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Emissões industriais ameaçam atrasar recuperação da camada de ozônio, aponta estudo
Pesquisa internacional revela que poluentes liberados por processos químicos podem adiar em até uma década a regeneração atmosférica prevista após o Protocolo de Montreal
Por MaisConhecer - 16/04/2026


Imagem: Reprodução


A recuperação da camada de ozônio foi, por décadas, tratada como um raro exemplo de sucesso global na governança ambiental. Mas um novo estudo publicado nesta quinta-feira (16), na revista Nature Communications, acende um alerta: emissões industriais ainda pouco reguladas podem atrasar significativamente esse processo — e reabrir uma preocupação que parecia superada desde o fim do século 20.

Coordenado pelo cientista suíço Stefan Reimann, do laboratório Empa, e com participação de pesquisadores de instituições como o MIT, a NOAA e a Universidade de Bristol, o trabalho mostra que substâncias destruidoras de ozônio (ODS, na sigla em inglês) continuam sendo liberadas na atmosfera em níveis muito superiores ao estimado nas últimas décadas.

A principal surpresa está na origem dessas emissões. Diferentemente do passado, quando gases como os CFC5 eram usados diretamente em sprays e refrigeradores, hoje grande parte das liberações ocorre como subproduto de processos industriais — especialmente na fabricação de outros compostos químicos.

“Essas emissões deveriam ser mínimas, algo como 0,5% da produção”, afirma Reimann no artigo. “Mas nossas estimativas mostram valores próximos de 3,6%, o que muda completamente o impacto global.”

Uma brecha histórica

O problema remonta ao próprio desenho do Protocolo de Montreal, assinado em 1987 para eliminar substâncias que destroem o ozônio. Embora tenha banido o uso direto desses compostos, o acordo abriu uma exceção para seu uso como “matéria-prima” (feedstock) na indústria química.

À época, especialistas acreditavam que essas emissões seriam residuais e diminuiriam com o tempo. O novo estudo mostra o oposto: entre 2000 e 2024, o uso dessas substâncias como insumo industrial cresceu 163%.

“Subestimamos completamente o papel dessas cadeias produtivas”, afirma a coautora Susan Solomon, do MIT, uma das cientistas mais influentes na história da pesquisa sobre o buraco na camada de ozônio.

Utilizando modelos atmosféricos e dados de monitoramento global — incluindo medições da NOAA e da rede AGAGE — os pesquisadores projetaram diferentes cenários até 2100.

No cenário mais provável, chamado de “business as usual” (BAU), a recuperação da camada de ozônio em latitudes médias deve ocorrer apenas em 2073. Isso representa um atraso de cerca de sete anos em relação ao cenário ideal, no qual as emissões seriam reduzidas imediatamente.

Em hipóteses mais pessimistas, o atraso pode ultrapassar uma década.

“O impacto não é trivial. Estamos falando de anos adicionais de exposição a níveis mais altos de radiação ultravioleta”, afirma o pesquisador Luke Western, da Universidade de Bristol, outro autor do estudo.

Substâncias persistentes e invisíveis

Entre os compostos mais problemáticos está o tetracloreto de carbono (CCl4), um gás cuja emissão deveria ter praticamente desaparecido após 2010. No entanto, ele continua sendo liberado em “dezenas de milhares de toneladas por ano”, segundo o estudo.

Outras substâncias, como CFC-113, HCFC- 22 e HCFC-142b, também apresentam emissões superiores ao esperado. Muitas delas são utilizadas na produção de polímeros, refrigerantes modernos e até componentes de baterias para carros elétricos.

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Ou seja, paradoxalmente, tecnologias associadas à transição energética podem estar contribuindo indiretamente para o problema.

Efeito duplo: ozônio e clima

Além de afetar a camada de ozônio, esses gases também atuam como potentes agentes de aquecimento global. O estudo estima que a diferença entre cenários de alta e baixa emissão pode representar cerca de 300 milhões de toneladas equivalentes de CO2 até 2050 — o equivalente a 0,8% das emissões globais atuais.

“Reduzir essas emissões traria um duplo benefício: proteger o ozônio e mitigar as mudanças climáticas”, destaca Megan Lickley, da Georgetown University.

Um desafio regulatório

Apesar do diagnóstico claro, a solução esbarra em um obstáculo político: as emissões identificadas não violam diretamente o Protocolo de Montreal.

“Elas ocorrem dentro das regras atuais”, explica David Sherry, coautor do estudo. “Mas isso não significa que sejam inevitáveis. Muitas dessas perdas poderiam ser evitadas com tecnologias já disponíveis.”

O painel técnico do tratado, ligado ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), já havia recomendado a redução dessas emissões desde os anos 1990 — recomendações que, segundo o estudo, não foram plenamente implementadas.

Um alerta para o futuro

A descoberta reforça a ideia de que o sucesso do Protocolo de Montreal, frequentemente citado como modelo para acordos climáticos, ainda depende de ajustes finos e vigilância constante.

“A história da camada de ozônio não acabou”, afirma Solomon. “Ela está entrando em uma nova fase, em que fontes menos óbvias de poluição passam a ser decisivas.”


Para os autores, o recado é claro: sem novas medidas regulatórias e tecnológicas, o mundo corre o risco de prolongar um problema que parecia resolvido — e comprometer uma das maiores conquistas ambientais da história recente.

Em um momento em que o planeta já enfrenta os efeitos crescentes das mudanças climáticas, o atraso na recuperação do ozônio surge como mais um lembrete de que, na atmosfera, nada desaparece sem consequências.


Referência
Reimann, S., Western, LM, Lickley, MJ et al. As emissões industriais contínuas estão atrasando a recuperação da camada de ozônio estratosférica. Nat Commun 17 , 3190 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-70533-w

 

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