Insetos migratórios revelam 'bússola dupla' invisível: estudo mostra como mariposa invasora navega milhares de quilômetros no escuro
A migração de insetos noturnos sempre intrigou cientistas. Diferentemente de borboletas diurnas, que usam o Sol como guia, mariposas precisam navegar na escuridão, muitas vezes a centenas de metros de altitude.

Imagem: chinahbzyg/Shutterstock
Uma das espécies mais devastadoras da agricultura global acaba de revelar um segredo surpreendente sobre sua extraordinária capacidade de dispersão. Um estudo publicado nesta segunda-feira (16), na revista eLife, demonstra que a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) — praga que já invadiu todos os continentes habitáveis — depende de uma sofisticada integração entre o campo magnético da Terra e pistas visuais para orientar suas migrações noturnas. A descoberta redefine o entendimento sobre navegação em insetos e pode abrir caminhos para estratégias inovadoras de controle agrícola.
O trabalho, liderado por Yi-Bo Ma e Gui-Jun Wan, com colaboração internacional envolvendo a Nanjing Agricultural University, a Lund University e a University of Exeter, apresenta evidências experimentais robustas de que esses insetos utilizam uma “bússola dupla”. Segundo os autores, o sistema combina sinais geomagnéticos — relativamente estáveis em escala global — com referências visuais, essenciais para manter estabilidade e direção durante o voo.
Um desafio antigo da biologia
A migração de insetos noturnos sempre intrigou cientistas. Diferentemente de borboletas diurnas, que usam o Sol como guia, mariposas precisam navegar na escuridão, muitas vezes a centenas de metros de altitude. Ainda assim, bilhões desses insetos percorrem centenas ou até milhares de quilômetros todos os anos, com precisão comparável à de aves migratórias.
“Sabíamos que eles eram navegadores extraordinários, mas não entendíamos exatamente quais sinais sensoriais usavam”, explica Gao Hu. “Nosso trabalho mostra que a orientação magnética, por si só, não é suficiente — ela depende criticamente de informações visuais.”
O campo magnético da Terra e os sinais visuais orientam o comportamento de voo migratório tanto em uma população de lagartas-do-cartucho em seu habitat natural quanto em lagartas criadas em laboratório.

( A ) Comportamento de orientação de voo de uma população de mariposas em campo na primavera (“Campo Experimental de Primavera”) em resposta a estímulos visuais e geomagnéticos. ( B ) Comportamento de orientação de voo de uma população de mariposas em campo no outono (“Campo Experimental de Outono”) em resposta a estímulos visuais e geomagnéticos. ( C ) Comportamento de orientação de voo de mariposas criadas em laboratório e condicionadas ao outono (“Laboratório Experimental de Outono”) em resposta a estímulos visuais e geomagnéticos...
O experimento: simular o voo em laboratório
Para desvendar esse mecanismo, os pesquisadores criaram um simulador de voo controlado, onde mariposas eram mantidas em posição fixa, mas livres para escolher a direção de voo. O ambiente permitia manipular tanto o campo magnético quanto pistas visuais — como uma simples forma triangular no horizonte.
Os resultados foram consistentes e estatisticamente significativos. Em condições normais, os insetos exibiram orientação coletiva clara: na primavera, voavam para o norte (média de 347,4°; P < 0,001), e no outono, para o sul (183,6°; P < 0,001).
Quando os cientistas inverteram artificialmente o campo magnético, criando um conflito com as pistas visuais, os insetos inicialmente mantiveram sua trajetória — mas, após cerca de 5 a 10 minutos, perderam completamente a orientação.
“Esse atraso é fascinante”, diz Eric J Warrant, coautor do estudo. “Indica que o cérebro do inseto precisa de tempo para detectar e processar inconsistências entre os sinais sensoriais.”
A peça-chave: a visão
O achado mais marcante veio quando os pesquisadores removeram completamente as pistas visuais. Em total escuridão, ou em ambientes com iluminação uniforme sem referências, as mariposas perderam não apenas a direção, mas também a estabilidade do voo.
Os dados mostram uma queda significativa nos índices de orientação (R* = 0,5; P > 0,05), indicando comportamento aleatório.
Além disso, análises de movimento revelaram aumento nas variações angulares por segundo — sinal de perda de controle durante o voo. Em outras palavras, sem visão, nem mesmo a “bússola magnética” funciona adequadamente.
“Isso muda completamente a interpretação de estudos anteriores”, afirma Jason W Chapman. “A ausência de orientação magnética não significa que o animal não detecta o campo magnético — pode apenas indicar falta de integração com outros sentidos.”
Uma estratégia evolutiva sofisticada
O estudo também mostra que a integração entre pistas visuais e magnéticas é modulada por fatores sazonais, como o fotoperíodo. Indivíduos criados em laboratório sob condições simuladas de outono apresentaram comportamento migratório idêntico ao de populações selvagens, reforçando a base biológica do mecanismo.
Essa capacidade permite que a espécie ajuste sua direção ao longo do ano — movendo-se para regiões temperadas na primavera e retornando aos trópicos no outono — acompanhando a disponibilidade de recursos.
Impacto global e aplicações práticas
A lagarta-do-cartucho é responsável por perdas agrícolas bilionárias, especialmente em culturas como milho. Originária das Américas, a espécie se espalhou rapidamente pela África, Ásia e Oceania na última década, impulsionada justamente por sua habilidade migratória.
Compreender seus mecanismos de navegação pode ter implicações diretas no controle da praga. Estratégias futuras podem explorar interferências em pistas visuais ou magnéticas para desorientar populações migratórias.
“Se conseguirmos perturbar essa integração sensorial, podemos reduzir drasticamente a dispersão da espécie”, sugere Yan Wu.
Os autores destacam que ainda há lacunas importantes. Não se sabe, por exemplo, se esses insetos utilizam também pistas celestes, como estrelas ou padrões de luz no céu noturno, nem como diferentes tipos de sinais visuais são ponderados.
Outro desafio é entender o mecanismo biológico da magnetorrecepção — se depende de polaridade ou inclinação do campo magnético, uma questão central na biologia sensorial.
Um novo paradigma na navegação animal
Até recentemente, apenas uma espécie de mariposa — a Bogong moth australiana — havia demonstrado uso combinado de pistas magnéticas e visuais. O novo estudo amplia esse fenômeno para um inseto com padrão migratório mais típico, sugerindo que a estratégia pode ser amplamente compartilhada entre espécies.

Domínio público
Mais do que um avanço na entomologia, a pesquisa reforça um conceito emergente na ciência: a navegação animal é, quase sempre, multimodal.
Num mundo cada vez mais iluminado artificialmente e magneticamente perturbado, entender como criaturas aparentemente simples cruzam continentes no escuro pode ser crucial — não apenas para proteger lavouras, mas para preservar o equilíbrio ecológico global.
Referência
Yi Bo Ma, Gui-Jun Wan, Yi Ji, Hui Chen, Bo-Ya Gao, Dai-Hong Yu, Eric J. Mandado de prisão, Yan Wu, Jason W Chapman,Gao Hu. 2025 Sinais geomagnéticos e visuais guiam a orientação migratória sazonal da lagarta-do-cartucho noturna, o inseto mais invasor do mundo eLife 14 : RP109098. https://doi.org/ 10.7554/eLife.109098.3