Estudo encontra contaminação disseminada por metais e outros micropoluentes na bacia do Rio Doce e estima cerca de 300 casos de câncer potencialmente associados à exposição — mas a própria análise alerta que ainda não é possível...

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Dez anos depois do colapso da barragem de Fundão, em Mariana (MG), a dimensão do desastre começa a ganhar uma segunda escala: aquela que não pode ser vista na paisagem. Um estudo retrospectivo publicado nesta sexta-feira (28), na revista The Lancet Regional Health – Americas, analisou dados de qualidade da água e mortalidade e encontrou um padrão de contaminação disseminada por metais, metaloides, pesticidas e outros micropoluentes na bacia do Rio Doce. Os pesquisadores estimaram aproximadamente 300 casos de câncer associados, em termos de risco populacional, à exposição a contaminantes presentes na água.
O número, porém, exige uma leitura cuidadosa. Ele não significa que 300 pessoas tenham sido identificadas clinicamente como vítimas de câncer causado pela lama. Trata-se de uma estimativa epidemiológica de risco, calculada a partir das concentrações observadas, da população exposta e dos valores de referência da Organização Mundial da Saúde (OMS). A diferença é fundamental — e é justamente nela que reside a força e, ao mesmo tempo, a limitação do estudo.

Desenho do estudo. Este estudo utilizou dados sobre contaminação da água potável do banco de dados SISAGUA, abrangendo o período de 2011 a 2023. O conjunto de dados inclui informações de todos os 27 estados brasileiros, distribuídos em cinco macrorregiões (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), representando uma população total de 212 milhões de habitantes. O SISAGUA fornece informações essenciais sobre diversos aspectos da qualidade da água, incluindo o tipo de análise da amostra (rotina, relacionada a desastres ou motivada por denúncias), as fontes das amostras de água (torneira, cisterna, bebedouro...
Uma investigação construída sobre grandes bancos de dados
Carolina Panis, Jamie Ponmattam, Altair Rodrigues Pires de Paula Filho, Rafael Gomes Paz, Shaiane Carla Gaboardi, Guilherme Welter Wendt e Marcia C. Castro combinaram duas fontes públicas brasileiras: o Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (SISAGUA), com registros de 2014 a 2023, e o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM/DATASUS), com dados de 2011 a 2023. A análise envolveu inicialmente 874.879 registros de água e 144 micropoluentes.
O primeiro filtro identificou 23.182 medições acima dos limites máximos residuais brasileiros, envolvendo 65 contaminantes em 203 municípios da bacia do Rio Doce. Para estimar risco de câncer, foram selecionadas 41 substâncias que possuíam valores de referência da OMS. O conjunto final incluía dez metais e metaloides, seis substâncias inorgânicas, 21 pesticidas e quatro compostos orgânicos.
Para a análise epidemiológica mais específica, os autores concentraram-se em 31 municípios do Rio Doce, comparados a 17 municípios das bacias dos rios Grande e Jequitinhonha, em Minas Gerais. A população estudada chegava a aproximadamente 3,6 milhões de habitantes.
A estratégia estatística combinou análises descritivas, taxas de mortalidade ajustadas por idade, testes estatísticos convencionais e uma abordagem de diferenças-em-diferenças, comparando a mudança da mortalidade antes e depois de 2015 entre a região afetada e a região de comparação. Modelos complementares — incluindo controle sintético, regressão Bayesiana e mapeamento espacial — foram empregados para testar a robustez dos resultados.
O sinal mais forte veio dos metais
O padrão encontrado na água foi particularmente marcado por metais e metaloides. Entre eles, cádmio, chumbo, arsênio e antimônio responderam pela maior parcela da estimativa de risco carcinogênico. Considerando as concentrações máximas registradas, o cádmio respondeu sozinho por aproximadamente 150 casos estimados, seguido por chumbo, com 45,1, arsênio, com 44,8, e antimônio, com 22,4. Juntos, esses elementos representam mais de 260 casos da estimativa relacionada aos metais e metaloides.
O cádmio é particularmente relevante porque apresenta baixo valor de referência para exposição e é classificado pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC) como carcinógeno do Grupo 1. Os autores ressaltam mecanismos biológicos já conhecidos, incluindo estresse oxidativo, dano ao DNA, alterações na reparação genética e modificações epigenéticas.
Os pesticidas acrescentaram uma segunda camada ao problema. A análise estimou cerca de 16 casos adicionais relacionados a essa classe, com destaque para mancozeb/ETU, detectado em 17 municípios. Sua concentração média foi de 4,3 ppb, enquanto o maior valor chegou a 60 ppb, correspondendo respectivamente a 1,06 e 9,2 casos estimados.
Mortalidade aumentou — mas causalidade continua fora do alcance
O resultado epidemiológico mais expressivo foi o aumento da mortalidade geral dentro da própria bacia do Rio Doce. A taxa média passou de 0,025 para 0,030 mortes por população entre os períodos anterior e posterior ao desastre, uma variação estatisticamente significativa (p = 0,028). Na região de comparação, não houve alteração significativa.

Vista parcial da Ponte Florentino Avidos. Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Mas a análise mais importante para estabelecer um possível efeito do desastre produziu uma resposta muito mais cautelosa. O modelo de diferenças-em-diferenças encontrou um excesso estimado de 0,0030 mortes por população, porém com intervalo de confiança de 95% entre ?0,0058 e 0,0118 e p = 0,502. Em outras palavras, o resultado foi positivo na direção esperada, mas não estatisticamente significativo.
Essa distinção impede a conclusão de que o rompimento da barragem tenha causado o aumento observado da mortalidade.
O mesmo cuidado vale para o câncer. A incidência não foi analisada, em grande parte porque muitos tumores sólidos apresentam longos períodos de latência. Os autores optaram pela mortalidade como indicador populacional, mas encontraram diferenças em determinados tipos de câncer. Na bacia do Rio Doce, a mortalidade por câncer de ovário (p = 0,0408), reto (p = 0,0153) e orofaringe (p = 0,0170) foi maior; câncer do sistema nervoso central apresentou resultado limítrofe (p = 0,0524).
O que mudou em relação ao conhecimento anterior?
Pesquisas anteriores já haviam detectado níveis elevados de metais em sangue e urina de moradores expostos à região do desastre. O problema era outro: esses trabalhos eram predominantemente transversais, com amostras menores e janelas de exposição relativamente curtas. Faltava uma avaliação integrada da qualidade da água, exposição potencial e consequências populacionais de longo prazo.
O novo estudo amplia essa perspectiva ao conectar vigilância ambiental e mortalidade em escala municipal. Ele também converge com evidências produzidas após o desastre de Brumadinho, onde pesquisadores identificaram concentrações elevadas de cádmio, arsênio e chumbo em sangue e urina, inclusive entre crianças.
Há ainda uma possibilidade que pode fazer com que os aproximadamente 300 casos estimados sejam conservadores: a água não é necessariamente a única via de exposição. Estudos citados pelos autores encontraram cádmio, cromo e chumbo em peixes do Rio Doce acima de limites regulatórios, abrindo a possibilidade de exposição adicional pela cadeia alimentar.
A grande incógnita está no passado — e no futuro
A principal fragilidade do estudo é também uma consequência da própria história do desastre: faltam dados sistemáticos de qualidade da água antes de 2015 na maior parte dos municípios afetados. Sem uma linha de base robusta, não é possível separar completamente a contaminação anterior, relacionada a décadas de mineração, daquela intensificada pelo colapso de Fundão.
O desenho ecológico também impede concluir que determinado indivíduo desenvolveu câncer por causa de determinado contaminante. Além disso, os dados possuem lacunas, resultados abaixo dos limites de detecção foram excluídos, somente 41 dos 144 contaminantes monitorados tinham valores de referência adequados para a avaliação de risco e ainda não existem métodos suficientemente precisos para estimar os efeitos combinados de misturas complexas de poluentes. Envelhecimento populacional, migração e diferenças no diagnóstico e rastreamento de câncer também podem atuar como fatores de confusão.
O que o trabalho muda, portanto, não é a possibilidade de declarar encerrada a questão. É exatamente o contrário.
Ele transforma a contaminação da água em uma hipótese epidemiológica que exige acompanhamento de longo prazo. Os próprios pesquisadores defendem coortes prospectivas, biomonitoramento, integração entre vigilância ambiental, registros de câncer e sistemas de mortalidade, além de estudos capazes de acompanhar indivíduos expostos durante décadas.

A consequência mais importante pode estar justamente nessa mudança de escala: o desastre de Mariana deixa de ser apenas um episódio de contaminação ambiental ocorrido em 2015 e passa a ser tratado como um experimento involuntário de exposição crônica, cujos efeitos podem atravessar gerações.
Os autores não demonstram que a lama causou 300 cânceres. Demonstram algo mais fundamental: existe uma combinação mensurável de contaminação ambiental, exposição potencial e sinais populacionais de saúde suficientemente preocupantes para tornar inadequado esperar por décadas antes de investigar. O próximo passo da ciência será descobrir quanto desse sinal é realmente consequência do desastre — e quanto dele revela uma história ambiental que começou muito antes da barragem romper.
Referência
Impactos ambientais e de saúde pública após o rompimento da barragem de Fundão (Mariana, Brasil): um estudo ecológico retrospectivo da qualidade da água potável e da mortalidade por câncer. The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 63 101615 Publicado: 28 de agosto de 2026. Carolina Panis, Jamie Ponmattam, Altair Rodrigues Pires de Paula Filho, Rafael Gomes Paz, Shaiane Carla Gaboardi,Guilherme Welter Wendte outros.