Soluções naturais para o clima enfrentam barreiras sociais e institucionais globais, mostra grande análise científica
Revisão global de 501 estudos e projetos em 137 países revela que desafios políticos, sociais e de conhecimento limitam o potencial das soluções baseadas na natureza para reduzir emissões de carbono

Domínio público
Uma das estratégias mais promissoras para combater as mudanças climáticas — as chamadas Soluções Climáticas Naturais (Natural Climate Solutions, NCS) — enfrenta obstáculos muito mais complexos do que simplesmente plantar árvores ou restaurar ecossistemas. Uma nova análise global publicada nesta semana na revista científica Nature Communications revela que fatores sociais, políticos e institucionais são os principais entraves para a expansão dessas soluções em larga escala.
O estudo, liderado por Timm Kroeger, cientista da organização The Nature Conservancy, reuniu dados de 347 artigos científicos e 154 projetos ambientais distribuídos em 137 países, tornando-se o levantamento mais abrangente já realizado sobre barreiras à implementação dessas iniciativas. Entre os coautores estão pesquisadores como James T. Erbaugh, Zhixian Luo, Hilary Brumberg e o pesquisador brasileiro Pedro H. S. Brancalion, da Universidade de São Paulo.
Os resultados mostram que, apesar do enorme potencial climático dessas soluções, a adoção global ainda está muito aquém do possível.
“Sem esforços específicos para remover os obstáculos identificados, o potencial de mitigação das soluções naturais pode permanecer muito abaixo do que a ciência estima”, afirma Kroeger.
O potencial climático da natureza
As soluções climáticas naturais incluem ações como reflorestamento, agroflorestas, proteção de florestas e manejo sustentável da terra e de ecossistemas aquáticos. Essas intervenções podem reduzir emissões de gases de efeito estufa ou capturar carbono da atmosfera.
Segundo estimativas do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), medidas relacionadas ao uso da terra, agricultura e florestas podem gerar um potencial técnico de mitigação médio de 28,4 gigatoneladas de CO2 equivalente por ano entre 2020 e 2050 — um volume significativo na luta para limitar o aquecimento global a menos de 2 °C acima dos níveis pré-industriais.
Entre as estratégias analisadas, o estudo aponta que três caminhos dominam as iniciativas globais: reflorestamento, presente em cerca de 44% dos projetos ou estudos analisados; agroflorestas, com 35% das observações; e prevenção da conversão de florestas, com 30%.
O Brasil aparece entre os países com maior número de estudos e projetos documentados — 52 registros, atrás apenas dos Estados Unidos.
Um mapa global de obstáculos
Para entender por que essas soluções não estão sendo implementadas em larga escala, os pesquisadores mapearam 46 tipos diferentes de restrições agrupadas em oito categorias, incluindo fatores sociais, econômicos, legais e institucionais.
No total, o estudo identificou 15.572 registros georreferenciados de obstáculos enfrentados por projetos ambientais.
As três categorias de barreiras mais comuns foram:
1. Fatores sociais e comportamentais — cerca de 19% dos registros
2. Falta de conhecimento técnico ou informação — 17%
3. Problemas de governança e instituições — 16%
Entre os obstáculos específicos mais frequentes estão: falta de coordenação entre políticas públicas ou capacidade institucional limitada; aplicação fraca das leis ambientais; falta de informação sobre como implementar soluções naturais; e desconfiança ou ceticismo das comunidades em relação aos projetos; e falta de financiamento para proprietários de terra ou gestores de projetos
Segundo os autores, projetos de soluções naturais geralmente enfrentam múltiplos obstáculos simultaneamente. Em média, cada estudo ou projeto analisado relatou 7,8 restrições diferentes em 3,2 categorias distintas.
“Os resultados mostram que a implementação dessas soluções raramente é bloqueada por um único fator”, explica Brumberg. “Na maioria das vezes, trata-se de um conjunto complexo de desafios interligados.”
Diferenças regionais
Embora muitos obstáculos sejam comuns em todo o mundo, o estudo identificou variações regionais importantes.
Na África, as principais barreiras envolvem financiamento limitado, lacunas de conhecimento técnico e desafios sociais, incluindo redes fracas de aprendizado entre agricultores.
Na Ásia, predominam obstáculos sociais e de conhecimento, enquanto na Europa os mercados e incentivos econômicos desempenham um papel mais relevante.

Domínio público
Já nas Américas, incluindo a América do Sul, os desafios mais frequentes estão relacionados à governança e aplicação das leis ambientais.
Muito além do financiamento
Embora a falta de financiamento seja frequentemente apontada como a principal barreira às soluções climáticas baseadas na natureza, o estudo mostra que o problema é mais complexo.
“Financiamento é importante, mas sozinho não resolve o problema”, escrevem os autores. “Questões sociais, institucionais e de informação também precisam ser abordadas.”
Por exemplo, agricultores podem rejeitar projetos de reflorestamento se não tiverem acesso a informações claras sobre seus benefícios ou se acreditarem que outras formas de uso da terra são mais lucrativas.
Em alguns casos, a simples falta de redes de troca de conhecimento entre agricultores e técnicos já é suficiente para impedir a adoção de novas práticas.
O caminho para ampliar as soluções naturais
Com base na análise, os pesquisadores defendem que ampliar as soluções naturais exigirá abordagens integradas e sistêmicas.
Entre as medidas consideradas essenciais estão: fortalecer direitos territoriais de comunidades locais e povos indígenas; criar redes de aprendizado entre agricultores e gestores ambientais; melhorar a coordenação entre políticas públicas; expandir serviços de extensão rural e assistência técnica; desenvolver mercados para produtos e serviços ambientais; e aumentar o financiamento para projetos baseados na natureza.
Segundo os autores, muitas dessas intervenções podem gerar benefícios adicionais além do clima, como redução da pobreza rural, aumento da segurança alimentar e proteção da biodiversidade.
Natureza como aliada — mas não substituta
Apesar do potencial das soluções naturais, os pesquisadores enfatizam que elas não substituem a redução das emissões provenientes de combustíveis fósseis.
“Mesmo com a expansão dessas estratégias, cortes profundos nas emissões fósseis continuam sendo essenciais”, concluem os autores.
A mensagem central do estudo é clara: a natureza pode ser uma poderosa aliada contra as mudanças climáticas, mas transformar esse potencial em realidade exige enfrentar um conjunto complexo de desafios sociais, econômicos e políticos.
Referência
Kroeger, T., Erbaugh, JT, Luo, Z. et al. Revisão da literatura global e levantamento das restrições à implementação de soluções climáticas naturais. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-70482-4