Modelando o mundo até 2150: estudo projeta o futuro de 188 países e redesenha os cenários da humanidade
Pesquisa amplia o alcance dos cenários socioeconômicos usados pelo IPCC, incorpora conflitos, governança, educação e desigualdade, e sugere que o crescimento global poderá ser menor — mas mais complexo — do que se imaginava

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O que acontecerá com a humanidade depois de 2100? Quantas pessoas viverão no planeta em 2150? Como guerras, desigualdade, educação, governança e investimentos públicos moldarão o futuro climático e econômico da Terra?
Essas perguntas estão no centro de um dos mais abrangentes exercícios de previsão socioeconômica já realizados. Publicado neste sábado (6), na revista científica Nature Communications, o estudo “Broadly Quantifying SSP Elements for 188 Countries to 2150 in International Futures” apresenta projeções para 188 países até o ano de 2150, expandindo significativamente os tradicionais cenários globais utilizados por pesquisadores do clima e do desenvolvimento.
A pesquisa foi liderada por Jonathan D. Moyer, ao lado de Barry B. Hughes, Mohammod Irfan, José Solórzano, Caleb Petry, Yutang Xiong, Taylor Hanna, Collin Meisel, Deva Sahadevan e Ethan Sullivan, todos vinculados ao Frederick S. Pardee Institute for International Futures, da University of Denver, nos Estados Unidos.
O trabalho atualiza e amplia os chamados Shared Socioeconomic Pathways (SSPs) — os cinco grandes cenários socioeconômicos que servem de base para os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). A inovação está na escala: os autores projetaram 188 indicadores socioeconômicos para 188 países, cobrindo demografia, economia, educação, saúde, infraestrutura, governança, pobreza e conflitos até meados do século XXII.
Além do PIB: um futuro moldado por fatores humanos
Segundo os pesquisadores, os modelos anteriores focavam principalmente em população, crescimento econômico e urbanização. A nova abordagem incorpora fatores frequentemente ignorados, como qualidade da governança, probabilidade de guerras civis, desigualdade de renda, acesso à água potável, saneamento e padrões de gasto governamental.
“Tratamos esses fatores de forma integrada, permitindo capturar efeitos em cascata e interdependências que normalmente ficam de fora dos modelos”, argumentam os autores.
A pesquisa utiliza o modelo computacional International Futures (IFs), uma plataforma que simula simultaneamente dinâmicas econômicas, demográficas, educacionais, sanitárias e políticas. Diferentemente de abordagens que alimentam modelos com projeções externas, o IFs permite que variáveis como corrupção, infraestrutura ou conflitos influenciem diretamente o desempenho econômico.
O resultado é um retrato mais realista — e menos otimista — do crescimento global.
Crescimento econômico menor que o previsto
Uma das conclusões mais marcantes do estudo é que a economia mundial tende a crescer menos do que indicavam projeções anteriores dos SSPs.
Em média, o Produto Interno Bruto global projetado pelo novo modelo é 10% menor em 2050 e 11,4% menor em 2100 quando comparado às estimativas tradicionais.
O contraste é especialmente forte no cenário SSP5, frequentemente associado a um mundo de rápida expansão tecnológica e crescimento econômico acelerado. Enquanto projeções anteriores apontavam uma economia global de cerca de US$ 1,005 quatrilhão em 2100, o novo estudo estima US$ 776 trilhões, uma diferença de US$ 229 trilhões.
Para Moyer e colegas, isso ocorre porque fatores como instabilidade política, corrupção, limitações de infraestrutura e conflitos armados reduzem o potencial de crescimento econômico de longo prazo.
Ao mesmo tempo, o crescimento menor implica redução da demanda energética global. Dependendo do cenário analisado, o consumo de energia pode ficar entre 6% e 34% abaixo das projeções convencionais.
Um planeta entre 3,7 e 18 bilhões de habitantes
As projeções populacionais também revelam futuros radicalmente diferentes.
No cenário mais sustentável, o SSP1, a população global atingiria um pico antes de 2050 e cairia para 3,7 bilhões de pessoas em 2150. Já no cenário SSP3 — marcado por fragmentação geopolítica, conflitos e desenvolvimento desigual — o planeta poderia alcançar impressionantes 18 bilhões de habitantes até meados do século XXII.
Em 2050, os cenários variam entre aproximadamente 9 bilhões e 9,8 bilhões de habitantes, mas as diferenças tornam-se dramáticas ao longo das décadas seguintes.
Os autores observam que países de baixa renda, especialmente na África, apresentam crescimento populacional superior ao estimado por modelos anteriores.
Conflitos e desigualdade podem definir o século XXII
Outro aspecto inovador é a inclusão explícita da probabilidade de guerras civis.
No cenário SSP3, a probabilidade média global de início de conflitos internos mais que dobra, passando de 0,13 em 2025 para 0,27 em 2075. Já no SSP1, esse indicador cai para apenas 0,01, refletindo um mundo mais cooperativo e inclusivo.

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A desigualdade segue trajetória semelhante. Enquanto o cenário sustentável reduz o coeficiente de Gini global para níveis comparáveis aos países mais igualitários do mundo atualmente, os cenários SSP3 e SSP4 elevam a desigualdade para valores próximos aos observados nas sociedades mais desiguais do planeta.
Governos terão papel decisivo
Uma contribuição inédita do estudo é a projeção detalhada dos gastos públicos.
Em 2025, os governos do mundo gastariam, em média, US$ 4.926 por habitante, distribuídos entre saúde, educação, infraestrutura, administração pública, defesa, previdência e assistência social.
Os autores mostram que mudanças nas prioridades governamentais podem alterar profundamente os resultados de longo prazo. Cenários mais sustentáveis direcionam mais recursos para educação, saúde e proteção social, enquanto mundos mais conflituosos ampliam gastos militares.
O desafio de prever 125 anos à frente
Apesar da sofisticação do modelo, os pesquisadores reconhecem os limites de qualquer tentativa de enxergar o século XXII.
“O mundo de 2150 será moldado por avanços em inteligência artificial, mudanças políticas, pontos de inflexão ambientais e eventos disruptivos que não podem ser antecipados”, escrevem os autores.
Eles lembram que, há apenas 125 anos, ninguém poderia prever a revolução causada por aviões, computadores, antibióticos ou internet. Ainda assim, defendem que pensar em horizontes longos é essencial para compreender os impactos das decisões tomadas hoje sobre as futuras gerações.
Mais do que prever exatamente o futuro, o estudo oferece algo talvez ainda mais valioso: uma ferramenta para explorar caminhos alternativos da humanidade. Em um século marcado pelas mudanças climáticas, pela transformação tecnológica e pela crescente interdependência global, compreender esses caminhos poderá ser decisivo para determinar qual dos futuros projetados se tornará realidade.
Referência
Moyer, JD, Hughes, BB, Irfan, M. et al. Quantificação abrangente de elementos de SSP para 188 países até 2150 em Futuros Internacionais. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-73836-0