Mundo

Satélites redesenham o mapa dos solos do Cerrado, mas precisão ainda depende do olhar humano
Estudo no Distrito Federal combina imagens do CBERS-4A, relevo, vegetação e geologia para mapear 18,3 mil hectares; resultado alcança cerca de 80% de concordância com levantamento convencional, mas pesquisadores alertam para limites da tecnologia
Por Laercio Damasceno - 15/09/2026


Imagem: Reprodução


Mapear o solo parece, à primeira vista, uma tarefa de cartografia. Na prática, é uma tentativa de reconstruir uma história escrita lentamente pela água, pelo clima, pelo relevo, pela vegetação e pela própria geologia. Um novo estudo realizado em áreas do Jardim Botânico de Brasília, da Fazenda Água Limpa e de territórios adjacentes mostra que satélites e sistemas de informação geográfica podem acelerar esse trabalho — mas também revela que a tecnologia está longe de tornar dispensável a interpretação pedológica.

Assinado por Roberto de Paula Pinto, Isaías da Silva Pereira, Carlos Rodrigues Pereira e Fábio Ferreira Dias, o trabalho integrou geotecnologias e critérios pedológicos para produzir, na escala de 1:25.000, um mapa de solos da região. A estratégia utilizou imagens do satélite CBERS-4A, modelos digitais de elevação, informações sobre vegetação e material de origem, além de bases cartográficas oficiais. O processamento foi realizado no software livre QGIS.

O resultado mais expressivo é quantitativo: o mapa digital apresentou cerca de 80% de concordância global com um levantamento semidetalhado convencional anterior e alcançou índice Kappa de 0,42.

Mas os números precisam ser lidos com cuidado. Um Kappa de 0,42 corresponde, na classificação tradicional citada pelos autores, a uma concordância moderada. Mais importante: o próprio estudo recorre à advertência de Foody (2020), segundo a qual o Kappa, sozinho, não é suficiente para medir a qualidade de um mapa temático. Em solos, essa cautela ganha peso porque as fronteiras entre classes frequentemente são graduais, e não linhas abruptas observáveis no terreno.

Como a pesquisa foi feita

A pesquisa partiu de uma questão essencial: seria possível reproduzir a organização dos solos da paisagem usando variáveis ambientais observáveis remotamente?

Para responder, os pesquisadores trabalharam com uma imagem do CBERS-4A adquirida em 27 de junho de 2022. O sensor WPM originalmente apresenta resolução espacial de 8 metros; após a fusão com a banda pancromática, os autores obtiveram um produto de 2 metros de resolução. A composição RGB 4-3-2 foi empregada para melhorar a discriminação visual da vegetação e dos contrastes superficiais.

A imagem, porém, foi apenas uma parte da equação. O estudo incorporou curvas de nível com equidistância de 5 metros, mapa geológico na escala de 1:100.000, redes de drenagem, sistema viário, áreas urbanas e limites administrativos. Todas as bases foram padronizadas no sistema SIRGAS 2000, zona 23 Sul.

A lógica foi integrar quatro grandes fontes de informação: relevo, vegetação, material de origem e conhecimento pedológico. A partir delas, os pesquisadores realizaram cruzamentos espaciais, álgebra de mapas, interpretação visual e análise dos padrões de associação entre solo e paisagem. A classificação foi feita até o segundo nível categórico do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos.

Em outras palavras, não se tratou de simplesmente pedir a um computador que “reconhecesse” os solos. O mapa surgiu da combinação entre dados digitais e interpretação científica.

O que os dados realmente mostram

A principal descoberta foi a força do relevo como organizador da distribuição dos solos.

Cerca de 90% da área, equivalente a 16.638,31 hectares, apresentava relevo plano a suave ondulado. Outros 9,22%, ou 1.703,99 hectares, correspondiam a áreas onduladas. Relevos forte ondulado e montanhoso somaram apenas 0,68%, aproximadamente 125,96 hectares.

Essa configuração ajuda a explicar o domínio dos solos mais evoluídos. Os Latossolos Vermelho-Amarelos ocuparam 65% da área, ou 11.909,09 hectares. Os Neossolos Quartzarênicos vieram em seguida, com aproximadamente 20%, equivalentes a 3.705,29 hectares. Latossolos Vermelhos representaram 1,45%; Cambissolos, 0,69%; Organossolos, 4,44%; e Gleissolos, 0,18%. As áreas antropizadas corresponderam a aproximadamente 8%.

A distribuição não foi aleatória. Os Latossolos apareceram principalmente em superfícies mais estáveis e suavemente onduladas, enquanto os Neossolos Quartzarênicos estiveram relacionados a materiais mais arenosos. Cambissolos concentraram-se em áreas de relevo mais movimentado, especialmente nas bordas de chapadas. Organossolos e Gleissolos apareceram em posições mais baixas e sujeitas ao encharcamento.

A vegetação também ofereceu pistas. O Cerrado sensu stricto representou 63,13%, ou 11.659,88 hectares. Campo Cerrado ocupou 16,5%, equivalente a 3.600,49 hectares; Mata de Galeria, 5,14%, ou 948,76 hectares; Cerradão, 1,74%, ou 321,19 hectares; e Vereda, 0,18%, ou 32,52 hectares.

O que ainda não sabemos

O estudo não demonstra que satélites conseguem substituir levantamentos de campo. Demonstra algo mais específico: que geotecnologias podem reproduzir, com desempenho considerado satisfatório para a escala adotada, parte significativa da lógica espacial identificada em levantamentos convencionais.

Há incertezas importantes.

A primeira está na própria escala dos dados. O mapa geológico utilizado possui escala 1:100.000, enquanto o produto pedológico foi elaborado em 1:25.000. Essa diferença reduz a capacidade de discriminar com precisão o material de origem em determinadas áreas.

A segunda está na natureza do solo. As paisagens não respeitam necessariamente as fronteiras geométricas impostas pelos mapas. Um solo pode fazer uma transição gradual para outro, enquanto a cartografia precisa transformar essa continuidade em polígonos definidos.

A terceira é humana: o pesquisador continua sendo indispensável. Como afirmam os autores, as ferramentas digitais ampliam a capacidade de análise, mas “não substituem a leitura pedológica do terreno”.

Um resultado que dialoga com pesquisas anteriores

A conclusão não surge isoladamente. O estudo recupera uma tradição iniciada com a teoria dos fatores de formação do solo de Hans Jenny, segundo a qual clima, organismos, relevo, material de origem e tempo interagem na formação dos solos.

Também converge com Barbosa et al. (2010), que já haviam demonstrado no Planalto Central a utilidade da relação entre geologia, geomorfologia e pedologia para modelar a distribuição dos solos. Estudos de Duarte e Silva (2019) e Silva (2014), citados pelos autores, igualmente apontaram que o desempenho das classificações geoespaciais depende da combinação entre algoritmo, resolução, paisagem e qualidade da validação.


A novidade, portanto, não está em descobrir que geotecnologias podem ser usadas na pedologia. Está em mostrar, neste recorte do Cerrado do Distrito Federal, que a integração entre dados relativamente acessíveis e conhecimento especializado pode produzir um mapa com utilidade prática.

O que pode mudar

A consequência mais importante talvez não seja científica, mas administrativa.

Levantamentos convencionais exigem trabalho de campo, descrição de perfis, amostragem, análises laboratoriais e interpretação cartográfica — processos que podem ser caros, demorados e difíceis de atualizar em grandes áreas. A abordagem geotecnológica abre a possibilidade de produzir e atualizar mapas com maior rapidez e menor custo operacional.

Isso pode afetar decisões sobre planejamento territorial, aptidão agrícola, conservação do solo e da água, recuperação de áreas degradadas e gestão ambiental.

Há, contudo, uma condição decisiva. A tecnologia não deve ser vista como substituta da pedologia, mas como sua extensão.

É essa talvez a conclusão mais sofisticada do estudo: o futuro do mapeamento de solos não parece estar na escolha entre o especialista e o satélite. Está na combinação entre ambos. O satélite amplia o campo de visão; o mapa organiza a paisagem; os algoritmos aceleram os cruzamentos; mas é o conhecimento sobre a formação dos solos que transforma pixels em informação ambiental.

No Cerrado, onde expansão agropecuária, urbanização e infraestrutura pressionam continuamente o território, essa diferença deixa de ser apenas acadêmica. Conhecer onde estão os solos — e, sobretudo, compreender por que estão ali — pode determinar quais áreas são mais adequadas ao uso, quais exigem proteção e quais não deveriam ser submetidas a determinadas formas de ocupação.

O estudo não oferece um mapa definitivo. Oferece algo potencialmente mais útil: um caminho para tornar o conhecimento do território mais rápido, atualizável e acessível, sem abandonar a complexidade que existe sob nossos pés.


Referência
Pinto, R. de P., Pereira, I. da S., Pereira, C. R., & Dias, F. F. (2026). GEOTECNOLOGIAS APLICADAS AO LEVANTAMENTO PEDOLÓGICO E À CLASSIFICAÇÃO DE SOLOS NA REGIÃO DO CERRADO, DISTRITO FEDERAL, BRASIL. Revista Ibero-Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 12(9), 1–19. https://doi.org/10.51891/rease.v12i9.30027

 

.
.

Leia mais a seguir