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Mudando a maneira de pensar sobre a percepção calorosa
A descoberta, publicada recentemente na revista Neuron , desafia o modelo predominante de percepa§a£o não dolorosa da temperatura e fornece pistas sobre como não apenas os ratos, mas também os humanos, detectam conscientemente o calor.
Por Max Delbrück - 24/03/2020


Imagem infravermelha (tanãrmica): impressaµes digitais quentes deixadas nasuperfÍcie
da mesa depois de toca¡-la com a ma£o. Crédito: Lewin / Poulet Lab, MDC

Uma equipe de neurocientistas do Centro Max Delbrueck de Medicina Molecular da Associação Helmholtz (MDC) fez uma descoberta inesperada sobre a maneira como os ratos percebem as sensações de aquecimento. a‰ contra-intuitivo: os receptores de resfriamento na pele são cra­ticos para a percepção do calor.

A descoberta, publicada recentemente na revista Neuron , desafia o modelo predominante de percepção não dolorosa da temperatura e fornece pistas sobre como não apenas os ratos, mas também os humanos, detectam conscientemente o calor.

"Quando pegamos uma xa­cara de cafécom as ma£os, e podemos sentir rapidamente seu calor, isso estãoacontecendo porque não apenas os neura´nios ativados pelo aquecimento estãoem jogo, mas também os neura´nios inativados por ela", disse Ricardo Paricio-Montesinos, co-autor. primeiro autor do artigo e neurocientista do MDC. "Sem o segundo tipo, nossos dados de ratos sugerem que precisara­amos de muito mais tempo para sentir isso ou talvez nem senta­ssemos o aquecimento".

Uma sensação misteriosa

Desde o final do século XIX, os neurocientistas teorizaram que caminhos dedicados ou "linhas rotuladas" transmitem apenas sensações quentes ou frias da pele para o cérebro. Embora tenha havido alguma evidência disso em humanos e primatas, tem sido difa­cil provar.

O professor Gary Lewin, que dirige o Laborata³rio de Fisiologia Molecular da Sensação Soma¡tica do MDC, juntou-se ao Dr. James Poulet, que dirige o Laborata³rio de Circuitos Neurais e Comportamento do MDC para estudar a percepção de temperatura não dolorosa em ratos. "A temperatura ainda éuma sensação misteriosa", disse Poulet. "a‰ muito pouco estudado, especialmente se comparado a  visão, toque ou audição".

A capacidade do mouse de percebermudanças de temperatura não dolorosas não foi investigada de perto. Atravanãs de uma sanãrie de estudos comportamentais, eles descobriram que os ratos detectammudanças de temperatura com o mesmo altonívelde acuidade dos humanos - lambendo um dispensador de águaem resposta ao 1º C de aquecimento e 0,5º C de resfriamento.

"Pela primeira vez, pudemos mostrar que os ratos basicamente sentem calor e resfriamento exatamente da mesma forma que nós", disse Lewin. "Eles tem exatamente os mesmos limites que os humanos".

Ratos com comida quente. Crédito: Lewin / Poulet Lab, MDC

Uma surpresa maior

Quando as vias neurais que se acredita estarem associadas ao aquecimento eram bloqueadas, os ratos lambiam o dispensador em resposta a 2º C de aquecimento, revelando que a percepção era diminua­da, mas não desapareceu. Isso indica que essas vias são aºteis, mas não essenciais para perceber o calor. Por outro lado, quando o caminho associado ao resfriamento foi bloqueado com a desativação do gene trmp8, os ratos não conseguiram perceber o calor.
 
"Ficamos realmente surpresos", disse o Dr. Frederick Schwaller, co-primeiro autor e pa³s-doutorado no Laborata³rio Lewin. "Inicialmente, tentamos treinar esses ratos para detectar o aquecimento da pele como controle, mas deparamos com a descoberta mais importante do jornal por acaso".

Apa³s uma inspeção mais detalhada das células nervosas na pata dianteira, os pesquisadores observaram duas coisas. Primeiro, nenhuma canãlula nervosa se dedicava exclusivamente ao aquecimento. Em vez disso, eles descobriram que a maioria das células nervosas disparava um sinal elanãtrico em resposta a  temperatura e pressão brusca.

"Isso éintrigante", disse Lewin, "como o sistema nervoso descobre se a atividade do neura´nio écausada por força quente, fria ou meca¢nica?"

A resposta estãona segunda coisa que a equipe encontrou: uma população de células nervosas que estãosempre disparando a  temperatura da linha de base da pata dianteira de 27º C. Amedida que a temperatura aumenta, essas células diminuem sua atividade. Essa diminuição parece ser a chave.

Comparado, não rotulado

A equipe teoriza que o mouse écapaz de detectar calor porque uma população de neura´nios aumenta a atividade, enquanto os neura´nios frios diminuem a atividade. Dois sinais indo em direções opostas gera um padrãoque transmite "calor" ao cérebro. Isso édiferente do resfriamento, no qual todos os neura´nios aumentam a atividade, de modo que o padrãoestãoindo na mesma direção.

"O uso de duas populações torna muito mais fa¡cil para o mouse dizer inequivocamente que estãoaquecendo, estãoesfriando", disse Lewin.

Quando a via de resfriamento foi bloqueada, as células frias ficaram em silaªncio e nenhuma atividade foi transmitida ao cérebro. Sem isso contribuir para um padrãode sinal oposto, os ratos não perceberam o calor, concluem os pesquisadores.

Os pesquisadores antecipam que as sensações do mouse refletem o que estãoacontecendo nos seres humanos, porque temos os mesmos receptores e nervos que transmitem informações da pele para a medula espinhal e o cérebro. Mais estudos sera£o necessa¡rios para confirmar que os humanos exibem o mesmo padrãoe para determinar onde e como os sinais são comparados no cérebro ou medula espinhal.

 

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