Répteis com febre? Cientistas estudam como variação térmica do ambiente favorece febre comportamental
Estudo mostra como as condições de temperatura dos hábitats podem potencializar a febre comportamental em répteis e anfíbios, estratégia de defesa contra infecções de animais que dependem do calor externo

A maior parte dos répteis, anfíbios, peixes e invertebrados são ectotérmicos, popularmente chamados de “sangue frio” – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Animais ectotérmicos, como anfíbios e répteis, dependem de fontes externas de calor para regular a temperatura corporal. Quando enfrentam uma infecção, podem procurar ambientes mais quentes para elevar o calor do corpo e favorecer a resposta imunológica. Esse comportamento é conhecido como febre comportamental.
Um estudo conduzido por pesquisadores da USP e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e publicado em importante revista científica investigou como a variação térmica do ambiente influencia essa estratégia de defesa. Os resultados apontaram que ambientes com maior variação de temperatura ao longo do dia estão associados a respostas de febre comportamental mais intensas. A análise também identificou diferenças entre anfíbios e répteis, e mostrou que a reação varia conforme o tipo de agente infeccioso.
Febre comportamental
A febre é um mecanismo de defesa natural do organismo para combater infecções. Quando agentes infecciosos são identificados, o corpo eleva sua temperatura. Essa reação pode dificultar a multiplicação de alguns patógenos e facilitar os mecanismos de defesa.
Os animais endotérmicos, como mamíferos e aves, produzem calor por meio do próprio metabolismo e conseguem conservar essa temperatura, mesmo diante de mudanças no ambiente. Durante uma infecção, o organismo consegue desenvolver a febre como parte da resposta imunológica. Já os animais ectotérmicos precisam recorrer a outra estratégia para desenvolver esse mecanismo de defesa.
O termo “ectotérmico” vem do grego ektos (exterior) e thermos (calor). Seres com essa característica, como anfíbios e répteis, dependem principalmente de fontes externas de aquecimento, como a luz solar e superfícies aquecidas, para regular a temperatura corporal.
Quando esses animais estão infectados por algum patógeno, eles podem alterar seu comportamento e procurar locais mais quentes para elevar a temperatura corporal. Essa reação é definida como febre comportamental e pode contribuir para a defesa contra ameaças.
“Se um sapo está infectado por uma bactéria, para expressar essa resposta febril, ele precisa encontrar um canto mais quente do ambiente dele. Se está em uma poça d’água, ele precisa ir para uma rocha que está um pouquinho mais quente”, exemplifica Danilo Giacometti, professor no Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências (IB) da USP e um dos autores do artigo.
A febre comportamental não é a única resposta possível dos animais ectotérmicos à infecção. Segundo o pesquisador, algumas espécies também podem apresentar hipotermia comportamental, ou anapirexia – estratégia em que buscam ambientes mais frios e reduzem a temperatura corporal. A diminuição do calor pode desacelerar o metabolismo do organismo e do agente infeccioso. O artigo destaca que ainda são limitadas as evidências de que essa resposta aconteça especificamente por infecções.
Variabilidade térmica
O objetivo do estudo foi investigar quais as características ambientais e experimentais que ajudam a explicar a ocorrência e a intensidade dessas respostas imunológicas em anfíbios e répteis. Usando uma metodologia conhecida como metanálise, que combina os resultados de diversos estudos voltados a um conjunto de hipóteses específicas, os pesquisadores concluíram que as espécies associadas a ambientes com maior variação de temperatura ao longo do dia apresentaram respostas de febre comportamental mais acentuadas depois da exposição a algum patógeno.
“Esse resultado indica que as características térmicas do ambiente estão relacionadas à maneira com que esses animais respondem às infecções, ou seja, a capacidade desses animais em explorar os circuitos térmicos que o ambiente fornece tem relevância na defesa contra patógenos”, relata Giacometti. Isso significa que a diferença entre os períodos mais quentes e mais frios do dia pode favorecer a capacidade dos animais de regular a temperatura por meio do comportamento.
Em ambientes com maior variação térmica, os animais encontram diferentes temperaturas em áreas próximas e podem se deslocar conforme a necessidade do organismo. “Se todo dia está 25°C, o animal não vai conseguir chegar a 30°C, porque ele precisa estar naquela manchinha de sol, a 30°C, para elevar a sua temperatura corporal”, explica o autor.
Nem todos respondem da mesma forma
A pesquisa encontrou uma maior evidência de febre comportamental em anfíbios do que em répteis. “Isso contrariou nossa expectativa inicial, uma vez que os répteis são vistos como modelos de termorregulação comportamental”, relata Giacometti. Os dados mostraram que não é possível prever a resposta de um grupo inteiro apenas com base em suas características gerais. A fisiologia de cada espécie, as condições ambientais e as possibilidades de regulação térmica precisam ser consideradas.
O comportamento dos animais também varia de acordo com o agente infeccioso. Os pesquisadores observaram aumentos mais expressivos da temperatura corporal em animais expostos a bactérias do que naqueles infectados por vírus ou fungos. Giacometti destaca que ainda é preciso investigar se essa diferença está relacionada às características de cada patógeno ou à própria produção científica, já que a maior parte dos experimentos disponíveis utiliza bactérias.

Os répteis apresentam tolerância a ambientes quentes e secos, porém, alguns já vivem próximos do limite térmico que suportam e podem buscar locais mais frios em vez de intensificar a febre – Foto: Cedida pelos pesquisadores
A quantidade de animais analisados pela pesquisa representa uma parcela pequena da diversidade de anfíbios e répteis existentes no planeta. “Uma coisa é o que o modelo estatístico está te dizendo e outra coisa é o que o animal vai fazer, de fato, na natureza”, relata. O pesquisador destaca que os resultados não devem ser generalizados para todas as espécies.
O trabalho foi desenvolvido em colaboração com o professor Carlos Navas, do Departamento de Fisiologia do IB, a pós-doutoranda Laura Cabanzo-Olarte e o pesquisador Leonardo Servino, ambos vinculados ao IB, além da professora Kênia Bícego, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, em Jaboticabal. A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O artigo When cold-bloods heat up: meta-analytical evidence that climatic variability mediates behavioural fever in amphibians and reptiles foi publicado na revista Proceedings of the Royal Society B.
Mais informações: dgiacometti@usp.br, com Danilo Giacometti.