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Calor extremo já ameaça biodiversidade na Amazônia e reduz espécies-chave, aponta estudo internacional
Pesquisa em gradiente entre Andes e floresta amazônica revela que aumento da temperatura impulsiona, mas também limita a diversidade — com efeitos diretos sobre funções ecológicas essenciais
Por Laercio Damasceno - 25/03/2026


Imagem: Reprodução


Um amplo estudo conduzido por cientistas europeus e latino-americanos acendeu um alerta sobre os impactos do aquecimento global na biodiversidade tropical: o calor, ao mesmo tempo em que favorece a diversidade de espécies, pode também provocar seu colapso — especialmente nas regiões mais quentes da Amazônia.

Publicado nesta quarta-feira (25), na revista Proceedings of the Royal Society B, o trabalho liderado pela ecóloga Kim L. Holzmann, da University of Würzburg, analisou besouros rola-bosta (Scarabaeinae) ao longo de um gradiente de altitude que vai da Amazônia peruana até os Andes, entre 250 e 3.500 metros acima do nível do mar .

Os resultados mostram um padrão paradoxal: a diversidade de espécies cresce com o aumento da temperatura — mas apenas até certo ponto. A partir de limites térmicos críticos, o efeito se inverte. “A temperatura é o principal motor da diversidade, mas também o seu maior limitador em ambientes tropicais quentes”, afirma Holzmann .

Pico de biodiversidade — e queda abrupta

Os pesquisadores coletaram 4.937 indivíduos, distribuídos em 104 espécies, utilizando armadilhas com diferentes tipos de isca (fezes, carniça e frutas fermentadas) . A análise revelou um padrão em forma de “curva em sino”: a diversidade atinge seu pico em torno de 500 metros de altitude e declina progressivamente em altitudes maiores.

Mais surpreendente, porém, foi a queda brusca nas áreas mais baixas — justamente onde se esperaria maior riqueza biológica. “Observamos uma redução acentuada da diversidade abaixo de 500 metros, sugerindo que o calor já ultrapassa os limites fisiológicos de parte das espécies”, escrevem os autores .

Calor letal em questão de minutos

O estudo foi além da observação ecológica e investigou os limites térmicos dos insetos. Experimentos laboratoriais mediram o chamado CTmax — a temperatura máxima tolerada antes da perda de mobilidade.

Os dados mostram que, nas regiões de baixa altitude, a margem de segurança térmica é mínima ou até negativa. Em alguns casos, temperaturas registradas no ambiente são suficientes para provocar colapso fisiológico em minutos ou até segundos .

Segundo os cálculos, até 22,5% das temperaturas de superfície medidas nas áreas mais quentes poderiam induzir “coma térmico” em menos de uma hora . “Mesmo exposições curtas podem causar danos acumulativos e levar à morte”, destacam os pesquisadores.

Temperatura pesa mais que alimento

Um dos resultados mais relevantes do estudo contraria uma hipótese clássica da ecologia: a de que a disponibilidade de alimento determina a diversidade de espécies.

Apesar de os besouros dependerem diretamente de fezes de mamíferos, a biomassa desses animais não teve impacto significativo sobre a diversidade. Em contraste, variáveis climáticas — especialmente temperatura — explicaram cerca de 65% da variação observada .

“A evidência aponta que organismos ectotérmicos, como insetos, são mais limitados pela temperatura do que pelos recursos alimentares em grandes escalas”, concluem os autores.


Outro achado importante diz respeito ao comportamento alimentar. Nas áreas mais quentes e biodiversas, os besouros tendem a ser mais especializados — cada espécie explora um tipo específico de recurso.

Já nas regiões mais frias e pobres em espécies, predominam os generalistas. Isso sugere que a perda de biodiversidade pode simplificar redes ecológicas inteiras, reduzindo a especialização e, potencialmente, a eficiência dos ecossistemas .

Impacto em cadeia

Embora discretos, os besouros rola-bosta desempenham funções ecológicas cruciais: reciclagem de nutrientes, dispersão de sementes e controle de parasitas. A redução dessas populações pode desencadear efeitos em cascata.

“O declínio desses insetos pode comprometer processos fundamentais da floresta”, alertam os autores.

O estudo ganha ainda mais relevância diante das projeções climáticas. Modelos indicam que a temperatura média nas áreas mais quentes da Amazônia pode subir até 10 °C até 2100 — valor suficiente para ultrapassar amplamente os limites fisiológicos observados.

Imagem gerada por inteligência artificial

Nesse cenário, mesmo florestas preservadas não estariam imunes. “Nossos dados sugerem que o aquecimento adicional pode ter consequências prejudiciais mesmo em ecossistemas intactos”, afirmam os pesquisadores .

Desafio científico e político

O trabalho reforça a necessidade de estudar gradientes completos de biodiversidade — incluindo áreas de baixa altitude frequentemente negligenciadas — e de preservar corredores ecológicos que permitam a migração de espécies.

Mais do que isso, coloca em evidência um ponto crítico do debate ambiental: a crise climática não ameaça apenas espécies isoladas, mas o funcionamento inteiro dos ecossistemas tropicais.

Em um momento em que a Amazônia já enfrenta pressões de desmatamento e seca, o calor surge como um inimigo silencioso — e potencialmente irreversível.


Referência
A temperatura influencia e restringe a diversidade de besouros coprófagos ao longo de um gradiente altitudinal andino-amazônico.  Kim L. Holzmann, Pedro Alonso-Alonso, Yenny Correa-Carmona, Andrea Pinos-Leon, Felipe Yon, Mabel Alvarado, Adrian Forsyth, Friederike Gebert, Alejandro Lopera-Toro, Andreas Kolter, Gunnar Brehm, Alexander Keller, Ingolf Steffan-Dewenter, Marcell K. Peters. Revista: Anais da Sociedade Real B: Ciências Biológicas. https://doi.org/10.1098/rspb.2025.2792

 

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