Memória antes das palavras: estudo revela que recém-nascidos já distinguem vozes e formam lembranças verbais
Pesquisa internacional mostra que bebês com poucos dias de vida reconhecem palavras e associam identidade do falante à memória — um indício precoce de processos ligados à memória episódica

Imagem: Reprodução
Um estudo publicado na revista científica eLife revela que o cérebro humano começa a organizar memórias verbais desde os primeiros dias de vida — e que a identidade da voz é um elemento-chave nesse processo. A pesquisa, conduzida por cientistas da University of Padua, na Itália, oferece evidências robustas de que recém-nascidos são capazes de reconhecer palavras e distinguir quem as pronunciou, sugerindo que mecanismos fundamentais da memória episódica já estão em funcionamento ao nascer.
O trabalho, liderado por Emma Visibelli e Ana Fló, com colaboração de Eugenio Baraldi e Silvia Benavides-Varela, analisou a atividade cerebral de 32 bebês entre zero e quatro dias de vida. “Nossos resultados mostram que a identidade do falante não é apenas um detalhe, mas um componente essencial para a formação de memórias verbais desde o nascimento”, afirmam as autoras no artigo.
Vozes que organizam o mundo
Durante os primeiros dias de vida, o cérebro do bebê é bombardeado por estímulos sonoros — vozes, ruídos, padrões de fala. A questão que mobiliza pesquisadores há décadas é como essas informações são organizadas e armazenadas.
Para investigar o fenômeno, a equipe utilizou a técnica de espectroscopia funcional no infravermelho próximo (fNIRS), que permite medir a atividade cortical de forma não invasiva. Os recém-nascidos foram expostos a palavras inventadas (como “mita” ou “pelu”) em três fases: familiarização, interferência e teste.
Na fase de interferência, um ponto crucial foi introduzido: a palavra interferente era pronunciada por um falante diferente. O objetivo era avaliar se a mudança de voz ajudaria o cérebro a separar as informações e evitar o “apagamento” da memória anterior.
O resultado foi claro. “Observamos maior ativação neural quando os bebês ouviam palavras novas em comparação às familiares, indicando que eles reconheciam os estímulos previamente apresentados, mesmo após interferência”, descrevem os autores .
Memória que resiste ao ruído
Estudos anteriores já haviam demonstrado que memórias verbais em recém-nascidos são frágeis e facilmente afetadas por interferências — especialmente quando os sons são semelhantes. No entanto, a nova pesquisa aponta um fator decisivo para contornar esse problema: a variação na identidade do falante.
Quando a palavra interferente era pronunciada pela mesma voz, os bebês tendiam a “esquecer” o estímulo inicial. Mas, ao introduzir uma nova voz, o cérebro parecia criar uma separação entre os eventos sonoros, preservando a memória original.
“Propomos que a mudança de voz funciona como um marcador de contexto, sinalizando o início de um novo episódio acústico”, explicam os pesquisadores . Esse mecanismo, segundo eles, pode ser entendido como uma forma primitiva de “ligação entre fonte e conteúdo” — isto é, o cérebro associa o que foi dito a quem disse.
Indícios de memória episódica
A memória episódica, responsável por registrar experiências pessoais com contexto de tempo e espaço, é tradicionalmente considerada uma função que se desenvolve mais tarde na infância. No entanto, os achados do estudo sugerem que suas bases podem surgir muito antes.
“Não afirmamos que recém-nascidos possuem memória episódica completa”, pondera Silvia Benavides-Varela. “Mas identificamos um precursor importante: a capacidade de integrar informação verbal com características contextuais, como a identidade da voz.”
A ativação cerebral observada envolveu regiões clássicas do processamento da linguagem, como o giro frontal inferior (IFG) e o giro temporal superior (STG), em ambos os hemisférios. Enquanto o lado esquerdo está mais associado à análise fonológica, o direito desempenha papel relevante na interpretação de aspectos sociais da voz, como emoção e identidade.
Um cérebro preparado para aprender
O estudo também reforça a ideia de que o cérebro humano nasce altamente preparado para a linguagem. Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que recém-nascidos conseguem distinguir sons da fala, identificar padrões rítmicos e até reconhecer a voz da mãe.
Agora, a nova evidência acrescenta um elemento crucial: a capacidade de organizar essas informações em memórias estruturadas.
“Os bebês não apenas ouvem — eles categorizam, distinguem e armazenam experiências sonoras de forma sofisticada”, afirma Ana Fló. Segundo ela, isso pode explicar como a aquisição da linguagem ocorre de maneira tão rápida nos primeiros anos de vida.
Desde os experimentos clássicos das décadas de 1970 e 1980, que mostraram a preferência de recém-nascidos pela voz materna, a ciência vem acumulando evidências de que o aprendizado começa antes mesmo do nascimento. No entanto, a natureza das primeiras memórias ainda era um território pouco explorado.
O novo estudo contribui para preencher essa lacuna, ao demonstrar que fatores contextuais — como quem fala — são incorporados desde o início na formação da memória.
Para especialistas, os resultados têm implicações que vão além da teoria. Eles podem influenciar práticas em ambientes hospitalares, como unidades neonatais, onde a estimulação auditiva pode ser cuidadosamente planejada.
“Entender como o cérebro do recém-nascido organiza a informação pode ajudar a criar ambientes mais favoráveis ao desenvolvimento cognitivo”, avaliam os autores.
Próximos passos
Apesar dos avanços, os pesquisadores reconhecem limitações. O estudo não testou diretamente situações em que a mesma voz é mantida na interferência — um cenário já explorado em trabalhos anteriores, mas que poderia fortalecer a comparação.
Além disso, questões como o impacto do estado de sono dos bebês e a evolução desses mecanismos ao longo dos meses ainda precisam ser investigadas.
O próximo desafio, segundo a equipe, é entender como essas memórias iniciais evoluem para formas mais complexas de recordação, incorporando dimensões como tempo e espaço.
“Estamos apenas começando a mapear como a mente humana constrói suas primeiras experiências”, diz Benavides-Varela. “E tudo indica que esse processo começa muito antes do que imaginávamos.”
Com base em evidências neurais e experimentais, o estudo reforça uma ideia cada vez mais aceita na neurociência: o cérebro humano não nasce como uma “tábula rasa”, mas como um sistema altamente sensível, pronto para transformar sons em significado — e vozes em memória.
Referência
Emma Visibell, Ana Fló, Eugênio Baraldi, Silvia Benavides-Varela. 2025 Processamento Verbal Episódico em Recém-Nascidos eLife 14 : RP109096. https://doi.org/ 10.7554/eLife.109096.2