Educação Física escolar ainda reproduz desigualdades de gênero, aponta pesquisa da USP
Dissertação de mestrado defendida na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) mapeia estratégias que promovem equidade entre meninos e meninas e expõe lacunas na formação de professores para lidar com a diversidade sexual em sala de aula

“O que se busca em sala de aula é desconstruir estereótipos”, diz Almeida – Foto: Marcos Santos /USP Imagens
A Educação Física na educação básica ainda enfrenta o desafio de superar divisões rígidas de gênero e práticas exclusionárias. É o que mostra a dissertação de mestrado de Nickolas Luiz de Andrade Almeida, defendida na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, em abril de 2026, denominada A inclusão e a equidade em gênero e sexualidade na Educação Física Escolar: uma revisão sistemática. Por intermédio da análise de seis estudos sobre o tema, o pesquisador mapeou intervenções pedagógicas voltadas à igualdade de gênero e à diversidade sexual nas aulas da disciplina e identificou as principais restrições na formação dos docentes.
Das seis pesquisas analisadas por Almeida, uma se destacou aos olhos do autor. “Duas autoras me chamaram a atenção:
Ana Paula Pereira e Heidi Jancer Ferreira, que utilizaram em suas intervenções práticas corporais não tradicionais, a exemplo da bocha, do beisebol e do corfebol, que facilitaram a equiparação entre meninos e meninas”. Segundo o pesquisador, “ao diversificar os conteúdos das aulas, o professor reduz o peso da diferença no repertório motor que meninos e meninas acumulam fora da escola, muitas vezes fruto de estímulos desiguais desde a infância”. Modalidades pouco conhecidas nivelam o ponto de partida entre os estudantes e abrem espaço para uma participação mais equilibrada.
Levar essas discussões para a escola, no entanto, esbarra em resistências que vêm de professores, famílias e da própria comunidade escolar. “Questões de gênero e sexualidade sempre foram um tabu, parece que o próprio termo já dá medo”, observa o pesquisador. Para ele, essa resistência nasce, na maioria das vezes, da falta de informação. “O que se busca em sala de aula é desconstruir estereótipos, como a ideia de que existem brincadeiras ‘de menino’ e ‘de menina’, e minimizar a exclusão de estudantes LGBTQIA+, entre outras repressões comuns no ambiente escolar.”
Nesse cenário, cabe ao professor o papel de garantir que a equidade seja construída no dia a dia da turma. Vídeos, músicas, reportagens, jogos e brincadeiras que evidenciam a pluralidade humana nas práticas corporais aparecem, na pesquisa, como ferramentas eficazes para trabalhar o tema sem reforçar preconceitos.
Vazio na graduação
Um dos pontos mais críticos identificados por Almeida está na formação dos próprios professores de Educação Física. “A formação inicial precisa realçar componentes pedagógicos que alcancem também os grupos marginalizados socialmente, como a comunidade LGBTQIA+”, avalia. “Muitas faculdades da área ainda carecem dessa temática. Falta discutir e desconstruir o que ainda está retrógrado durante a formação – em alguns cursos, sequer existe uma disciplina que trate dessa realidade.”
Para o pesquisador, esse vazio na graduação ajuda a explicar por que tantos professores chegam às escolas sem repertório para mediar conflitos ou acolher estudantes que não se encaixam em papéis de gênero tradicionais.
A estrutura física e organizacional das aulas também pesa nessa equação, segundo Almeida. “Os alunos considerados “melhores” tendem a excluir os “piores” durante determinadas práticas, uma dinâmica que, na prática, reforça divisões de gênero, já que meninas costumam ser as mais afetadas por esse tipo de hierarquia informal.”
Não existe uma fórmula única para resolver o problema, mas Almeida lista algumas alternativas encontradas nos estudos analisados. O uso de esportes pouco conhecidos, que colocam todos os estudantes em um ponto de partida mais parecido; a inserção de danças e músicas que fogem do padrão normativo esperado para cada gênero; e a valorização de referências femininas no esporte.
Almeida deixa recomendações para os profissionais que atuam em escolas, principalmente na rede pública de ensino. “Não reforce estereótipos. Entendo que para certas realidades faltam materiais e estrutura para aplicar algumas sugestões trazidas, contudo, o docente pode e deve promover sempre a equidade entre os alunos. Impedir as exclusões, misturar os meninos com as meninas, incentivar alunos que não possuem uma habilidade motora satisfatória em esportes específicos, ampliar jogos e brincadeiras cooperativas são algumas possibilidades que sugiro.”