Novo estudo revela que florestas tropicais, incluindo a Amazônia brasileira, estão deixando de absorver carbono e começam a agir como fontes de emissões. Pesquisadores alertam para uma mudança histórica no equilíbrio climático do planeta.

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As florestas, durante décadas, foram tratadas como grandes aliadas no combate às mudanças climáticas. Elas retiram dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, armazenam carbono em seus troncos, galhos e folhas e ajudam a conter o aquecimento global. Agora, uma das análises mais abrangentes já realizadas sobre o tema indica que esse mecanismo natural começa a perder força justamente nas regiões mais importantes do planeta.
O alerta vem de um estudo publicado na revista Nature Communications, liderado por Zhen Qian, Sebastian Bathiany, Teng Liu, Lana L. Blaschke, Hoong Chen Teo e Niklas Boers, pesquisadores da Technical University of Munich (TUM), do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), na Alemanha, e da Beijing Normal University, na China.
A equipe reconstruiu a evolução do carbono armazenado nas florestas do planeta entre 1988 e 2021, utilizando observações de satélite combinadas com modelos de inteligência artificial e aprendizado profundo. O resultado é o registro global mais consistente já produzido sobre o carbono presente acima do solo nas florestas, conhecido pelos cientistas como Aboveground Carbon (AGC).
Embora as florestas do mundo ainda tenham acumulado um saldo líquido positivo de aproximadamente 6,2 petagramas de carbono ao longo das últimas três décadas, o estudo mostra que esse número esconde uma transformação preocupante: as florestas tropicais úmidas e parte das florestas boreais estão deixando de funcionar como grandes sumidouros de carbono e passam gradualmente a atuar como fontes de emissões.
A mudança começou a se tornar evidente no início dos anos 2000 e coincide com o aumento da frequência de secas extremas, incêndios florestais, exploração madeireira e desmatamento em larga escala.
Amazônia brasileira no centro da crise
Nenhuma região simboliza melhor essa transformação do que a Amazônia.
Os pesquisadores verificaram que, nas últimas décadas, as perdas anuais de carbono passaram a ocorrer cada vez mais dentro das áreas consideradas preservadas, e não apenas nas regiões diretamente desmatadas.
Na década de 1990, cerca de 33% da variação anual das perdas de carbono na Amazônia brasileira era explicada pelas florestas intactas. Entre 2011 e 2021, essa participação saltou para 76%.
Segundo os autores, isso significa que árvores localizadas em áreas sem corte raso estão morrendo em maior quantidade devido ao estresse provocado por secas prolongadas, ondas de calor, incêndios e outros efeitos indiretos das mudanças climáticas.
O fenômeno representa uma mudança profunda. Durante décadas, o principal vilão era o desmatamento direto. Agora, mesmo onde a floresta permanece de pé, sua capacidade de armazenar carbono está diminuindo.
Uma floresta mais vulnerável
O levantamento mostra que as florestas tropicais armazenam aproximadamente 119 petagramas de carbono, equivalentes a 52% de todo o carbono acima do solo existente nas florestas do planeta.
Apesar dessa enorme reserva, justamente esse bioma apresentou tendência de perda ao longo das últimas décadas, enquanto florestas temperadas registraram ganhos consistentes de carbono.
Na prática, isso significa que as regiões responsáveis por retirar maiores quantidades de CO2 da atmosfera estão perdendo eficiência exatamente quando o planeta mais precisa desse serviço ecológico.
Os cientistas também identificaram que a influência das florestas tropicais sobre o ciclo global do carbono aumentou significativamente. Entre 2011 e 2021, a relação entre a variação do carbono nas florestas tropicais e o crescimento anual da concentração atmosférica de CO2 atingiu um coeficiente de correlação de – 0,63, indicando que alterações nessas florestas exercem impacto crescente sobre o clima global.
Inteligência artificial para olhar 34 anos da Terra
Produzir esse retrato exigiu superar uma limitação histórica da ciência.
Até hoje, mapas globais de biomassa florestal forneciam apenas "fotografias" de determinados anos. Para reconstruir uma série contínua desde 1988, os pesquisadores combinaram informações de diversos satélites com redes neurais convolucionais, um tipo de inteligência artificial capaz de identificar padrões complexos em grandes volumes de dados.
O sistema também calculou os níveis de incerteza de cada estimativa, oferecendo maior confiabilidade às reconstruções. O modelo apresentou desempenho elevado, alcançando coeficiente de determinação (R2 = 0,97) na comparação com os mapas de referência utilizados pelos pesquisadores.
Uma mudança silenciosa
O estudo reforça que as mudanças observadas não resultam de um único fator.
Eventos extremos como secas associadas ao El Niño, incêndios florestais, degradação, expansão agrícola, exploração madeireira e alterações provocadas pelo aquecimento global atuam simultaneamente, produzindo um efeito acumulativo.

Na Amazônia, episódios de seca severa registrados em 2005, 2010 e 2015/2016 coincidiram com perdas expressivas de carbono nas florestas.
Segundo os pesquisadores, esse conjunto de perturbações explica por que a floresta não conseguiu recuperar plenamente os níveis de carbono observados antes dos anos 2000.
Um alerta para políticas públicas
As conclusões têm implicações diretas para acordos internacionais como o Acordo de Paris e iniciativas de redução de emissões por desmatamento, como o REDD+.
Os autores argumentam que as políticas de conservação não podem mais concentrar esforços apenas em impedir o corte de árvores. Também será necessário aumentar a resiliência das florestas remanescentes diante das mudanças climáticas, uma vez que áreas aparentemente intactas já apresentam perdas crescentes de carbono.
Ao ampliar em mais de três décadas a reconstrução histórica do carbono florestal, o estudo oferece um novo padrão de referência para monitorar a saúde das florestas e avaliar políticas ambientais.
A principal mensagem é clara: o planeta continua dependendo das florestas para reduzir o aquecimento global, mas elas já demonstram sinais de esgotamento. Se as tendências observadas persistirem, um dos maiores mecanismos naturais de remoção de carbono poderá transformar-se, gradualmente, em mais uma fonte de emissões — acelerando um ciclo climático cada vez mais difícil de interromper.
Referência
Qian, Z., Bathiany, S., Liu, T. et al. Mudanças decenais entre fontes e sumidouros de carbono acima do solo em florestas desde 1988. Nat Commun 17 , 7600 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-76093-3