Vigilância genômica de 7.691 isolados de Salmonella em 77 países revela avanço de resistência a antibióticos críticos, mudanças na população bacteriana e uma ameaça que já atravessa continentes

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A resistência antimicrobiana foi observada, durante décadas, como um fenômeno localizado: uma bactéria resistente surgia em um hospital, uma cidade ou determinado país e, eventualmente, espalhava-se. O novo retrato genômico da Salmonella enterica sugere uma realidade mais complexa. A resistência não apenas aumenta — ela muda de hospedeiro, de linhagem e de território, acompanhando uma população bacteriana em transformação.
Em um dos maiores estudos longitudinais já realizados sobre Salmonella invasiva, Yuhang Pei, Ziru Yang, Xiaolu Pang e colaboradores reconstruíram sete décadas da evolução do patógeno a partir de 7.691 genomas, coletados entre 1953 e 2024 em 77 países e seis continentes. O trabalho, publicado nesta terça-feira (17), na Nature Communications, combina vigilância realizada na China com dados genômicos públicos e oferece um mapa global da resistência a antibióticos clinicamente importantes.
A escala do levantamento é parte essencial de seu significado. Os pesquisadores partiram de 585.220 genomas públicos de Salmonella disponíveis no NCBI e, após sucessivas etapas de filtragem e controle de qualidade, chegaram a 260.195 genomas adequados para análises posteriores. Desses, 6.781 correspondiam a infecções humanas invasivas. A coleção final de 7.691 isolados reuniu 621 novos genomas produzidos em seis áreas administrativas chinesas, 289 genomas de estudos anteriores e 6.781 genomas públicos.
O resultado é uma fotografia incomumente ampla da diversidade bacteriana. Os isolados representam 148 sorovares e 315 tipos de sequência (STs). Quase quatro em cada cinco amostras — 79,4% — foram coletadas nos últimos 15 anos, enquanto 77,37% vieram de infecções da corrente sanguínea. A S. Typhi respondeu por 39,18% da coleção e diferentes linhagens dominaram regiões distintas do planeta.
Mas é na resistência que o sinal de alerta se torna mais nítido.
Os autores identificaram 199 genes de resistência antimicrobiana, relacionados a 13 classes de agentes antimicrobianos e desinfetantes. Entre os marcadores de produção de beta-lactamases de espectro estendido, foram encontrados 16 variantes de blaCTX-M em 445 isolados, equivalentes a 5,79% da amostra. A frequência desses genes passou de apenas 0,21% entre 1953 e 1999 para 16,46% entre 2020 e 2024 — uma mudança de escala que evidencia a rápida expansão de mecanismos capazes de comprometer antibióticos importantes.
A resistência ou menor suscetibilidade às fluoroquinolonas também avançou. Ela foi identificada em 53,11% dos isolados. Entre os períodos analisados, passou de 14,58% antes de 2000 para 61,91% em 2020–2024. A resistência propriamente dita à ciprofloxacina, entretanto, foi menor: 7,39% dos isolados. Ainda assim, sua tendência temporal foi inequívoca: a proporção de isolados com não suscetibilidade à ciprofloxacina aumentou de 0,21% antes de 2000 para 18,42% em 2020–2024.
O fenômeno não se restringe a uma única família de medicamentos. A proporção de Salmonella invasiva não suscetível às cefalosporinas de terceira geração aumentou de 0,21% para 17,01%, enquanto a não suscetibilidade às cefalosporinas de quarta geração passou de 2,87% para 16,85% ao longo do período estudado. A resistência à fosfomicina também cresceu, especialmente na Ásia e na Oceania.
A azitromicina apresenta uma situação particularmente reveladora. Embora sua resistência global tenha sido de apenas 0,79%, o marcador mph(A) mostrou crescimento significativo: entre os isolados não suscetíveis às fluoroquinolonas, sua presença aumentou de 0,55% em 2010–2014 para 2,28% em 2020–2024. O aumento foi observado sobretudo na América do Norte, América do Sul e Ásia.
O estudo também mostra que a ameaça não está distribuída uniformemente. A resistência à ciprofloxacina alcançou 11,79% na Ásia, com 8,86% na China. Para fosfomicina, a prevalência chegou a 17,83% na Europa, 9,82% na América do Sul e 9,26% na América do Norte. A resistência à azitromicina foi de 1,55% na Europa e 1,44% na Ásia. Para resistência múltipla a antibióticos, a média global foi de 30,98%, mas chegou a 65,89% na Europa e 58,46% na África.
O Brasil aparece como um dos pontos que merecem atenção. Entre os países analisados, o estudo identificou o país como um hotspot de Salmonella produtora de ESBL, com 8,24% dos isolados apresentando esse perfil — índice superior ao observado na Suíça (8,20%) e na China (7,02%). Na América do Sul, a variante blaCTX-M-65 foi particularmente relevante, aparecendo em 6,71% dos isolados avaliados na região.
Para os autores, entretanto, o problema não pode ser entendido apenas como uma sucessão de números. A mudança envolve a própria ecologia evolutiva da bactéria. Linhagens como S. Enteritidis ST11, S. Dublin ST10, S. Kentucky ST198, S. Typhimurium ST313 e S. Infantis ST32 aparecem entre os principais contribuintes para a resistência a cefalosporinas, ciprofloxacina e azitromicina. Os pesquisadores descrevem esse cenário como uma preocupação importante diante do papel dessas linhagens em infecções da corrente sanguínea e urinárias.

O mecanismo de disseminação acrescenta outra camada à história. Os pesquisadores encontraram associação entre genes de resistência e elementos genéticos móveis, incluindo plasmídeos. O blaCTX-M-15, por exemplo, apresentou elevada frequência de coexistência com determinados replicons plasmidiais, enquanto qnrS1, associado à resistência às fluoroquinolonas, apareceu principalmente em plasmídeos específicos. Esses elementos podem funcionar como veículos para a circulação de genes de resistência entre populações bacterianas.
Há, porém, uma ressalva científica fundamental: o mapa ainda não é completo. Os próprios autores reconhecem diferenças importantes na quantidade de genomas disponíveis entre países, sorovares e períodos, o que pode produzir viés de amostragem. O consumo de antibióticos também não foi incorporado à análise. Além disso, os fenótipos de resistência foram previstos a partir dos genomas, e o sequenciamento de leitura curta não permitiu determinar com precisão o contexto físico de todos os genes de resistência e elementos móveis.
É justamente por isso que a principal mensagem do trabalho não é que a resistência esteja inevitavelmente vencendo. É que sua evolução precisa ser observada em tempo real.
Os autores defendem que a vigilância genômica global e o compartilhamento rápido de dados são fundamentais para atualizar diretrizes terapêuticas, controlar a resistência antimicrobiana e impedir a disseminação de clones de alto risco.
Em escala microscópica, a transformação acontece por mutações, plasmídeos e transferência de genes. Em escala global, ela aparece como uma mudança silenciosa na geografia das infecções. O estudo de Pei, Yang, Pang e colegas mostra que essas duas escalas são, na realidade, uma só: enquanto a Salmonella atravessa fronteiras biológicas, a resistência viaja dentro de seu genoma.
Referência
Pei, Y., Yang, Z., Pang, X. et al. A vigilância genômica global revela o surgimento e os padrões espaço-temporais da resistência a antibióticos prioritários da Organização Mundial da Saúde em Salmonella invasiva . Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-76354-1