Florestas tropicais absorvem mercúrio do mundo inteiro e exponem uma nova injustiça ambiental global
Novo estudo revela que Amazônia e florestas africanas capturam a maior parte do mercúrio emitido por regiões industrializadas, funcionando como um gigantesco filtro planetário — mas pagando um preço ecológico crescente.

Imagem: Reprodução
As florestas tropicais são frequentemente descritas como os “pulmões da Terra” por sua capacidade de absorver dióxido de carbono e sustentar a vida no planeta. Agora, um estudo internacional publicado nesta terça-feira (23), na revista científica Nature Communications, mostra que esses ecossistemas desempenham outra função crucial e pouco conhecida: remover da atmosfera enormes quantidades de mercúrio, um dos poluentes mais tóxicos produzidos pela atividade humana.
A pesquisa, liderada por Longyu Jia, Xun Wang e Xinbin Feng, do Instituto de Geoquímica da Chinese Academy of Sciences, reuniu cientistas da Syracuse University, da University of Manitoba e da University of West Florida para construir o mais detalhado modelo global já produzido sobre a absorção de mercúrio pelas florestas.
O resultado surpreendeu os pesquisadores: as florestas tropicais da América do Sul e da África, apesar de estarem entre as regiões menos industrializadas do planeta, são responsáveis por absorver a maior parte do mercúrio emitido por fontes industriais localizadas a milhares de quilômetros de distância.
Uma bomba-relógio invisível nas florestas
O mercúrio atmosférico é considerado um dos contaminantes globais mais perigosos para a saúde humana. Quando transformado em metilmercúrio, pode se acumular em peixes e subir pela cadeia alimentar, provocando danos neurológicos, cardiovasculares e reprodutivos.
Desde 2017, a comunidade internacional tenta controlar essas emissões por meio da Minamata Convention on Mercury, tratado criado para reduzir a poluição por mercúrio em escala global.
Mas o novo estudo sugere que a dinâmica real desse poluente é mais complexa do que se imaginava.
Utilizando dados de 2.415 registros de vida útil das folhas, 2.375 medições de mercúrio foliar e técnicas avançadas de aprendizado de máquina, os cientistas concluíram que as florestas do planeta absorvem cerca de 1.155 toneladas de mercúrio por ano, com uma margem de incerteza muito menor do que estimativas anteriores. Até então, os cálculos variavam entre 320 e 3.138 toneladas anuais, uma diferença de quase dez vezes.
“Nosso modelo reduz drasticamente as incertezas e demonstra que a absorção de mercúrio pelas florestas é regulada principalmente pelas características das folhas e pelo clima, e não apenas pela concentração do poluente na atmosfera”, afirmam os autores.
Amazônia e África dominam o ciclo global
Os pesquisadores identificaram verdadeiros “hotspots” de captura de mercúrio na Amazônia e nas florestas tropicais da África Central.
Essas regiões removem juntas aproximadamente 792 toneladas de mercúrio por ano, o equivalente a cerca de dois terços de toda a absorção florestal global.
Segundo o estudo, as árvores tropicais possuem características fisiológicas especialmente eficientes para capturar o metal:
- folhas perenes que permanecem ativas durante todo o ano;
- elevada taxa fotossintética;
- maior abertura estomática;
- intensa troca gasosa com a atmosfera;
- grande biomassa foliar.
Essas condições permitem taxas de acúmulo de mercúrio entre 50 e 70 nanogramas por grama de folha por ano, as mais altas registradas no planeta.
Em contraste, as florestas boreais das altas latitudes apresentam taxas muito menores devido às temperaturas baixas, menor período de crescimento e predominância de coníferas.
O paradoxo da poluição global
Talvez a descoberta mais importante seja a desconexão geográfica entre quem produz e quem recebe a carga ambiental do mercúrio.
Os autores calcularam que a faixa tropical entre 20° Sul e 10° Norte emite cerca de 484 toneladas anuais de mercúrio, mas remove aproximadamente 704 toneladas por meio da vegetação. Em outras palavras, essas florestas absorvem muito mais mercúrio do que produzem localmente.
Já regiões altamente industrializadas da Ásia, responsáveis por cerca de 35% a 45% das emissões antropogênicas globais, apresentam capacidade de absorção muito menor devido à menor cobertura florestal.
“O mercúrio emitido em zonas temperadas e subtropicais é parcialmente capturado por florestas tropicais localizadas a milhares de quilômetros de distância”, destacam os pesquisadores.
O fenômeno cria uma forma de desigualdade ambiental planetária: regiões que historicamente contribuíram pouco para a poluição global acabam acumulando parte significativa da contaminação.
Um risco crescente para a biodiversidade
Apesar de prestarem esse serviço ecológico fundamental, as florestas tropicais podem estar acumulando uma herança tóxica.

Grande parte do mercúrio capturado pelas folhas acaba sendo transferida para o solo por meio da queda de folhas e galhos. O estudo mostra que praticamente todo o mercúrio absorvido retorna ao solo florestal, criando enormes reservatórios subterrâneos do metal.
Esse estoque, entretanto, é vulnerável.
Eventos como desmatamento, queimadas e secas extremas podem liberar novamente o contaminante para a atmosfera. Os autores citam pesquisas indicando que emissões de mercúrio provenientes do solo podem aumentar de aproximadamente 6 para 230 microgramas por metro quadrado por ano após o desmatamento.
Além disso, parte desse mercúrio pode ser convertida em metilmercúrio por microrganismos, entrando em cadeias alimentares terrestres e aquáticas e ampliando os riscos para animais silvestres e populações humanas.
Implicações para o futuro
Os autores argumentam que seus resultados exigem uma reavaliação da eficácia da Convenção de Minamata e das estratégias globais de controle do mercúrio.
Ao mesmo tempo em que a redução das emissões industriais continua essencial, a preservação das florestas tropicais emerge como uma ferramenta igualmente importante para manter o equilíbrio do ciclo global do mercúrio.
“A sustentabilidade ambiental depende não apenas do controle das emissões, mas também da proteção e restauração da integridade das florestas”, concluem os pesquisadores.
A mensagem central do estudo é clara: a Amazônia e outras florestas tropicais não são apenas reservatórios de carbono ou refúgios de biodiversidade. Elas atuam como um gigantesco sistema de purificação atmosférica do planeta. Porém, quanto mais mercúrio capturam, maior se torna a carga tóxica armazenada nesses ecossistemas — um passivo ambiental que poderá ser liberado caso a degradação florestal continue avançando nas próximas décadas.
Referência
Jia, L., Huang, JH., Wang, X. et al. Características climáticas e das plantas impulsionam um desequilíbrio transcontinental na absorção de Hg atmosférico. Nat Commun 17 , 5504 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-74746-x