Manguinhos expõe mapa do racismo ambiental no Rio: pobreza, enchentes e falta de serviços atingem população negra
Estudo aponta que quase 95% das famílias do complexo vivem com renda inferior a R$ 1.020 e revela como décadas de desigualdade transformaram o território em símbolo das injustiças socioambientais brasileiras

Favela de Manguinhos - ao fundo Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz - bairro Manguinhos - zona norte do Rio de Janeiro
A poucos metros de um dos maiores centros de pesquisa em saúde da América Latina, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), milhares de moradores convivem diariamente com alagamentos, saneamento precário, baixa renda e deficiência de serviços públicos. O contraste entre produção científica e vulnerabilidade social faz de Manguinhos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, um retrato das desigualdades urbanas brasileiras.
Um estudo publicado na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação conclui que a realidade do complexo de favelas é resultado de um processo histórico de segregação territorial e de distribuição desigual dos investimentos públicos, fenômeno identificado pelos pesquisadores como uma expressão do racismo ambiental.
A pesquisa, intitulada Racismo Ambiental e Vulnerabilidade Territorial em Manguinhos (RJ): Evidências Documentais das Desigualdades Socioambientais, foi conduzida pela pesquisadora Norma Maria de Souza, doutoranda em Engenharia de Biossistemas pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e pelo doutor em Engenharia Civil Sanitária e Ambiental Isaías da Silva Pereira, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Os pesquisadores analisaram dados produzidos entre 2010 e 2025 por instituições como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Fiocruz, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Instituto Pereira Passos (IPP).
Os números encontrados ajudam a dimensionar a gravidade do quadro. Segundo o levantamento, 94,93% dos domicílios de Manguinhos possuem renda mensal inferior a R$ 1.020, enquanto 11,56% das residências apresentam ausência simultânea de serviços considerados essenciais, como saneamento e infraestrutura básica.
“A vulnerabilidade territorial observada não constitui uma condição natural, mas o resultado de processos históricos de segregação socioespacial e de distribuição desigual dos investimentos públicos”, afirmam os autores no artigo.
Herança histórica
As origens desse cenário remontam à própria formação das cidades brasileiras. O estudo argumenta que a concentração fundiária, a herança escravocrata e a urbanização acelerada do século XX empurraram populações negras e pobres para áreas ambientalmente frágeis, frequentemente desprovidas de infraestrutura adequada.
Manguinhos tornou-se um exemplo emblemático desse processo. Sua ocupação intensificou-se com a expansão industrial e ferroviária do Rio de Janeiro, atraindo trabalhadores excluídos do mercado formal de habitação. Ao longo das décadas, o território consolidou-se em áreas próximas aos rios Faria Timbó e Jacaré e ao Canal do Cunha, regiões historicamente sujeitas a enchentes e problemas sanitários.
“A produção do espaço urbano está diretamente associada às relações históricas de poder, renda e exclusão social”, observam os autores.
O conceito de racismo ambiental, desenvolvido pelo sociólogo norte-americano Robert Bullard, sustenta que determinados grupos sociais, especialmente populações negras, são expostos de forma desproporcional aos riscos ambientais e aos impactos negativos do desenvolvimento urbano.
No Brasil, esse debate ganhou força a partir dos trabalhos da socióloga Selene Herculano, que definiu o racismo ambiental como a distribuição desigual dos danos ambientais segundo critérios de classe e raça.
Riscos que se repetem
Os pesquisadores mostram que a vulnerabilidade ambiental de Manguinhos vai além das condições geográficas. A ocupação desordenada, a impermeabilização do solo, a deficiência de drenagem e a escassez de investimentos em infraestrutura transformaram fenômenos naturais em ameaças permanentes.
Segundo dados do IBGE citados no estudo, cerca de 14,3 milhões de brasileiros vivem atualmente em áreas suscetíveis a riscos geológicos e hidrológicos. Em Manguinhos, porém, esses riscos são agravados pela alta densidade populacional e pela precariedade das condições de moradia.
Pesquisas da Fiocruz e do Programa Teias Manguinhos apontam que enchentes e problemas de saneamento estão associados ao aumento de doenças infecciosas e ao agravamento das condições de saúde da população.
Embora a região tenha recebido intervenções urbanísticas por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-Manguinhos), os autores afirmam que os investimentos não foram suficientes para romper o ciclo de desigualdades acumuladas ao longo de décadas.
“Parte significativa dos problemas estruturais relacionados à vulnerabilidade socioambiental permaneceu presente, revelando os limites das intervenções pontuais diante de desigualdades historicamente construídas”, destacam.
Justiça ambiental e direito à cidade
Para os pesquisadores, a situação de Manguinhos revela que o acesso à cidade continua sendo profundamente desigual no Brasil. A proximidade física com instituições científicas, centros de pesquisa e equipamentos urbanos não se traduz automaticamente em melhores condições de vida para a população residente.

O estudo conclui que as desigualdades encontradas no território não são produto do acaso, mas de decisões históricas relacionadas ao planejamento urbano e à distribuição seletiva dos investimentos públicos.
“A convergência entre vulnerabilidade socioeconômica, segregação territorial, predominância de população negra e exposição diferenciada aos riscos ambientais constitui um conjunto consistente de evidências compatível com os processos de racismo ambiental descritos pela literatura especializada”, afirmam os autores.
Além de ampliar o debate acadêmico sobre justiça ambiental, a pesquisa pretende subsidiar políticas públicas voltadas ao fortalecimento do saneamento, à mitigação dos riscos socioambientais e à promoção do direito à cidade.
Os autores também defendem novas investigações com entrevistas, observação de campo e metodologias participativas que permitam compreender as experiências dos moradores e suas estratégias de resistência.
Em um país marcado por profundas desigualdades urbanas, Manguinhos surge, segundo o estudo, como um espelho das contradições brasileiras: um território onde ciência e exclusão convivem lado a lado e onde as consequências da desigualdade racial e social continuam inscritas na própria paisagem urbana.
Referência
RACISMO AMBIENTAL E VULNERABILIDADE TERRITORIAL EM MANGUINHOS (RJ): EVIDÊNCIAS DOCUMENTAIS DAS DESIGUALDADES SOCIOAMBIENTAIS. Norma Maria de Souza1, Isaías da Silva Pereira. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v. 12, n. 6, jun. 2026. doi.org/10.51891/rease.v12i6.28007