A corrida por minerais está desmatando as últimas fortalezas da biodiversidade mundial
Novo estudo global revela que a mineração já responde por perdas florestais significativas dentro de áreas protegidas e provoca impactos ainda maiores em suas zonas de influência, ameaçando metas globais de conservação e ampliando emissões de carbono

Parques nacionais, reservas biológicas e outras áreas protegidas foram considerados, durante décadas, os principais escudos contra a destruição das florestas do planeta. Entretanto, uma nova pesquisa internacional indica que essas fortalezas ambientais estão sob crescente pressão da expansão minerária global. O estudo, liderado por He Ren, Yihua Hu e Tingting He, conclui que a mineração tem comprometido a conservação florestal tanto dentro quanto fora das áreas protegidas em escala planetária.
Publicado na nesta quarta-feira (24), revista científica Nature Communications, o trabalho analisou duas décadas de dados globais de cobertura florestal, mineração e unidades de conservação, produzindo a avaliação mais abrangente já realizada sobre os efeitos da mineração em ecossistemas protegidos.
A equipe reuniu pesquisadores da Zhejiang University, China University of Mining and Technology (Beijing), Tianjin Normal University, Beijing Normal University, University of Chinese Academy of Sciences e da finlandesa Aalto University.
Os números que preocupam os cientistas
Entre 2001 e 2020, a mineração provocou a perda direta de aproximadamente 12.865 km2 de florestas em todo o mundo — uma área equivalente a mais de oito vezes a cidade de São Paulo. Os principais focos ocorreram na Indonésia, Amazônia, Gana e República Democrática do Congo. Brasil e Indonésia responderam juntos por mais de um terço de todo o desmatamento florestal associado à mineração.
O dado mais alarmante, porém, está relacionado às áreas protegidas.
Os pesquisadores descobriram que cerca de 11% de toda a perda florestal causada pela mineração ocorreu dentro de áreas oficialmente protegidas, totalizando aproximadamente 1.372 km2. Mais preocupante ainda: essa participação aumentou ao longo do tempo e atingiu quase 19% entre 2016 e 2020, indicando que a pressão minerária sobre áreas destinadas à conservação está crescendo rapidamente.
Segundo os autores, a maior parte dessa perda ocorreu na América do Sul, responsável por quase 85% do total registrado dentro das áreas protegidas. Brasil, Venezuela, Zâmbia, Indonésia e Gana concentraram aproximadamente 89% do desmatamento minerário ocorrido nesses territórios.
A ameaça invisível além dos limites dos parques
O estudo mostra que o problema não se limita às fronteiras oficiais das unidades de conservação.
Ao analisar faixas de até 10 quilômetros ao redor das áreas protegidas, os cientistas encontraram uma realidade ainda mais grave: a perda florestal associada à mineração nessas zonas de influência alcançou cerca de 4.113 km2, quase três vezes mais do que a registrada dentro dos próprios parques e reservas.
Os autores observam que estradas, infraestrutura de apoio, expansão urbana e novas atividades econômicas ligadas aos empreendimentos minerários ampliam significativamente os impactos ambientais. Em alguns casos, as perturbações associadas à mineração podem se propagar por dezenas de quilômetros além das minas.
O resultado é a fragmentação crescente das paisagens naturais e a redução da conectividade ecológica entre áreas protegidas, um fator considerado crítico para a sobrevivência de inúmeras espécies.
Minas continuam ativas em áreas protegidas
Outro aspecto revelado pela pesquisa foi a persistência da atividade minerária em áreas destinadas à conservação.
Os pesquisadores identificaram que aproximadamente 27% das minas associadas à perda florestal dentro de áreas protegidas permaneceram ativas ao longo do período analisado, totalizando 544 empreendimentos. Essas operações foram responsáveis por cerca de 828 km² de perda florestal, concentradas principalmente na América do Sul.

O Brasil destacou-se como o país com maior número de minas ativas relacionadas ao desmatamento em áreas protegidas, somando 366 operações.
Além disso, cerca de 79% dessas minas apresentaram aceleração no ritmo de perda florestal, sugerindo expansão contínua das atividades extrativas.
Carbono, clima e florestas mais valiosas
A pesquisa identificou uma tendência especialmente preocupante: a mineração está avançando progressivamente sobre florestas de maior densidade de biomassa — justamente aquelas que armazenam maiores quantidades de carbono.
Os autores verificaram um aumento significativo da biomassa média das áreas desmatadas tanto dentro das unidades de conservação quanto em suas zonas de influência.
Como consequência, estima-se que o desmatamento causado pela mineração tenha gerado aproximadamente 504 milhões de toneladas de CO2 entre 2001 e 2020. Desse total, cerca de 66 milhões de toneladas foram emitidas dentro de áreas protegidas e aproximadamente 159 milhões de toneladas nas faixas de até 10 quilômetros ao redor delas.
O paradoxo da transição energética
Os pesquisadores destacam que o crescimento da demanda por minerais críticos — essenciais para baterias, veículos elétricos, painéis solares e turbinas eólicas — pode agravar ainda mais essa situação.
Embora a transição energética seja fundamental para combater as mudanças climáticas, ela aumenta a pressão por novos projetos minerários justamente em regiões que concentram biodiversidade e estoques de carbono.
“Os resultados demonstram a crescente pressão da mineração sobre florestas protegidas e destacam a necessidade de mitigar impactos tanto dentro quanto além dos limites das áreas protegidas”, afirmam os autores no resumo do estudo.
Uma nova visão para a conservação
Para Tingting He e colaboradores, as políticas de conservação precisam ir além da simples criação de áreas protegidas. O estudo sugere que parques e reservas devem ser tratados como componentes de redes ecológicas mais amplas, incorporando zonas de amortecimento, corredores ecológicos e mecanismos de compensação ambiental.
Os pesquisadores defendem revisões periódicas de concessões minerárias, fortalecimento da fiscalização, restauração florestal pós-mineração e integração dos custos climáticos das emissões de carbono aos processos de licenciamento e planejamento territorial.
A principal mensagem do estudo é inequívoca: em um mundo cada vez mais dependente de minerais estratégicos, proteger a biodiversidade exigirá políticas capazes de equilibrar desenvolvimento econômico e conservação ambiental. Caso contrário, as áreas criadas para preservar as últimas grandes florestas do planeta poderão se tornar apenas ilhas cercadas por um avanço crescente da mineração.
Referência
Ren, H., Hu, Y., He, T. et al. A mineração global prejudicou a conservação florestal dentro e fora das áreas protegidas. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-74859-3