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Secas deixam marca duradoura e aceleram o aquecimento global, revela estudo
Pesquisa publicada na Nature Communications mostra que os efeitos da perda de umidade do solo persistem mesmo após o fim da estiagem e tornam o planeta mais quente; impacto é observado em mais de 60% das áreas continentais
Por Laercio Damasceno - 09/07/2026


Imagem: Reprodução

As grandes secas não terminam quando a chuva volta. Elas deixam uma espécie de "cicatriz climática" capaz de prolongar o aquecimento da Terra muito além do período de estiagem. Essa é a principal conclusão de um estudo internacional publicado na revista Nature Communications, nesta quinta-feira (9), que identifica um mecanismo até agora pouco compreendido: o solo que permanece seco após uma seca aquece o planeta muito mais do que um solo igualmente úmido consegue resfriá-lo.

A pesquisa conclui que a resposta da temperatura é profundamente desigual. Quando o solo continua perdendo água depois de uma seca, o aquecimento produzido é mais que o dobro do resfriamento observado quando ocorre uma recuperação equivalente da umidade. Segundo os autores, esse comportamento representa um novo fator de amplificação das mudanças climáticas provocadas pela ação humana.

O trabalho foi liderado por Jun Li, do Interdisciplinary Institute for Future Water and Ocean Intelligence, da South China University of Technology, em parceria com pesquisadores da Lund University, Uppsala University, Sun Yat-sen University, do centro espanhol CREAF/CSIC e outras instituições internacionais. Entre os coautores está o ecólogo catalão Josep Peñuelas, referência mundial em mudanças climáticas e funcionamento dos ecossistemas.

Para chegar às conclusões, os pesquisadores analisaram dados globais de temperatura e umidade do solo entre 1980 e 2024, combinando informações de satélites, reanálises climáticas e 17 modelos climáticos do projeto internacional CMIP6, utilizado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Os resultados mostram que uma redução equivalente de um desvio-padrão na umidade do solo provoca, em média, um aumento anual de 0,13°C na temperatura. Já um ganho equivalente de água reduz a temperatura em apenas 0,06°C. A diferença foi considerada altamente significativa pelos testes estatísticos aplicados pelos pesquisadores.

Segundo os autores, a explicação está na vegetação. Depois de uma seca intensa, árvores, arbustos e outras plantas não conseguem retomar rapidamente seu funcionamento normal, mesmo quando a disponibilidade de água melhora. O estresse hídrico reduz a área foliar, diminui a transpiração — processo responsável por resfriar naturalmente a superfície terrestre — e também reduz a absorção de dióxido de carbono da atmosfera.

"O crescimento da vegetação é mais fortemente suprimido após uma seca do que estimulado quando a água retorna", afirmam os pesquisadores na discussão do estudo. Essa recuperação incompleta limita tanto o resfriamento evaporativo quanto a capacidade dos ecossistemas de retirar carbono da atmosfera, criando um ciclo que reforça o aquecimento global.

Outro resultado considerado relevante é que esse comportamento só aparece quando os modelos climáticos incluem o efeito dos gases de efeito estufa produzidos pelas atividades humanas. Simulações que consideraram apenas fatores naturais ou aerossóis não reproduziram o fenômeno observado nas medições reais.

Para Jun Li e seus colegas, isso indica que a influência humana alterou profundamente a maneira como os ecossistemas respondem às secas. O aumento da temperatura média do planeta torna a recuperação fisiológica da vegetação mais lenta e menos eficiente, fazendo com que os impactos de uma estiagem permaneçam ativos durante meses ou até anos.


O estudo também identificou que mais de 60% das áreas continentais do planeta apresentam essa resposta assimétrica. Os maiores focos aparecem na América do Norte, leste da China, África e Amazônia ocidental, regiões onde a interação entre vegetação, solo e atmosfera é particularmente intensa.

Historicamente, cientistas já sabiam que secas intensificam ondas de calor durante sua ocorrência. Desde eventos extremos como a onda de calor europeia de 2003 até as secas recentes registradas na Europa, nos Estados Unidos e na Amazônia, diversos estudos demonstraram que solos secos favorecem temperaturas mais elevadas. A novidade agora é mostrar que esse efeito permanece mesmo após o fim do evento extremo, funcionando como uma memória climática capaz de acelerar o aquecimento futuro.

Essa descoberta pode alterar projeções sobre o orçamento global de carbono — quantidade máxima de dióxido de carbono que ainda pode ser emitida para limitar o aquecimento global aos níveis estabelecidos pelo Acordo de Paris. Segundo os autores, o aquecimento adicional provocado pelas chamadas "heranças das secas" pode reduzir ainda mais a margem disponível para emissões futuras.

"O aquecimento induzido pelos eventos climáticos extremos do passado pode reduzir o orçamento de carbono restante, reforçando a necessidade de cortes mais rigorosos nas emissões", destacam os pesquisadores.


A pesquisa também reforça a importância da preservação da vegetação como reguladora do clima. Além de armazenar carbono, florestas e ecossistemas saudáveis funcionam como sistemas naturais de refrigeração, transferindo água do solo para a atmosfera por meio da transpiração. Quando essa capacidade é comprometida por secas recorrentes, perde-se simultaneamente um importante mecanismo de resfriamento e um dos maiores sumidouros naturais de carbono do planeta.

Embora o estudo reconheça limitações inerentes aos modelos climáticos e ressalte que parte dos mecanismos biológicos ainda precisa ser investigada em maior profundidade, os resultados foram considerados robustos após diferentes testes de sensibilidade, incluindo mudanças nos critérios de identificação das secas, diferentes bases de dados e análises estatísticas independentes.

Ao revelar que as secas deixam um legado climático persistente e assimétrico, o trabalho amplia a compreensão sobre os efeitos indiretos do aquecimento global e aponta para um desafio adicional nas políticas de adaptação. Mais do que enfrentar eventos extremos isolados, será necessário considerar que seus impactos podem permanecer ativos durante anos, alimentando um ciclo de aquecimento cada vez mais difícil de interromper.


Referência
Li, J., Wu, M., Liao, W. et al. Respostas assimétricas de temperatura aos legados da seca da umidade do solo sob forçamento antropogênico. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-75496-6

 

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