendizado de máquina — Random Forest, MaxEnt e XGBoost — foram utilizados para simular a presença das espécies em diferentes regiões ao longo do ano. O resultado foi um mapa global altamente detalhado das rotas migratórias e da intensidade de atividade dessas aves.
Com esses dados, os cientistas calcularam a chamada entropia de atividade. O índice considera não apenas quantas espécies frequentam determinada área, mas também quanto tempo permanecem ali ao longo do ano, capturando padrões de concentração de aves que podem favorecer a circulação viral.
Segundo os autores, áreas com maior entropia indicam maior probabilidade de contato entre espécies diferentes — uma condição ideal para a recombinação e disseminação de vírus.
Hotspots globais de risco
A análise revelou que cerca de 14% da superfície terrestre forma “hotspots” de risco de exposição à gripe aviária — regiões onde a atividade intensa de aves aquáticas coincide com altas densidades de humanos, gado ou aves domésticas.
Esses pontos críticos concentram: 55% da população humana mundial, 36% do rebanho bovino global e 51% das aves de criação.
Entre os países ou regiões com maior área de risco estão Estados Unidos, União Europeia, China e Índia, cada um com mais de 110 milhões de hectares classificados como áreas críticas.

Os Estados Unidos, por exemplo, concentram grandes áreas onde a atividade de aves aquáticas coincide com regiões de produção de gado leiteiro — um fator que ajuda a explicar recentes episódios de transmissão do vírus H5N1 para rebanhos bovinos.
Já na China e na Índia, o maior risco ocorre na interface entre aves migratórias, aves domésticas e populações humanas densas.
Lacunas na vigilância
Um dos resultados mais preocupantes do estudo está na África Subsaariana. Embora a região possua cerca de 300 milhões de hectares de áreas classificadas como hotspots, ela registra menos de 1% dos casos globais documentados da doença.
Para os pesquisadores, isso não significa ausência de vírus, mas sim falta de vigilância epidemiológica.
“A discrepância sugere que muitos casos podem estar passando despercebidos”, disse Mariëlle van Toor, pesquisadora da Universidade Linnaeus, na Suécia. “Sem sistemas robustos de monitoramento, surtos podem se desenvolver silenciosamente.”
Espécies mais perigosas
A análise também identificou os grupos de aves mais associados ao risco de transmissão. Entre eles, dois se destacam: anseriformes (patos, gansos e cisnes) e aves marinhas
Essas espécies apresentaram a maior correlação espacial com áreas de alta densidade humana e de animais domésticos.
“As aves aquáticas são hospedeiras extremamente competentes para o vírus e frequentemente compartilham habitats com aves domésticas”, explicou Jonas Waldenström, da Universidade Linnaeus.
Ferramenta para prevenção
Os cientistas afirmam que o modelo pode se tornar uma ferramenta importante para políticas globais de saúde pública. Ao identificar áreas críticas de risco, autoridades podem direcionar melhor recursos de vigilância, vacinação e controle sanitário.
O estudo também reforça o conceito de “Uma Só Saúde” (One Health) — abordagem que reconhece a interconexão entre saúde humana, animal e ambiental.
“Doenças emergentes não respeitam fronteiras”, disse Dong. “Se quisermos prevenir a próxima pandemia, precisamos entender como os ecossistemas naturais interagem com nossas atividades.”
Segundo os autores, aprimorar a vigilância em regiões com poucos dados e integrar informações ecológicas com monitoramento epidemiológico serão passos essenciais para antecipar futuros surtos de gripe aviária — e possivelmente evitar uma nova crise sanitária global.
Referência
Li, Y., Qiao, Y., Zhan, Y. et al. Mapeamento de padrões globais de risco de influenza aviária por meio da entropia da atividade de aves aquáticas. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-70432-0