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Abelhas, plantações e flores: cientistas têm nova hipótese para dilema da agricultura
'Hipótese Integradora', criada pelos pesquisadores, sugere que as abelhas se concentram nos canteiros florais e migram para a lavoura em busca de flores e recompensas energéticas
Por Luana Mendes - 12/05/2026


A abelha melífera é um inseto com 12 mm a 13 mm, com tórax coberto de pelos e as patas traseiras são largas e adaptadas ao transporte de pólen – Foto: Arquivo pessoal/Marco Mello


Frente ao esgotamento de recursos naturais na produção agrícola, novos modelos surgiram com soluções que visam ao uso de mecanismos naturais do ecossistema, em vez de depender exclusivamente de insumos químicos. As plantações florais – faixas e canteiros floridos dentro ou no entorno das lavouras – constituem uma das alternativas que fomentam a biodiversidade e, ao mesmo tempo, aumentam a produtividade. Mais do que simples ornamentos, essas intervenções atuam na restauração da vegetação e do solo, além de intensificarem serviços ecossistêmicos vitais, como a polinização e o controle biológico de pragas.

Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Biociências (IB) da USP investigou um tema polêmico envolvendo as plantações florais: as flores auxiliam no aumento da colheita ao atrair polinizadores ou prejudicam o sistema por dispersar a atenção das abelhas, que deveriam atuar na lavoura? 

Cristina Akemi Kita, sob orientação do professor Marco Mello, no Laboratório de Síntese Ecológica (SintECO), propôs uma nova teoria denominada “Hipótese Integradora”. Segundo ela, as abelhas se concentram inicialmente nos canteiros florais quando a lavoura ainda não é atrativa; no entanto, à medida que a cultura floresce e oferece recompensas energéticas competitivas, ocorre o transbordamento para a plantação comercial.

A teoria propõe que os efeitos “concentrador” (flores que retêm abelhas) e “exportador” (flores que transbordam abelhas para a cultura), até então considerados pela ciência como fenômenos opostos, sejam, na realidade, estágios sequenciais de um mesmo processo ecológico regulado pela interação entre o ambiente e o comportamento animal.

Cristina percebeu que a disputa entre a escola do “concentrador” e a do “exportador” ignorava a dinâmica temporal do sistema. Construir essa síntese foi um desafio devido à falta de padronização nos estudos globais. O professor Marco Mello compara o processo a “tentar montar um quebra-cabeça de 5 mil peças dispondo de apenas 500, que ainda por cima foram jogadas ao chão”. “Muitos estudos primários omitem dados cruciais, como a composição exata das flores ou as condições ambientais, o que dificulta a generalização dos resultados”, pontua também a pesquisadora.

As discussões do estudo revelam que o sucesso da polinização depende de um sistema composto de quatro fatores interligados: o tipo da cultura agrícola, a composição da plantação floral, o grupo de abelhas e o contexto ambiental. Para entender como amplificar os resultados positivos, a pesquisa avançou para a modelagem matemática e simulação de dados.

Sustentabilidade em jogo

Para elucidar as contradições na literatura científica, a equipe adotou a abordagem de research weaving, que combina o mapeamento sistemático à bibliometria. A metodologia de síntese auxilia na identificação de lacunas, vieses e conexões no campo de estudo. O objetivo não foi coletar novos dados de campo, mas sim sintetizar o conhecimento mundial disponível para extrair uma “moral da história” e propor novas teorias que integrem visões divergentes.

O mapeamento sistemático organizou as evidências biológicas, identificando variáveis como tipos de lavoura, espécies de flores e grupos de abelhas. Paralelamente, a bibliometria revelou um cenário de colaboração ainda desconectado e enviesado geograficamente, com a maioria das pesquisas concentrada na Europa e América do Norte, deixando lacunas críticas em regiões tropicais como o Brasil.

Todo o processo seguiu o rigoroso protocolo Prisma, garantindo transparência e reprodutibilidade. Uma decisão metodológica fundamental foi o tratamento diferenciado para a Apis mellifera (abelha-europeia). Por ser uma espécie frequentemente manejada comercialmente, sua presença artificial em colmeias alugadas poderia mascarar o efeito natural de atração exercido pelas plantações florais sobre as abelhas silvestres e nativas.

“Identificar os fatores é um primeiro passo para maior produtividade nesse modelo. No momento em que entendemos seu funcionamento e ajustamos os ‘botões’, como num painel de controle, aumentamos a probabilidade de que a plantação floral auxilie na produtividade da lavoura”, diz Marco Mello. 


Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS

A urgência desse estudo reside no desafio de atingir a segurança alimentar para uma população em crescimento sem comprometer os ecossistemas, diretamente ligado aos Objetivos 2 e 12 de Desenvolvimento Sustentável da ONU. As abelhas são as polinizadoras dominantes na agricultura mundial, no entanto, a intensificação agrícola tradicional, marcada pelo desmatamento e uso pesado de agrotóxicos, tem causado um declínio global dessas espécies. “O meu interesse foi entender quais são os impactos das atividades humanas no meio ambiente e como é que essas atividades voltam para a gente”, explica Cristina, que direcionou sua pesquisa para a intensificação ecológica — produzir mais comida protegendo os polinizadores essenciais para as culturas dependentes.

Cristina Kita agora trabalha destrinchando variáveis específicas, como o tamanho do corpo da abelha, que influencia diretamente sua capacidade e distância de voo entre os canteiros e a lavoura. Esse modelo computacional permite simular milhares de cenários ideais que ainda não possuem evidências empíricas completas, oferecendo previsões sobre quais combinações de flores maximizam a produtividade em diferentes regiões.

Embora o estudo tenha um caráter teórico robusto, sua meta final é eminentemente prática: orientar o manejo agrícola e fundamentar políticas públicas baseadas na natureza. Em uma escala governamental, esses dados podem embasar incentivos fiscais ou subsídios para produtores que implementem soluções sustentáveis, como cercas vivas e canteiros que servem de abrigo para a fauna silvestre. Ao sistematizar a complexidade ecológica, o trabalho oferece um guia estratégico para que a agricultura se torne mais resiliente e produtiva, transformando a preservação das abelhas em um motor de prosperidade e segurança alimentar.


Mais informações: c.akemikita@gmail.com, com Cristina A. Kita, e marmello@usp.br, com Marco Mello 

 

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