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Acidentes graves de trânsito são três vezes mais frequentes durante a madrugada
Sono afeta o comportamento dos motoristas e é importante fator de risco, agravado por escalas de trabalho inadequadas
Por Yasmin Constante - 09/04/2026


Dirigir sonolento pode ser equivalente a ingerir bebida alcoólica – Foto: Freepik


À primeira vista, dirigir de madrugada, fora do horário de pico, pode parecer uma opção mais segura para os motoristas. Mas um estudo publicado no Brazilian Journal of Medical and Biological Research demonstra o exato oposto. Os resultados revelam que o período entre 2 e 4 horas da madrugada é o mais perigoso e concentra a maior parte dos acidentes graves em rodovias brasileiras. Segundo a pesquisa, nesse intervalo existem de três a três vezes e meia mais chances de ocorrer um sinistro de trânsito.

O trabalho é fruto de uma colaboração entre a USP, o Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) e a Universidade de Swansea, no Reino Unido, e segue uma linha interdisciplinar ao unir a análise dos dados à saúde pública. 

Cláudia Moreno, docente da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e coautora, diz que a discussão busca entender as causas dos acidentes com o auxílio da cronobiologia, que estuda a “dimensão temporal dos seres vivos no funcionamento dos corpos”. 

Os acidentes avaliados incluem capotamento ou tombamento, ambos com o mesmo princípio: a falha humana. 

Segundo Vanderlei Parro, docente do IMT e primeiro autor, não é comum que um motorista dirigindo em linha reta capote um veículo. Por isso, os pesquisadores entendem que, em geral, esses acidentes estão relacionados principalmente ao comportamento do condutor. “É bem provável que a pessoa tenha tido um microssono, ou que alguma outra coisa tenha acontecido, não dá para afirmar; mas algo provocou um acidente muito incomum”, completa.

O docente aponta que o trabalho cria um contra-argumento para a ideia de que se há menos carros, ocorrem menos acidentes. Segundo ele, as informações levantadas “retiram [o fato] do domínio da opinião e o colocam em números”, lançando luz em uma conversa que até então era subjetiva.

Chances de um acidente

Como base para o estudo, foram utilizados dados do número de acidentes e do fluxo de veículos no Brasil fornecidos pela Polícia Rodoviária Federal. Os pesquisadores buscaram entender como tais indicativos poderiam se tornar informações quantitativas mais úteis, guiados pela pergunta: as chances de um acidente acontecer de manhã são as mesmas que de madrugada? Segundo os resultados, a resposta é não.

Para esse cálculo, o número de acidentes sofridos a cada hora foi dividido pela média de veículos no mesmo período. Apesar dos horários de pico – 7 e 17 horas – concentrarem o maior número de transportes, as chances de acidentes são menores. “Há mais acidentes durante o dia, e há mais carros durante o dia. Mas é a relação entre os dois que define que a chance é maior na madrugada”, explica Vanderlei Parro.

Cláudia Moreno destaca sua preocupação, em particular com motoristas de caminhão que trabalham em horários irregulares. “Na maioria dos casos, o serviço é sob demanda. Então, ‘se tem carga, eu dirijo; se não tem carga, eu não dirijo’”, comenta. Ela explica que as transportadoras trabalham, além dos motoristas contratados, com terceirizados e até quarteirizados, que aguardam uma oportunidade de trabalho sem saber quando ela vai aparecer – prejudicando o planejamento dos descansos.

Em 2015, a Lei do Descanso do Motorista foi modificada, indo do antigo regimento de 30 minutos de descanso a cada 4 horas dirigidas para permitir até 5 horas e 30 minutos de trânsito sem interrupção. Segundo a docente, essa mudança desconsidera a relação entre as condições de trabalho de caminhoneiros e a cronobiologia.

Os acidentes relacionados a falhas humanas podem ser decorrentes, em grande parte, por jornadas de trabalho impróprias. Cláudia Moreno espera que os resultados indiquem aos gestores públicos a necessidade de revisão da lei.

Vanderlei Parro ressalta que o trabalho fornece indícios de que o aumento das chances pode estar relacionado à maior fadiga do motorista, mas que isso ainda não pode ser comprovado. Em novos estudos, os pesquisadores avaliam ações que podem indicar sonolência dos motoristas para que esses dados sejam cruzados com os de acidentes.

Gráfico demonstra a taxa de acidentes normalizada por hora – Imagem: Reprodução do artigo

Perspectivas futuras

Cláudia Moreno aponta que dirigir sonolento traz riscos que podem ser comparados ao consumo de bebidas alcoólicas. “Estar há 17 horas acordado equivale a ter tomado duas taças de vinho.” Segundo ela, o sono pode ser ainda mais preocupante que o álcool porque, ainda que o motorista passe por um teste do bafômetro, não existe um “sonômetro”, capaz de identificar se ele está descansado ou não.

Os pesquisadores indicam que a resolução ideal seria a criação de uma escala de trabalho que permita que o motorista esteja desperto durante seu expediente. Além disso, é papel das concessionárias, responsáveis pelo cuidado das rodovias, a criação de espaços seguros de descanso e a promoção de ações que mantenham os condutores em alerta.

Os dados trazidos pelo estudo podem influenciar também as decisões dos próprios motoristas. “[Com essas informações,] é natural que você tente descansar, porque sabe que vai ter um risco seu. Não é que alguém vá colidir com você – o que pode acontecer–, estamos falando do risco de você cometer um erro que pode ser fatal”, completa Vanderlei Parro.


Mais informações: e-mail crmoreno@usp.br, com Claudia Moreno, e vparro@maua.br, com Vanderlei Parro.

 

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