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O calor que o corpo humano já não consegue suportar
Um estudo global mostra que o envelhecimento da população pode transformar o aquecimento do planeta em uma ameaça muito maior do que as projeções anteriores indicavam. Sob 1,5 °C de aquecimento, idosos já poderão enfrentar níveis de calor...
Por Redação MaisConhecer - 18/08/2026


Imagem: Reprodução


Um estudo global mostra que o envelhecimento da população pode transformar o aquecimento do planeta em uma ameaça muito maior do que as projeções anteriores indicavam. Sob 1,5 °C de aquecimento, idosos já poderão enfrentar níveis de calor fisiologicamente intoleráveis mais extensos do que jovens sob 4 °C.

As projeções sobre os limites do calor humano foram construídas como se o corpo tivesse uma única idade. Os modelos climáticos calculavam quando temperatura e umidade ultrapassariam o ponto em que o organismo deixa de conseguir dissipar calor — mas aplicavam esse limite, derivado de adultos jovens e saudáveis, a praticamente toda a população.

Um novo estudo publicado nesta segunda-feira (17),em 2026 na The Lancet Planetary Health mostra por que essa simplificação pode ter subestimado drasticamente o problema. Liderada por Qinqin Kong, da Stanford University, e realizada por uma equipe que reúne pesquisadores de Stanford, Pennsylvania State University, Purdue University, University of Nebraska Omaha e outras instituições, a pesquisa incorporou pela primeira vez limites fisiológicos específicos para diferentes faixas etárias a projeções climáticas e demográficas globais.

O resultado é uma mudança importante na escala do risco.

Os pesquisadores estimam que, a cada grau adicional de aquecimento global, aproximadamente 1 bilhão de pessoas a mais poderão ser expostas a pelo menos 180 horas anuais de calor acima do limite de compensação fisiológica. Com 1 °C de aquecimento, cerca de 110 milhões de pessoas estariam nessa condição. Em 3 °C, o número chegaria a aproximadamente 2 bilhões, ou 23,8% dos 8,3 bilhões de habitantes com 15 anos ou mais. A 4 °C, seriam cerca de 3 bilhões, equivalentes a 35,6% dessa população.

Mas o dado mais desconcertante não está apenas no número absoluto. Está na idade.

Distribuição espacial da frequência de UHS (Síndrome de Hipertensão Subterrânea) em diferentes faixas etárias e níveis de aquecimento.
Número anual de horas que excedem os limites de compensação térmica para populações jovens (esquerda), de meia-idade (centro) e idosas (direita) sob 1,5°C (A–C), 2°C (D–F), 3°C (G–I) e 4°C (J–L) de aquecimento global em relação ao período pré-industrial. UHS = estresse térmico não compensável.

O corpo envelhece — e seu limite térmico também

O organismo humano depende principalmente da evaporação do suor e da circulação sanguínea pela pele para eliminar calor. Quando temperatura e umidade ultrapassam determinada combinação crítica, esses mecanismos deixam de ser suficientes. A temperatura interna começa então a subir continuamente, caracterizando o chamado uncompensable heat stress (UHS), ou estresse térmico não compensável.

A temperatura de bulbo úmido, ou Tw, é uma das métricas utilizadas para representar esse ambiente térmico. Ela combina os efeitos da temperatura e da umidade e ajuda a estimar a capacidade de resfriamento do corpo pela evaporação. Estudos anteriores haviam encontrado limites para adultos jovens, mas pesquisas experimentais posteriores demonstraram que esses limites diminuem com a idade.

Para reconstruir essa diferença, a equipe utilizou experimentos conduzidos pelo projeto PSU HEAT. Foram estudados 52 adultos jovens, entre 18 e 39 anos, e 55 adultos com 60 anos ou mais, em experimentos realizados entre 2020 e 2025. Outros 26 participantes de meia-idade, entre 40 e 59 anos, forneceram dados para a faixa intermediária.

Os participantes foram expostos a combinações progressivamente mais severas de temperatura e umidade, enquanto temperatura corporal central, frequência cardíaca e outras respostas fisiológicas eram monitoradas.

A diferença foi consistente: adultos mais velhos apresentaram limites de temperatura de bulbo úmido menores que os adultos jovens. A fisiologia ajuda a explicar o fenômeno. O envelhecimento reduz a produção de suor, a capacidade de vasodilatação cutânea e o débito cardíaco — mecanismos essenciais para transferir calor do núcleo corporal para o ambiente.

É essa diferença biológica, aparentemente pequena em laboratório, que se transforma em uma enorme diferença quando projetada sobre bilhões de pessoas.

1,5 °C já muda o mapa

O estudo avaliou níveis de aquecimento de 1 °C a 4 °C, em intervalos de 0,5 °C, utilizando projeções de 14 modelos climáticos CMIP6. Os dados climáticos foram organizados em uma grade de 0,25° × 0,25°, com informações a cada três horas e uma amostra climatológica de 27 anos. Esses dados foram cruzados com projeções populacionais estratificadas por idade, em resolução de aproximadamente 1 km.

A comparação mais contundente aparece em 1,5 °C.

Nesse nível de aquecimento, cerca de 290 milhões de idosos — 22% de uma população mundial de 1,33 bilhão de pessoas idosas no cenário analisado — poderiam enfrentar pelo menos 180 horas anuais de UHS. Em contraste, jovens somente alcançariam uma exposição comparável em um cenário de 4 °C, quando cerca de 490 milhões, ou 17,4%, dos 2,8 bilhões de jovens projetados estariam expostos.

Em outras palavras: para os idosos, 1,5 °C pode representar uma ameaça térmica comparável — e em alguns aspectos maior — àquela que os jovens enfrentariam somente em um mundo 4 °C mais quente.

A inclusão da idade também alterou radicalmente as estimativas anteriores. Em 1,5 °C, o número total de pessoas expostas a pelo menos 180 horas anuais de UHS foi 8,2 vezes maior quando foram utilizados limites específicos por idade, em comparação com modelos que aplicavam o limite dos jovens a todos os grupos. Em 4 °C, a diferença ainda era de aproximadamente duas vezes.

O perigo não termina quando o sol se põe

Em algumas das regiões mais vulneráveis, o problema deixa de ser uma sucessão de ondas de calor e passa a assumir outra natureza: calor persistente, inclusive durante a noite.

Delhi, Lahore e Dubai aparecem entre os casos mais extremos. Mesmo sob 1,5 °C de aquecimento, idosos nessas cidades poderiam enfrentar aproximadamente 1.000 horas anuais ou mais acima de seus limites fisiológicos. Sob 3 °C, a exposição ultrapassaria 2.000 horas anuais. Em Lahore, sob 4 °C, a probabilidade de ultrapassagem durante julho e agosto poderia superar 90%.

Bangkok apresenta um cenário ainda mais impressionante: sob 4 °C de aquecimento, idosos poderiam experimentar aproximadamente 3.840 horas anuais de UHS — cerca de 44% de todas as horas do ano.

A noite, tradicionalmente considerada uma oportunidade de recuperação depois de um dia quente, pode deixar de cumprir essa função.

O mapa da vulnerabilidade também é um mapa da desigualdade

Sob 3 °C de aquecimento, Índia, China, Paquistão e Bangladesh concentrariam juntos 1,48 bilhão de pessoas expostas, ou 72,6% dos 2,03 bilhões de indivíduos globalmente afetados. O Paquistão teria cerca de 294,9 milhões de pessoas expostas, correspondendo a 80,6% da população com 15 anos ou mais.

Entre os idosos, a situação é ainda mais severa. Em 16 países, mais de 90% da população idosa estaria exposta a pelo menos 180 horas anuais de UHS. Bangladesh, Camboja, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e Brunei aparecem entre os países nos quais toda a população idosa seria afetada no cenário de 3 °C.

A pesquisa identificou ainda 13 países que combinam exposição elevada, pobreza superior a 50% e uma população idosa muito numerosa ou proporcionalmente muito exposta. Índia, Paquistão, Bangladesh, Myanmar e Níger ultrapassam simultaneamente os dois critérios de exposição utilizados pelos autores.

O problema, portanto, não é apenas climático. É demográfico, econômico e sanitário.

Um planeta mais velho em um clima mais quente

A população mundial com 60 anos ou mais deverá passar de 1 bilhão em 2020 para 2,1 bilhões em 2050, representando cerca de 21% da população mundial. Mais de dois terços desses idosos deverão viver em países de baixa e média renda — justamente muitas das regiões que estarão na linha de frente do calor extremo.

Isso cria uma espécie de convergência de riscos: enquanto o planeta esquenta, a humanidade envelhece.

Os autores alertam que o impacto pode ser ainda maior do que o estimado. Os modelos climáticos não capturam adequadamente as ilhas de calor urbanas nem as condições de assentamentos informais. Dentro desses ambientes, a temperatura de bulbo úmido pode ser até 2 °C maior do que em estações meteorológicas próximas. Mais de 1 bilhão de pessoas vivem atualmente em assentamentos informais, número que poderá crescer em cerca de 2 bilhões nas próximas três décadas.

Além disso, os experimentos utilizaram atividades físicas mínimas em ambientes internos. Trabalhadores submetidos a esforço intenso, exposição solar e ambientes mal ventilados podem enfrentar condições consideravelmente mais perigosas.

Há, contudo, uma margem de incerteza. Os pesquisadores reconhecem que os limites fisiológicos foram derivados de indivíduos não aclimatados e de latitudes intermediárias. Quando ajustaram os limiares segundo o clima regional, a exposição global caiu para entre 68,8% e 87,6% das estimativas principais — mas os padrões fundamentais permaneceram. O peso desproporcional sobre os idosos não desapareceu.

A fronteira da adaptação

O estudo não descreve apenas um futuro distante. Ele sugere que políticas de adaptação precisam abandonar a ideia de uma população termicamente homogênea.

Centros de resfriamento, infraestrutura verde, ventilação urbana, sistemas de alerta, moradias melhor isoladas, acesso à refrigeração e redes elétricas mais resilientes estarão entre as medidas necessárias. Para os idosos, a proteção dentro de casa será particularmente importante, porque grande parte das mortes relacionadas ao calor ocorre em ambientes internos.


Há também uma conclusão política mais ampla. Reduzir o aquecimento continua sendo a única maneira de impedir que a exposição se amplie em escala global. Segundo os autores, manter o aquecimento abaixo de 2 °C — e, idealmente, próximo de 1,5 °C — ainda protegeria populações jovens de uma exposição generalizada e reduziria substancialmente o risco de episódios prolongados de calor dia e noite entre idosos.

O trabalho de Kong e colegas altera, assim, uma pergunta central sobre o futuro climático. Já não basta perguntar quão quente ficará o planeta.

É preciso perguntar para quem esse calor será suportável.

E, à medida que a população envelhece, a resposta pode ser muito mais urgente do que os antigos mapas climáticos sugeriam.


Referência
Ultrapassando a tolerância humana ao calor em um mundo em aquecimento e com população crescente: um estudo de modelagem de projeção global. A revista The Lancet sobre saúde planetáriaPublicado em: 17 de agosto de 2026. Qinqin Kong, Daniel J Vecellio, Mateus Huber, Rachel M Cottle, S Tony Wolf, Olivia K Leache outros. DOI: 10.1016/j.lanplh.2026.101494

 

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