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Quando o sol divide a política — e quando a agricultura pode aproximá-la
Experimento com 2.145 suíços mostra que a aceitação da energia solar depende menos de informação sobre os projetos e mais de como eles ocupam a terra, afetam a produção de alimentos e distribuem seus benefícios
Por Laercio Damasceno - 31/08/2026


Imagem: Reprodução


A expansão da energia solar enfrenta um obstáculo que não aparece nos painéis, nos cabos ou nos cálculos de geração elétrica: a política. Em áreas rurais, grandes instalações fotovoltaicas podem transformar uma tecnologia associada à transição energética em objeto de disputa sobre paisagem, agricultura, propriedade e identidade local. Um novo estudo realizado na Suíça indica, porém, que esse conflito não é inevitável. A chave pode estar menos em convencer as pessoas e mais em mudar o desenho dos projetos.

A pesquisa, assinada por Lukas Fesenfeld, Leon Sistek, Simon Montfort, Dionis Anderegg, Jürg Rohrer e Tobias Schmidt, examinou uma tecnologia que procura conciliar duas atividades frequentemente colocadas em competição: produção de alimentos e geração de eletricidade. A chamada agrivoltaica instala painéis solares sobre ou junto a áreas agrícolas, permitindo que a mesma terra seja utilizada para agricultura e produção de energia.

O experimento foi realizado com 2.145 adultos suíços, selecionados a partir do registro populacional federal. Os pesquisadores convidaram 16.500 pessoas dos cantões de língua alemã e francesa; 3.384 responderam, e, depois da exclusão de respostas incompletas ou de baixa qualidade, chegaram à amostra final. A taxa de resposta foi de aproximadamente 20,5%. A coleta ocorreu entre 3 de maio e 8 de junho de 2024, imediatamente antes de um referendo nacional sobre a expansão das energias renováveis.

O desenho experimental combinou duas estratégias. Primeiro, os participantes receberam informações sobre agrivoltaica. Um grupo recebeu apenas informações gerais; outro recebeu, adicionalmente, mapas personalizados, produzidos a partir de dados geográficos, mostrando o potencial realista para instalações solares próximo de suas residências. As distâncias consideradas foram de 0–500 metros, 500–1.500 metros e 1.500–4.500 metros.

Depois, todos participaram de um experimento de escolha conjunta, o chamado conjoint experiment. Em quatro rodadas, cada indivíduo comparou dois projetos hipotéticos de agrivoltaica. Os projetos variavam aleatoriamente em sete atributos: tipo de instalação, tamanho, distância da residência, propriedade, impacto sobre a produção agrícola, efeito sobre a produção local de eletricidade e aumento da renda dos agricultores.

O resultado mais surpreendente é que informar não foi necessariamente suficiente para convencer.

Os participantes de direita apresentaram cerca de 60% de oposição aos projetos solares convencionais instalados em áreas abertas. Entre os centristas, mais de metade também não apoiava esse modelo. A agrivoltaica, entretanto, apresentou um quadro muito diferente: mais de 60% dos entrevistados de direita declararam apoio à tecnologia. Nas áreas rurais, justamente onde os projetos poderiam produzir impactos mais diretos, a diferença também foi expressiva: menos de 40% apoiavam a energia solar convencional em áreas abertas, enquanto a agrivoltaica alcançava quase 60% de apoio.

Mas o consenso desaparece quando aumenta a escala.

Projetos de aproximadamente 1 hectare, equivalentes a um campo de futebol, foram consideravelmente mais aceitos do que instalações de até 5 ou 10 hectares. Entre eleitores de direita, a avaliação média de projetos grandes ficou em 3,5 pontos numa escala de 1 a 7, contra 4,5 pontos para instalações pequenas.

A arquitetura do projeto também importa. Sistemas integrados a estruturas agrícolas existentes — como estufas ou túneis agrícolas — receberam entre 54% e 70% de apoio claro, dependendo do grupo político. Em contraste, sistemas verticais instalados diretamente sobre pastagens ou terras aráveis obtiveram apenas 40% de apoio entre os participantes de direita, caindo para 36% quando estes receberam a informação geolocalizada.

O fator agrícola talvez seja ainda mais importante. Quando a instalação implicava uma redução de apenas 0% a 5% na produtividade das culturas, uma maioria dos participantes de todos os grupos ideológicos apoiava o projeto. Entre os entrevistados de direita, o apoio chegava a 54% no grupo de controle e 50% no grupo informado. Quando as perdas agrícolas projetadas subiam para 41%–80%, a resistência se disseminava.

Esse resultado desloca o centro da discussão. A pesquisa indica que as pessoas parecem preocupar-se mais com a eventual perda de produção de alimentos do que com o aumento da produção local de eletricidade. Ou seja, a promessa de gerar mais energia não compensa necessariamente a percepção de que a agricultura será sacrificada.

A propriedade também altera a equação política. Projetos pertencentes a agricultores locais receberam apoio de 53% dos entrevistados de direita, 55% dos centristas e 64% dos participantes de esquerda no grupo de controle. O resultado sugere que quem controla economicamente o projeto pode ser quase tão importante quanto aquilo que o projeto produz.

Há, portanto, uma conclusão que contraria uma expectativa comum: mais informação não produziu necessariamente mais apoio. O tratamento geolocalizado teve efeitos pequenos, com variações entre aproximadamente - 0,123 e - 0,155 ponto em uma escala de sete pontos. Em alguns desenhos, a informação chegou a reduzir o apoio. Entre participantes de direita, por exemplo, o apoio a sistemas horizontais caiu de 46% para 38% após o tratamento.

Isso não significa que a informação seja inútil. Os pesquisadores verificaram que os participantes efetivamente atualizaram seus conhecimentos sobre o potencial de construção próximo de suas casas. O problema é outro: conhecer melhor o risco ou a possibilidade local não foi suficiente para superar as preferências relacionadas ao desenho do projeto.

Os resultados dialogam com pesquisas anteriores que já haviam identificado maior aceitação de projetos solares associados a benefícios locais, propriedade comunitária e menor impacto sobre a paisagem. A novidade está em demonstrar experimentalmente, em um contexto politicamente polarizado, que essas características podem funcionar simultaneamente como mecanismos de redução da resistência. Os autores argumentam que a tecnologia e o desenho do projeto têm efeitos maiores sobre o apoio do que a simples informação sobre seu potencial local.


Mas a pesquisa não autoriza concluir que a agrivoltaica resolverá o conflito em qualquer lugar. Sua principal limitação é justamente o país estudado. A Suíça possui democracia direta, escassez de terra agrícola, forte valorização da paisagem e níveis elevados de subsídio à agricultura. Os próprios autores alertam que ainda não está claro se os resultados se repetiriam em países com instituições, mercados agrícolas, pressões territoriais e culturas políticas diferentes.

Há também uma questão ainda sem resposta: o apoio declarado em um experimento transforma-se em apoio real quando uma instalação é proposta no município? A pesquisa mede atitudes e escolhas diante de projetos descritos experimentalmente. Não acompanha, porém, uma comunidade antes, durante e depois da construção de uma usina. Também permanece desconhecido se diferentes desenhos alterariam efetivamente o comportamento eleitoral — uma questão que os autores recomendam investigar.

E existe um custo econômico. Sistemas agrivoltaicos podem ser politicamente mais atraentes, mas não são necessariamente os mais baratos. Segundo os dados apresentados no estudo, o custo nivelado da eletricidade pode ser cerca de 10% superior ao da energia solar convencional em determinados sistemas horizontais de baixa altura e chegar a 50% acima em estruturas elevadas mais de quatro metros. Sistemas integrados à paisagem, com até 2,5 metros de altura, apresentam normalmente um prêmio de custo de 30%–40%.

É justamente aí que a descoberta deixa de ser apenas sociológica e passa a ser política. O estudo estima que projetos bem integrados, com impacto mínimo sobre as culturas, podem alcançar níveis de apoio 40 a 50 pontos percentuais superiores aos de grandes instalações ou sistemas associados a perdas agrícolas maiores.

A escolha, portanto, pode não ser simplesmente entre acelerar ou frear a energia solar. Pode ser entre projetar a transição energética para maximizar apenas a geração elétrica ou projetá-la também para minimizar o conflito social.

Os pesquisadores chegam a uma conclusão particularmente relevante para países onde a expansão das renováveis encontra resistência local: o futuro da energia solar em áreas agrícolas poderá depender menos da capacidade de convencer adversários e mais da capacidade de oferecer projetos que eles considerem compatíveis com seus próprios interesses.

A questão que emerge da pesquisa é simples, mas politicamente poderosa: não basta perguntar quanta energia um projeto pode produzir. É preciso perguntar que tipo de projeto as pessoas estão dispostas a aceitar — e por quê.


Referência
Fesenfeld, L., Sistek, L., Montfort, S. et al. Agrivoltaicos podem reduzir a polarização política e a oposição local à energia solar em terra. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-77141-8

 

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