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Formigas redesenham o ciclo do carbono no planeta e desafiam modelos climáticos
Meta-análise global revela que insetos aumentam estoque de carbono no solo em 22%, mas elevam emissões de CO? em até 84%, acendendo debate sobre seu papel no aquecimento global
Por Laercio Damasceno - 06/05/2026


 Foto: Joana Fava Alves e Pedro Leite Ribeiro


Tratadas como coadjuvantes discretas da vida terrestre, as formigas acabam de ganhar protagonismo em uma das agendas mais urgentes da ciência: o equilíbrio do carbono no planeta. Um amplo estudo internacional publicado nesta terça-feira (5), na revista Nature Communications, conclui que esses insetos — abundantes, resilientes e engenheiros do solo — desempenham um papel ambíguo no clima global. Ao mesmo tempo em que aumentam o armazenamento de carbono no solo, também intensificam a liberação de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera.

A pesquisa, liderada por Mingda Wang e Lichao Fan, reuniu 2.232 observações de 136 estudos realizados em diferentes continentes. O trabalho envolveu instituições como a Northwest A&F University, a Leibniz University of Hannover, a University of Göttingen e a Swedish University of Agricultural Sciences.

Os resultados são contundentes: áreas com ninhos de formigas apresentam, em média, 22% mais carbono orgânico no solo (SOC, na sigla em inglês) do que regiões sem atividade desses insetos. Por outro lado, as emissões de CO2 nesses mesmos locais são 84% maiores.

“Esses organismos são verdadeiros ‘engenheiros do ecossistema’”, afirma Wang no artigo. “Eles modificam o solo, redistribuem matéria orgânica e criam microambientes que alteram profundamente o ciclo do carbono.”

Engenheiras invisíveis

O impacto das formigas decorre de seu comportamento coletivo. Ao escavar túneis, transportar folhas, sementes e restos orgânicos, além de interagir com microrganismos, elas transformam o solo em verdadeiros “hotspots” biogeoquímicos.

Segundo o coautor Yakov Kuzyakov, o efeito é comparável ao de outros organismos do solo, como minhocas e cupins, mas com características próprias. “As formigas criam heterogeneidade espacial no solo, alterando temperatura, umidade e disponibilidade de nutrientes. Isso acelera tanto o armazenamento quanto a decomposição da matéria orgânica”, explica.

O estudo mostra que cerca de 20 quatrilhões de formigas habitam a Terra, com uma biomassa equivalente a quase 20% da massa seca da humanidade. Esse número ajuda a dimensionar o potencial de impacto desses insetos no sistema climático global.

Carbono: ganho e perda

A aparente contradição — mais carbono armazenado, mas também mais CO2 emitido — está no cerne do debate científico.

Nos ninhos, o acúmulo de matéria orgânica aumenta o estoque de carbono no solo. Entretanto, a intensa atividade biológica — incluindo respiração das próprias formigas e de microrganismos — acelera a decomposição e libera CO2.

Os dados indicam que a respiração das formigas responde por uma parcela significativa das emissões. Em experimentos de campo, que incluem a presença dos insetos, o aumento de CO2 chega a 123%. Já em laboratório, onde apenas o solo é analisado, sem as formigas, o crescimento é de 55%.

“Isso mostra que não é apenas o solo modificado, mas também o metabolismo das formigas que impulsiona as emissões”, diz Kazem Zamanian.

Clima e espécies fazem diferença

O impacto das formigas não é uniforme. Ele varia conforme clima, tipo de solo e características das espécies.

Em regiões áridas, por exemplo, o efeito sobre o armazenamento de carbono é até 3,7 vezes maior do que em áreas úmidas. Isso ocorre porque, em ambientes pobres em nutrientes, pequenas alterações promovidas pelas formigas criam “ilhas de fertilidade”.

Já em áreas tropicais, o estudo encontrou aumento significativo nas emissões de CO2 (62%), mas sem ganho relevante no estoque de carbono. Em regiões temperadas, ambos os efeitos — armazenamento e emissão — ocorrem simultaneamente.

As diferenças também dependem do comportamento das espécies. Formigas que constroem ninhos ricos em matéria orgânica, como montes de folhas, tendem a aumentar o carbono no solo. Já aquelas que trazem material mineral das profundezas podem reduzir esse estoque.

“Espécie, dieta e estratégia de nidificação são determinantes”, afirma Paul Kardol. “Algumas espécies acumulam carbono, outras favorecem sua liberação.”


Implicações para o clima

O estudo surge em um momento crítico para a ciência climática, que busca compreender com maior precisão os fluxos de carbono entre solo, vegetação e atmosfera.

Os solos representam o maior reservatório de carbono terrestre — mais do que a vegetação e a atmosfera combinadas. Qualquer fator que altere esse equilíbrio pode ter consequências globais.

Segundo os autores, a expansão das populações de formigas, impulsionada pelo aquecimento global e mudanças no uso da terra, pode amplificar esses efeitos nas próximas décadas.

“À medida que o clima muda, as formigas estão colonizando novas áreas”, diz Fan. “Isso pode reconfigurar o ciclo do carbono em escala regional e global.”

Apesar da abrangência, o estudo reconhece lacunas importantes. Regiões com alta biodiversidade de formigas, como partes da África e da América do Sul, ainda são sub-representadas nos dados.

Além disso, os pesquisadores destacam que ainda não é possível determinar se, no balanço final, as formigas tornam os solos emissores líquidos ou reservatórios de carbono.

“Precisamos de estudos que integrem simultaneamente fixação e emissão de carbono”, afirma Wang. “Só assim poderemos entender o impacto líquido desses organismos.”

Um novo olhar sobre o invisível

A pesquisa reforça uma ideia cada vez mais presente na ciência ecológica: pequenos organismos podem ter efeitos desproporcionais sobre sistemas globais.

Pixabay

As formigas, muitas vezes ignoradas fora da biologia, revelam-se peças-chave em processos que vão da fertilidade do solo ao aquecimento global.

Como sintetiza Kuzyakov, “são as pequenas coisas que governam o mundo”. Agora, com dados em escala global, essa máxima ganha respaldo científico — e impõe novos desafios à compreensão do clima da Terra.


Referência
Wang, M., Fan, L., Zamanian, K. et al. Uma meta-análise dos efeitos mediados por formigas no ciclo do carbono do solo e na estabilidade da matéria orgânica. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-72626-y

 

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