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A disputa silenciosa pela terra: estudo global mostra que metas climáticas, produção de alimentos e conservação podem entrar em choque
Pesquisa publicada na Nature Communications revela que a expansão de energia renovável e da agricultura pode afetar quase 1 milhão de km2 de áreas prioritárias para biodiversidade se o planejamento territorial não integrar os três setores
Por Laercio Damasceno - 07/03/2026


Domínio público


À medida que o mundo acelera a transição para energia limpa e tenta garantir alimento para uma população crescente, um novo estudo científico aponta um risco pouco discutido: a disputa por terra entre agricultura, energia renovável e conservação da natureza. Sem planejamento integrado, a expansão necessária para cumprir metas climáticas e alimentar o planeta pode comprometer vastas áreas cruciais para a biodiversidade.

A conclusão vem de uma análise global publicada neste sábado (7), na revista Nature Communications, conduzida por um consórcio internacional de pesquisadores liderado pela cientista Cameryn Brock, do Moore Center for Science and Solutions, da Conservation International. Utilizando modelos computacionais avançados, o grupo analisou como a terra poderia ser distribuída até 2050 para atender simultaneamente às necessidades de produção agrícola, geração de energia renovável e proteção de ecossistemas.

O resultado revela um equilíbrio delicado. Caso decisões de uso da terra sejam tomadas sem considerar a conservação ambiental, quase 1 milhão de quilômetros quadrados de áreas prioritárias para a natureza — uma superfície comparável ao território do Egito — podem ser afetados por novos projetos de agricultura ou energia, segundo o estudo. 

“Resolver a crise climática não pode significar agravar a crise da biodiversidade”, disse Brock, autora principal do estudo. “Nosso trabalho mostra que a maneira como planejamos o uso da terra será decisiva para determinar se essas agendas globais entrarão em conflito ou se poderão avançar juntas.” 

Três futuros possíveis para o uso da terra

Para compreender os riscos, os pesquisadores criaram três cenários globais de planejamento territorial.

No primeiro, chamado “produção primeiro”, terras são inicialmente destinadas a atender a demanda por alimentos e energia; a conservação é considerada apenas depois. No segundo, “natureza primeiro”, a proteção ambiental recebe prioridade antes da expansão econômica. Já no terceiro, denominado “planejamento multissetorial”, agricultura, energia e conservação são planejadas simultaneamente.

A diferença entre essas abordagens mostrou impactos significativos.

Quando o planejamento prioriza a produção, as metas de desenvolvimento — como geração de energia renovável ou expansão agrícola — são mais facilmente atingidas. Nesse cenário, 94% das metas de produção global são alcançadas. Mas a eficiência econômica vem com um custo ecológico maior: 674 espécies ameaçadas ou quase ameaçadas ficam expostas à expansão do desenvolvimento, incluindo mais de 200 espécies em perigo de extinção. 

No cenário de prioridade à natureza, o número de espécies afetadas cai para 510, e a perda potencial de carbono armazenado em ecossistemas também diminui. Contudo, apenas 74% das metas de produção são alcançadas. 

O cenário intermediário, com planejamento multissetorial, apresenta resultados mais equilibrados — atingindo 87% das metas de produção e reduzindo os impactos ambientais em comparação com o modelo orientado apenas pela produção.

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Segundo os autores, isso demonstra que coordenação entre setores pode reduzir conflitos sem comprometer completamente os objetivos de desenvolvimento.

A nova pressão territorial da energia limpa

Um dos fatores centrais por trás dessa competição é a própria transição energética.

Embora energia solar e eólica sejam fundamentais para reduzir emissões de gases de efeito estufa, elas também demandam espaço. A pesquisa estima que, até 2050, 4,5 milhões de quilômetros quadrados de terra poderão ser destinados à geração de energia renovável, o equivalente a cerca de 3% de toda a superfície terrestre. 

Grande parte dessa área seria ocupada por parques eólicos, responsáveis por cerca de 76% da nova área energética, seguidos por instalações solares (19%) e hidrelétricas (5%). 

Ao mesmo tempo, a agricultura continuará avançando para atender à demanda alimentar e à produção de biocombustíveis. O estudo projeta 2 milhões de quilômetros quadrados adicionais convertidos para agricultura até 2050, com quase metade dedicada a culturas energéticas. 

Para o coautor Patrick Roehrdanz, também da Conservation International, isso revela uma realidade frequentemente ignorada no debate climático.

“Energia também é uma forma de uso da terra”, afirmou. “À medida que expandimos renováveis em escala global, precisamos considerar cuidadosamente onde elas serão instaladas.” 

Mais terra protegida pode ser necessária

O estudo também sugere que metas internacionais atuais de conservação podem não ser suficientes.

A meta global conhecida como “30 por 30”, que prevê proteger 30% das terras do planeta até 2030, pode representar apenas um passo inicial. Segundo a análise, até 56% da superfície terrestre poderia ser necessária para conservar adequadamente espécies, carbono e serviços ecossistêmicos — como polinização e regulação da água. 

Isso ocorre porque muitas espécies ameaçadas possuem habitats limitados e fragmentados, exigindo maior proteção territorial para sobreviver.

Regiões onde conflitos entre conservação e desenvolvimento podem se intensificar incluem China, Índia, Estados Unidos, norte da África e partes da Europa, onde áreas adequadas para energia renovável ou agricultura frequentemente coincidem com zonas de alta biodiversidade.

Um novo modelo de planejamento ambiental

Apesar dos desafios, os pesquisadores argumentam que soluções existem. Entre elas estão paisagens multifuncionais, nas quais diferentes atividades coexistem no mesmo espaço.

Exemplos incluem agrivoltaica — instalação de painéis solares em áreas agrícolas — e parques eólicos em regiões de cultivo, práticas que podem reduzir a necessidade de novas conversões de terra.

“Planejar de forma integrada permite encontrar sinergias que seriam invisíveis em abordagens isoladas”, disse Brock. “A energia renovável tem uma vantagem: ela pode ser instalada em diversos lugares. Isso nos dá a oportunidade de evitar áreas críticas para a biodiversidade.” 


Ainda assim, os autores enfatizam que os resultados globais servem principalmente como guia estratégico. Decisões concretas precisarão incorporar dados locais, participação de comunidades e políticas nacionais.

A mensagem central, porém, é clara: no século XXI, a luta contra a mudança climática, a proteção da natureza e a segurança alimentar dependerão cada vez mais da mesma coisa — como o planeta decide usar sua terra.


Referência
Brock, C., Roehrdanz, PR, Beringer, T. et al. Equilibrando o uso da terra para conservação, agricultura e energia renovável. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69952-6

 

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