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Seca eleva risco de parto prematuro e compromete desenvolvimento fetal, revela maior estudo já feito no Brasil
Pesquisa com quase 30 milhões de nascimentos mostra que eventos extremos associados às mudanças climáticas aumentam a probabilidade de prematuridade e de bebês nascerem pequenos para a idade gestacional, sobretudo em áreas mais vulneráveis do país
Por Laercio Damasceno - 18/07/2026


Imagem: Reprodução


A seca deixou de ser apenas um problema ambiental ou econômico para se consolidar como uma ameaça direta à saúde pública. O maior estudo já realizado no Brasil sobre os efeitos da estiagem na gestação concluiu que a exposição prolongada à falta de chuvas aumenta o risco de parto prematuro e de restrição do crescimento fetal, reforçando o impacto das mudanças climáticas sobre a primeira infância e ampliando os desafios para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Publicada na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, nesta sexta-feira (17), a pesquisa analisou aproximadamente 29,8 milhões de nascimentos ocorridos entre 2001 e 2020 e identificou uma associação consistente entre períodos de seca e o aumento das chances de prematuridade e de bebês nascerem pequenos para a idade gestacional (SGA, na sigla em inglês). O trabalho não encontrou relação consistente entre a estiagem e o baixo peso ao nascer em gestações a termo.

O estudo é liderado pela pesquisadora Aline dos Santos Rocha, do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (CIDACS/Fiocruz Bahia), em parceria com pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), London School of Hygiene & Tropical Medicine, além de outras instituições brasileiras e internacionais.

Os pesquisadores acompanharam uma coorte formada por famílias inscritas em programas sociais do governo federal — um dos maiores bancos de dados populacionais do mundo voltados à saúde pública. O cruzamento das informações de nascimento com indicadores climáticos permitiu avaliar, pela primeira vez em escala nacional, como diferentes intensidades de seca interferem na gravidez.

Distribuição espacial e temporal de eventos extremos de precipitação (SPEI-6) no Brasil, 2001–2020. a Distribuição espacial da seca no Brasil em nível municipal; b Variação temporal de eventos extremos de precipitação (área azul) e seca (área vermelha) por bioma 

Os resultados mostram que cerca de 8% dos nascimentos foram prematuros, 3,9% apresentaram baixo peso ao nascer entre bebês a termo e 9,3% nasceram pequenos para a idade gestacional. A exposição à seca elevou em torno de 2% as chances de parto prematuro em praticamente todas as escalas analisadas. Nos episódios classificados como extremos, o risco chegou a 5% acima do observado em condições climáticas normais, caracterizando uma relação de dose e resposta: quanto mais severa a seca, maior a probabilidade de prematuridade.

Embora os percentuais pareçam modestos, os autores ressaltam que, em uma população de dezenas de milhões de nascimentos, pequenas variações representam milhares de crianças potencialmente afetadas. Em números absolutos, o estudo estima entre 1,4 e 1,7 casos adicionais de prematuridade para cada mil nascimentos associados à exposição à seca.

Os impactos não se distribuem de forma homogênea pelo território nacional. A Amazônia, o Cerrado e o Pampa apresentaram as associações mais fortes entre seca e prematuridade. Já o risco de bebês nascerem pequenos para a idade gestacional foi particularmente elevado na Amazônia e na Caatinga, regiões que convivem com eventos climáticos extremos e limitações históricas de infraestrutura e acesso aos serviços de saúde. Municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) também registraram maior vulnerabilidade aos efeitos da estiagem.

Segundo a interpretação apresentada pelos pesquisadores, a seca afeta a gravidez por diferentes mecanismos. A redução da disponibilidade de água compromete a produção agrícola, agrava a insegurança alimentar e favorece a desnutrição materna. Ao mesmo tempo, aumenta a exposição ao calor extremo, à desidratação, à piora da qualidade da água e ao risco de doenças infecciosas, fatores capazes de alterar o funcionamento da placenta e prejudicar o desenvolvimento fetal.


A pesquisa também identificou que a combinação entre seca e ondas de calor potencializa os riscos de parto prematuro. Quando os dois eventos climáticos ocorrem simultaneamente, o aumento da probabilidade de nascimento antes das 37 semanas torna-se ainda maior, indicando que os efeitos das mudanças climáticas podem atuar de forma combinada sobre a saúde materna.

O trabalho representa um avanço científico ao utilizar o Índice Padronizado de Precipitação e Evapotranspiração (SPEI), considerado um dos indicadores mais robustos para medir secas porque combina informações sobre chuva, temperatura e evaporação da água. Estudos anteriores, em geral, utilizavam apenas dados de precipitação, limitando a compreensão do fenômeno. Além disso, a investigação brasileira foi a primeira a avaliar, em escala nacional, diferentes períodos de exposição à seca durante a gestação e seus efeitos sobre o desenvolvimento fetal.

O contexto histórico ajuda a explicar a relevância dos resultados. Nas últimas décadas, o Brasil enfrentou secas prolongadas no Semiárido nordestino, estiagens severas na Amazônia, crises hídricas no Centro-Sul e incêndios associados à falta de chuvas em diferentes biomas. Paralelamente, organismos internacionais vêm alertando que as mudanças climáticas aumentam a frequência, a duração e a intensidade desses eventos extremos, ampliando seus impactos sobre populações vulneráveis. O estudo reforça que esses efeitos ultrapassam a dimensão ambiental e passam a influenciar diretamente indicadores de saúde e desenvolvimento humano.

Na conclusão do artigo, os autores defendem que políticas públicas de adaptação climática precisam incorporar a proteção da saúde materno-infantil. Entre as medidas sugeridas estão o fortalecimento da vigilância climática integrada ao pré-natal, a ampliação do acesso à água potável, ações de segurança alimentar e estratégias específicas para regiões sujeitas à escassez hídrica.

Para os pesquisadores, comunicar esses resultados a gestores públicos e autoridades sanitárias torna-se essencial diante do avanço das mudanças climáticas. O objetivo é transformar as evidências científicas em ações concretas capazes de reduzir a vulnerabilidade de gestantes e recém-nascidos, especialmente nas áreas socialmente mais frágeis do país. Afinal, em um cenário de secas cada vez mais frequentes, proteger mães e crianças passa a ser também uma estratégia de adaptação climática e de promoção da saúde pública.


Referência
Associação entre seca e desfechos adversos no nascimento: um estudo de coorte nacional com 29,8 milhões de nascidos vivos no Brasil.
The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 62 101570 Publicado: 17 de julho de 2026. Aline dos Santos Rocha, Leydson Galvíncio Dantas, Andréa JF Ferreira, Paulo Victor Maciel da Costa, Danielson JD Neves, Enny S. Paixaoe outros. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101570Link externo

 

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