Composto natural testado em cabelos melhora hidratação e forma camada de proteção nos fios
Estudo aponta potencial do biopolímero derivado da tara e da alga vermelha na formação de filme sobre o cabelo, essencial para composição da barreira protetora contra a poluição e outros fatores de dano

A combinação de compostos presentes na tara e na alga vermelha é utilizada em produtos cosméticos e de cuidados capilares devido às suas propriedades sinérgicas de proteção, hidratação e melhoria da textura – Foto: Flickr
Os biopolímeros são macromoléculas naturais produzidas por organismos vivos, sendo alternativas sustentáveis aos polímeros sintéticos tradicionais em razão do potencial biodegradável e menor impacto ambiental. Atuando como espessantes, estabilizadores, agentes condicionantes e formadores de filme, esses compostos são fundamentais na indústria de cosméticos, melhorando a textura, fixação e experiência sensorial dos produtos.
Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP vêm trabalhando com o efeito filmógeno do biopolímero derivado da tara (Caesalpinia spinosa) e da alga vermelha (Kappaphycus alvarezii). Os resultados mostraram que a formação de filme da formulação na superfície do cabelo aumentou o brilho, a maciez e proporcionou maior facilidade para pentear os fios.
Rafaela Zito, aluna da graduação em Farmácia da FCFRP e bolsista do Núcleo de Estudos Avançados em Tecnologia de Cosméticos (Neatec), explica que a capacidade da substância de formar uma película contínua de revestimento é abordada em muitos estudos, contudo a aplicação da formulação no cabelo é inédita.
A ideia de trabalhar com esses compostos surgiu de trabalhos realizados anteriormente pelo grupo, com enfoque no cuidado com a pele. As pesquisadoras desenvolveram um gel feito a partir do biopolímero derivado da tara (fruto de um arbusto florido nativo da América Latina) e de uma espécie de alga marinha conhecida como musgo marinho chifre-de-alce. Depois de aplicado na pele dos pacientes, o produto formou uma barreira protetora, combinando o efeito tensor – popularmente conhecido como lifting imediato – e o efeito filmógeno. Além de melhorarem a aparência, os compostos atuam na hidratação e firmeza da pele, induzindo a produção de colágeno.
Já para a solução capilar proposta, a equipe adicionou o biopolímero em um shampoo, condicionador e um leave-in, produtos estes desenvolvidos pelo grupo de pesquisa.O estudo de eficácia contou com três mechas de cabelo utilizadas como controle não tratado, tratado com formulações sem o biopolímero e tratado com as formulações do estudo. Rafaela relata que as mechas foram submetidas a um processo padronizado de higienização com a solução de lauril éter sulfato de sódio e, em seguida, calcularam as medidas basais. As mechas passaram pelo tratamento com shampoo, condicionador, secagem e uso do leave-in, todos com quantidade, tempo e temperatura padronizadas. “Esse protocolo de tratamento foi realizado três vezes, para ser possível verificar realmente o efeito da formulação, porque o shampoo, condicionador e leave-in são produtos que nós, consumidores, fazemos uso contínuo”, aponta a aluna.
Patrícia Maia Campos, professora titular da FCFRP e coordenadora do Neatec, comenta que o estudo teve resultados positivos na reologia das formulações, área que estuda o fluxo e a deformação de materiais para determinar a textura, espalhabilidade, estabilidade e envase. “As mechas apresentaram aumento do diâmetro da espessura do fio de cabelo, o que é indício para o depósito da substância que compõe o filme protetor. Além disso, tivemos melhora na maciez, brilho e regularidade dos fios.”
As pesquisadoras contam que outro diferencial da formulação com o biopolímero derivado da tara e da alga vermelha é o potencial combinado do efeito “filme” e hidratante. Outros biopolímeros já presentes no mercado, como a queratina, causam rigidez nos fios se usadas frequentemente. Por outro lado, o novo composto apresenta a união das galactanas, polissacarídeos da tara, e das galactomananas sulfatadas, da alga vermelha. “Esses polissacarídeos específicos têm em si a propriedade hidratante. No entanto, os dois linkados conseguem formar essa rede [ligação de hidrogênio], destacando seu mecanismo duplo, tanto de filmógeno quanto de hidratante”, explica Maia Campos.
Os bons resultados nos testes de eficácia comprovaram o potencial de aplicação da substância em cosméticos, também impulsionado por vantagens como a ampla faixa de pH aceitada – sendo seguro e funcional em diferentes níveis de acidez ou alcalinidade- e compatibilidade com várias formulações. Rafaela Zito pontua que as metodologias estabelecidas no laboratório e a experiência prévia com os componentes foram facilitadores no decorrer do estudo, inibindo problemas para “além do que já acontece na ciência, em que às vezes temos que repetir um experimento ou outro”, como a repetição de experimentos para garantir a consistência e padronização dos testes.

Representação dos teste para medida do brilho no cabelo. Para ser realizado em condições reais é necessária a ausência de luz – Foto:Neatec/Arquivo Pessoal
Apesar de reduzir a resistência à tração para pentear os fios, o biopolímero pode interagir com o cabelo aumentando o diâmetro da fibra, o que pode ser o motivo de quebra das ligações de hidrogênio naturais no cabelo, comprometendo sua rigidez. No entanto, a interação do biopolímero com a fibra capilar favoreceu a formação do filme, que atua como um fator de proteção. Nos testes, não foram observadas alterações na cor, no odor ou na homogeneidade das mechas, mesmo para as formulações submetidas a estresse térmico, simulando o uso do secador ou da chapinha.

As formulações com o biopolímero apresentaram redução da área de histerese (magnetismo) em 48,17% para o condicionador e 88,09% para o leave-in, além de melhora em fatores como o brilho (em 29,42%) e a maciez (em 21,84%) – Foto: Retirada do artigo
Com grande potencial de melhoria e adaptação para a produção em larga escala, a pesquisa desenvolvida no Núcleo de Estudos da USP em Ribeirão Preto foi reconhecida internacionalmente, com avaliação favorável de especialistas para que Rafaela inicie um doutorado logo após a conclusão da graduação. Segundo Patrícia, os produtos capilares ainda podem ser aprimorados em alguns quesitos, como a homogeneidade do filme e o efeito a longo prazo da aplicação. Posteriormente, será necessário o refinamento dos testes com estudos in vivo e outros fatores que contribuem para a boa experiência do consumidor final.
A pesquisa recebeu apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic). O artigo, intitulado Tara and Red Algae Biopolymer as a Film-Forming Substance for Hair Protection, foi publicado na revista ACS Omega e pode ser acessado neste link.
Mais informações: pmcampos@usp.br, com Patrícia Maia Campos, e rafaelazito07@usp.br, com Rafaela Zito