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Cidades que aprendem com a água
Metodologia brasileira cria mapa de prioridades e aponta soluções baseadas na natureza para tornar áreas urbanas mais resilientes às enchentes
Por Redação MaisConhecer - 02/06/2026


Imagem: Reprodução


As enchentes urbanas já ameaçam cerca de 1,81 bilhão de pessoas em todo o mundo, o equivalente a aproximadamente 23% da população global. Em um cenário de urbanização acelerada, mudanças climáticas e ocupação desordenada do solo, pesquisadores brasileiros propõem uma nova forma de planejar cidades: partir do entendimento dos processos naturais da água para definir onde, como e por que intervir. A proposta, publicada nesta terça-feira (2), na revista científica Scientific Reports, apresenta uma metodologia integrada de diagnóstico ambiental-urbano capaz de identificar áreas prioritárias para obras de drenagem e selecionar as soluções mais eficientes para reduzir riscos de inundação.

O estudo foi desenvolvido por Paula Morais Canedo de Magalhães, Beatriz da Cruz Amback e Marcelo Gomes Miguez, vinculados ao Programa de Engenharia Ambiental da Federal University of Rio de Janeiro. A pesquisa teve como laboratório real a bacia do Rio Bambu, no município de Maricá, região que enfrenta recorrentes episódios de alagamentos e rápida expansão urbana.

“O alinhamento entre planejamento urbano e processos naturais é fundamental para aumentar a resiliência das cidades diante das enchentes”, argumentam os autores. A proposta combina engenharia hidráulica, análise territorial, indicadores socioeconômicos e soluções baseadas na natureza para construir uma estratégia integrada de gestão de riscos.

A natureza como infraestrutura

O trabalho parte de uma constatação preocupante. Segundo dados citados pelos pesquisadores, a população urbana global continua crescendo de forma acelerada, enquanto a impermeabilização do solo e a ocupação de áreas vulneráveis ampliam a frequência e a intensidade das inundações.

Para enfrentar esse desafio, o estudo aposta em conceitos que vêm ganhando espaço internacionalmente, como as Soluções Baseadas na Natureza (Nature-Based Solutions) e a chamada infraestrutura azul-verde. Em vez de depender exclusivamente de canais de concreto e galerias subterrâneas, essas abordagens utilizam parques inundáveis, jardins de chuva, áreas úmidas construídas, corredores ecológicos e reservatórios naturais para armazenar, infiltrar ou retardar o escoamento das águas pluviais.

Além de reduzir enchentes, essas estruturas oferecem benefícios adicionais, como aumento da biodiversidade, melhoria da qualidade ambiental, regulação microclimática e ampliação das áreas verdes urbanas. “As cidades são parte da natureza, e não entidades separadas dela”, destacam os pesquisadores ao defender uma mudança de paradigma no planejamento urbano.

Uma fórmula para decidir melhor

O coração da metodologia é uma chamada “Função-Objetivo”, uma ferramenta multicritério que transforma diferentes metas urbanas em indicadores mensuráveis. Entre os critérios considerados estão a redução do número de imóveis expostos a enchentes, o aumento das áreas verdes por habitante, a integração das obras ao tecido urbano, a eficiência econômica e a compatibilidade com os limites orçamentários municipais.

Na aplicação realizada em Maricá, a redução da exposição às enchentes recebeu o maior peso na avaliação, representando 61% da importância total da função. A integração urbana, o aumento de áreas verdes e a eficiência econômica também contribuíram para a classificação final das alternativas.

Segundo os autores, a grande vantagem do método é permitir que gestores públicos comparem diferentes projetos utilizando uma mesma linguagem técnica e social. “A ferramenta foi concebida para ser intuitiva e adaptável às realidades locais, funcionando como uma ponte entre o conhecimento científico e a tomada de decisão municipal”, afirmam.

Onde intervir primeiro

Para identificar os locais mais críticos, a equipe utilizou modelos hidrológicos e um índice de suscetibilidade a enchentes. Os resultados mostraram que bairros como Inoã, Chácaras de Inoã e o Conjunto Habitacional Carlos Marighella apresentam elevada vulnerabilidade, com lâminas d’água superiores a um metro em determinados eventos extremos.

Os pesquisadores também desenvolveram uma “Matriz de Prioridade”, que considera três dimensões simultaneamente: gravidade do problema, urgência social e tendência futura de agravamento. O método revelou que a pressão urbanística em Maricá é intensa e que a expansão populacional tende a aumentar significativamente a exposição aos riscos caso medidas preventivas não sejam adotadas.

Quatro parques para conter enchentes

A aplicação prática da metodologia resultou na proposta de quatro grandes intervenções distribuídas ao longo da bacia hidrográfica. Na parte alta da bacia, os autores sugerem um parque com reservatórios capazes de armazenar aproximadamente 900 mil metros cúbicos de água, reduzindo o volume que chega às áreas urbanizadas.

Na região intermediária, considerada a mais crítica, foram projetados dois parques inundáveis multifuncionais, capazes de funcionar simultaneamente como áreas de lazer e estruturas de retenção temporária de águas pluviais. Esses espaços incluem ciclovias, áreas recreativas, trilhas e zonas de armazenamento hídrico.

Já na porção final da bacia, a proposta envolve a recuperação ecológica da Lagoa Brava, associada a intervenções de dragagem para melhorar o escoamento das águas e restaurar funções ambientais perdidas pelo assoreamento.

Ao todo, foram analisadas onze combinações possíveis de intervenções. A comparação revelou um resultado interessante: a alternativa mais abrangente não foi necessariamente a melhor. O chamado “Pacote 8”, que reunia todas as obras propostas, perdeu desempenho devido aos elevados custos de implantação.


A melhor avaliação foi obtida pelo “Pacote 11”, que combina dragagem, intervenções em Inoã, o parque Marighella e a revitalização da Lagoa Brava. Essa configuração alcançou valor de 0,83 na Função-Objetivo, superando todas as demais alternativas analisadas.

De acordo com os autores, o resultado demonstra que eficiência não significa necessariamente realizar mais obras, mas selecionar aquelas capazes de gerar o maior benefício ambiental, social e econômico de forma integrada.

Um modelo exportável

Embora tenha sido desenvolvida para Maricá, a metodologia foi concebida para aplicação em diferentes cidades e contextos. Sua estrutura flexível permite incorporar novos indicadores, adaptar pesos conforme as prioridades locais e incluir a participação de gestores públicos e comunidades afetadas.

Para os pesquisadores, o principal legado do estudo é oferecer um protocolo capaz de transformar informações complexas em decisões concretas. Em um mundo onde enchentes se tornam cada vez mais frequentes e custosas, a integração entre ciência, planejamento urbano e processos naturais pode representar uma das estratégias mais promissoras para construir cidades mais seguras, sustentáveis e resilientes.


Referênica
Paula Morais Canedo de Magalhães ,Beatriz da Cruz Amback & Marcelo Gomes Miguez. Metodologia integrada para diagnóstico ambiental-urbano e priorização de intervenções de drenagem para aumentar a resiliência urbana a inundações. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-56075-7

 

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