Deserto do Atacama pode ser milhões de anos mais antigo do que se pensava, aponta estudo
Pesquisa publicada na revista Nature Communications sugere que núcleo hiperárido do Atacama já enfrentava seca extrema no Eoceno, antes da elevação dos Andes e da formação da corrente de Humboldt

Imagem: Reprodução
O Deserto do Atacama, no norte do Chile, considerado o lugar não polar mais seco do planeta, pode ter iniciado sua trajetória rumo à hiperaridez muito antes do que a ciência imaginava. Um estudo publicado nesta quarta-feira (20), na revista científica Nature Communications, desafia a hipótese predominante de que a extrema secura da região teria surgido apenas no Mioceno, há cerca de 23 milhões de anos. Segundo os novos dados, partes do núcleo hiperárido do Atacama já experimentavam condições de seca severa entre 20 milhões e 40 milhões de anos atrás — possivelmente desde o Eoceno Médio.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da University of Cologne, da Scottish Universities Environmental Research Centre e da Goethe University Frankfurt, liderados pelo geólogo Benedikt Ritter-Prinz. O trabalho analisou concentrações de neônio cosmogênico em rochas de quartzo coletadas na Cordilheira da Costa chilena, uma área extremamente preservada do Atacama.
Os pesquisadores examinaram 135 fragmentos de quartzo utilizando técnicas de datação por nuclídeos cosmogênicos — um método capaz de estimar há quanto tempo minerais permanecem expostos à radiação cósmica na superfície terrestre. Os resultados surpreenderam a equipe: 32 amostras apresentaram idades anteriores ao limite Oligoceno-Mioceno, tradicionalmente associado ao início da hiperáridez no deserto.
“Esses fragmentos ficaram expostos por dezenas de milhões de anos praticamente sem erosão significativa”, escrevem os autores no artigo. Para os cientistas, isso indica uma estabilidade paisagística extraordinária — algo impossível em regiões sujeitas a chuvas frequentes e intensa remodelação geológica.
Até agora, o modelo dominante atribuía a formação do clima extremo do Atacama à combinação entre a elevação da Cordilheira dos Andes e o fortalecimento da corrente marítima fria de Humboldt durante o Mioceno. Esses fenômenos teriam criado um poderoso bloqueio atmosférico, impedindo a chegada de umidade ao litoral do Pacífico sul-americano.
O novo estudo, porém, sugere que o processo começou muito antes desses eventos tectônicos e oceânicos. Segundo os autores, o resfriamento global ocorrido após o chamado “Ótimo Climático do Eoceno Inicial” — período de temperaturas extremamente elevadas na Terra há cerca de 50 milhões de anos — pode ter sido decisivo para desencadear a aridificação da região.
“O levantamento indica que a Cordilheira da Costa já apresentava condições predominantemente hiperáridas antes mesmo da abertura da Passagem de Drake e da consolidação da Corrente Circumpolar Antártica”, afirma o artigo.
A hipótese altera parte da compreensão histórica sobre a evolução climática da América do Sul. Em vez de um deserto criado principalmente por barreiras topográficas recentes, o Atacama pode ter sido moldado inicialmente por transformações climáticas globais de larga escala.
O trabalho também reforça a singularidade geológica da região chilena. Em alguns trechos do Atacama, a precipitação média anual é inferior a 2 milímetros — índice próximo ao registrado em Marte. Não por acaso, a área é frequentemente usada pela NASA e por pesquisadores de astrobiologia como análogo terrestre do planeta vermelho.
As amostras foram coletadas em superfícies de relevo extremamente baixo, protegidas da erosão e recobertas por crostas de sulfato de cálcio. Esse ambiente favoreceu a preservação dos minerais ao longo de dezenas de milhões de anos. Os cientistas observaram que o solo rico em gesso funciona como uma espécie de “armadura natural”, reduzindo a erosão causada por chuvas esporádicas e ventos intensos.
Outro aspecto relevante do estudo é a relação entre o clima extremo e a mineração. A hiperáridez prolongada do Atacama favoreceu a formação e conservação de depósitos minerais estratégicos, especialmente cobre e nitratos. O Chile, maior produtor mundial de cobre, concentra grande parte dessas reservas justamente nas áreas mais áridas do país.

Os pesquisadores compararam suas descobertas com registros geológicos de mineralizações supergênicas — depósitos formados pela alteração química de minerais próximos à superfície — e encontraram forte correspondência temporal. “A distribuição das idades obtidas nos fragmentos de quartzo apresenta notável semelhança com as idades dos depósitos minerais associados à aridificação”, apontam os autores.
Para especialistas, os resultados podem ter impacto além da geologia regional. A pesquisa oferece pistas sobre como mudanças climáticas globais alteram ecossistemas em escalas de milhões de anos e ajuda a compreender os mecanismos que transformam áreas semiáridas em desertos extremos.
A descoberta também reacende debates sobre a resiliência climática do planeta em contextos de aquecimento e resfriamento global. O artigo destaca que eventos planetários amplos — como mudanças nas correntes oceânicas e variações da temperatura média da Terra — podem desencadear transformações permanentes em paisagens continentais.
O estudo teve participação de pesquisadores como Steven A. Binnie, Finlay M. Stuart, Derek Fabel, Richard Albert, Volker Wennrich e Tibor J. Dunai. O financiamento veio da Fundação Alemã de Pesquisa (DFG), por meio do programa Collaborative Research Center 1211.
Embora os autores reconheçam que ainda existem incertezas sobre o momento exato em que o deserto atingiu sua condição atual, o consenso do trabalho é claro: o coração árido do Atacama é provavelmente muito mais antigo do que as teorias clássicas indicavam.
Num planeta em transformação acelerada, o deserto chileno surge, mais uma vez, como uma espécie de arquivo geológico do clima terrestre — preservando em suas pedras a memória de mudanças iniciadas dezenas de milhões de anos antes do surgimento da humanidade.
Referência
Ritter-Prinz, B., Binnie, SA, Stuart, FM et al. Evidências de aridificação eocênica do núcleo hiperárido do Deserto do Atacama. Nat Commun 17 , 4520 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-73422-4