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Quando o método muda o número da violência
Estudo com sete bases de dados brasileiras mostra que estimar a violência por parceiro íntimo depende não apenas de quantos casos existem, mas de como eles são procurados, perguntados e registrados
Por Laercio Damasceno - 13/09/2026


Imagem: Reprodução


Há um problema silencioso por trás de qualquer tentativa de medir a violência contra mulheres: antes de contar os casos, é preciso decidir como encontrá-los. Um novo estudo epidemiológico realizado por pesquisadores do Institute for Health Metrics and Evaluation, da University of Washington, e de universidades brasileiras mostra que essa escolha metodológica pode alterar substancialmente o retrato estatístico da violência por parceiro íntimo (IPV, na sigla em inglês).

A equipe analisou sete fontes brasileiras de informação — cinco pesquisas e dois sistemas administrativos — para comparar como diferentes instrumentos, populações, períodos de recordação e formas de entrevista influenciam as estimativas de violência física e sexual. Foram considerados dados referentes a mulheres com 16 anos ou mais, com períodos de recordação de 12 ou 24 meses, e as estimativas foram calculadas com intervalos de confiança de 95%.

O resultado mais importante talvez não seja uma nova porcentagem, mas a demonstração de que porcentagens aparentemente comparáveis podem não estar medindo exatamente a mesma coisa.

Sete fontes, sete maneiras de enxergar o mesmo fenômeno

Entre os levantamentos nacionais, a prevalência de violência física variou dramaticamente conforme a fonte e a faixa etária. Entre mulheres jovens, de 16 ou 18 a 29 anos, por exemplo, a estimativa foi de 13,0% (IC 95%: 8,3–17,8) no LENAD de 2006, enquanto chegou a apenas 3,6% (3,0–4,4) na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 — uma diferença superior a três vezes.

O Data Senado Research (DSR), também de 2019, produziu uma estimativa intermediária de 10,6% (7,7–13,5) para mulheres de 16 a 29 anos. Na mesma pesquisa, a prevalência caiu para 9,3% entre 30 e 39 anos, 5,7% entre 40 e 49 e 4,0% entre 60 e 99 anos. Já a PNS registrou 3,5%, 2,5%, 1,0% e 0,4%, respectivamente, nas faixas correspondentes.

Essas diferenças não autorizam concluir, por si só, que a violência tenha diminuído entre 2006 e 2019. Os pesquisadores alertam que mudanças no instrumento de pesquisa, nas condições de privacidade e na forma de entrevista podem produzir parte importante da discrepância.

A idade, contudo, emerge como um dos sinais mais consistentes. A violência física foi sistematicamente mais frequente entre mulheres mais jovens, padrão observado em diferentes bases de dados. Para a violência sexual, porém, a regularidade desaparece: as pesquisas não produziram um padrão etário único.

O que os dados realmente demonstram?

O estudo não estabelece uma “taxa verdadeira” de violência no Brasil. Ele demonstra algo metodologicamente mais fundamental: a magnitude observada depende da arquitetura usada para observar o fenômeno.

A PNS, por exemplo, entrevistou 46.869 mulheres e possui ampla representatividade nacional. Mas seu módulo de violência inicialmente identifica a ocorrência de violência e, posteriormente, pergunta quem foi responsável pelo episódio considerado “mais grave”. Segundo os autores, esse desenho pode deixar de identificar mulheres que sofreram outros episódios ou violências cometidas por diferentes perpetradores.

O contraste com Vitória é particularmente sugestivo. A pesquisa realizada na capital capixaba entrevistou 1.086 mulheres e garantiu explicitamente que as entrevistas ocorressem quando elas estivessem sozinhas. Suas estimativas foram consistentemente superiores às observadas em outras pesquisas domiciliares. Mas os próprios autores evitam atribuir essa diferença exclusivamente à privacidade: os estudos também divergiam em vários outros aspectos.

Esse cuidado é central. A pesquisa identifica heterogeneidade, mas não consegue separar experimentalmente o peso de cada componente metodológico.

O segundo problema: contar quem chegou ao sistema

Os registros administrativos oferecem outra perspectiva — e outra distorção potencial.

O SINAN registrou, em 2019, 62.265 casos de violência física por parceiro íntimo e 3.550 de violência sexual em âmbito nacional. No Espírito Santo, foram registrados 1.311 casos físicos e 80 sexuais. Na base policial capixaba, apareceram 1.106 registros de violência física doméstica e 449 de violência sexual.

Esses números, entretanto, não são estimativas de prevalência populacional. São registros de mulheres que chegaram aos serviços de saúde ou às instituições policiais. O estudo ressalta que levantamentos anteriores estimaram subnotificação no SINAN em aproximadamente 75% para violência física e 90% para violência sexual, quando comparado a dados de pesquisas. Em outro município brasileiro, registros policiais chegaram a ser oito vezes superiores aos registros do SINAN, enquanto menos de 5% dos casos apareciam simultaneamente nos dois sistemas.

A discrepância revela uma característica fundamental do fenômeno: uma base administrativa não é simplesmente uma versão menor de uma pesquisa populacional. Cada sistema captura mulheres em momentos diferentes da trajetória entre violência, reconhecimento, denúncia, busca de atendimento e registro institucional.

O que ainda permanece desconhecido?

Permanece desconhecido quanto da variação observada pode ser atribuído especificamente ao questionário, à privacidade, ao modo de entrevista, ao período de recordação ou às características da população estudada.

Os autores são explícitos sobre essa limitação: como as fontes diferem simultaneamente em idade mínima, população-alvo, período histórico, instrumento, contexto da entrevista e período de recordação, não é possível isolar o efeito causal de uma única característica metodológica.

Também há diferenças importantes de composição. O LENAD, por exemplo, restringiu-se a mulheres casadas ou vivendo com parceiro; o estudo de Pelotas examinou exclusivamente mães; outras pesquisas tiveram amostras e formas de recrutamento distintas. Além disso, os casos registrados nas diferentes bases não são necessariamente mutuamente exclusivos.

Outro vazio importante é a ausência de dados sobre raça ou etnia na análise.

De uma estatística para uma política pública

A consequência prática do estudo é potencialmente ampla. Se diferentes instrumentos produzem retratos diferentes, comparar séries históricas sem considerar mudanças metodológicas pode levar a conclusões equivocadas sobre aumento ou redução da violência.

Os pesquisadores defendem maior padronização, períodos de recordação explicitamente definidos, instrumentos comparáveis e condições adequadas de privacidade. Também sugerem que grandes pesquisas nacionais, como a PNS, considerem a utilização mais completa do instrumento da Organização Mundial da Saúde, incluindo perguntas sobre diferentes episódios de violência em vez de concentrar a identificação no episódio “mais grave”.

A mensagem final é menos confortável — e mais importante — do que simplesmente afirmar que uma determinada porcentagem de mulheres sofre violência. O Brasil ainda não possui um padrão-ouro para medir a violência por parceiro íntimo. Por isso, o caminho para números mais confiáveis passa por repetir medições com métodos consistentes, combinar informações de pesquisas, saúde e segurança pública e investigar sistematicamente onde ocorre a perda de informação.

Como sintetizam os autores, compreender as diferenças entre fontes é essencial para interpretar corretamente as estimativas e aprimorar políticas públicas.

O estudo, portanto, não apenas mede a violência. Ele questiona a própria maneira como a sociedade decide o que conta como evidência de violência. E essa talvez seja sua contribuição mais duradoura: antes de perguntar quantas mulheres estão sendo vítimas, será necessário garantir que os instrumentos usados para ouvi-las sejam capazes de encontrá-las.


Referência
Avaliação das diferenças metodológicas na estimativa da exposição à violência doméstica contra mulheres no Brasil: uma análise observacional multissource.
The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 63 101632 Publicado em: 12 de setembro de 2026 . Caroline Stein, Nádia Machado de Vasconcelos, Carolina VN. Coll, José Murray, Franciele Marabotti Costa Leite, Bruna Venturine outros. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101632

 

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