Opinião

Museu algorítmico: se suas paredes falassem…
Do gabinete de curiosidades ao museu moderno, do arquivo digital às infraestruturas algorítmicas contemporâneas, cada período reorganizou o visível e instituiu modos específicos de selecionar, exibir e narrar o mundo.
Por Charlley Luz - 17/01/2026




A história das instituições de memória sempre foi, no fundo, a história das tecnologias que tornam possível lembrar. Do gabinete de curiosidades ao museu moderno, do arquivo digital às infraestruturas algorítmicas contemporâneas, cada período reorganizou o visível e instituiu modos específicos de selecionar, exibir e narrar o mundo.

Porém o Zeitgeist inaugura uma ruptura inédita, pois, pela primeira vez, a memória cultural não é apenas mediada por tecnologias, ela é produzida por cálculo. Este ensaio procura compreender essa passagem histórica e propor o design da memória como prática crítica necessária para enfrentar a opacidade do novo regime curatorial.

A memória digital tornou-se um museu tão vasto que já não cabe em nenhuma instituição humana. É um museu sem paredes, sem acervos estabilizados e sem a lentidão curatorial que outrora garantia alguma linearidade ao tempo. Se a modernidade transformou antigas câmaras de maravilhas coletadas aleatoriamente em museus públicos destinados a organizar o visível, a cultura digital elevou essa operação a uma escala industrial. O que antes era gabinete de curiosidades, depois coleção moderna, agora se converteu em uma imensa instituição automatizada: o museu algorítmico.

Diferentemente das instituições tradicionais, regidas por critérios explícitos de seleção e documentação, o museu algorítmico opera por cálculo opaco, reorganizando o passado e o presente segundo lógicas de predição, otimização e eficiência. Hoje ele pode ser reconhecido nos Vastos Modelos de Linguagem (LLM em inglês para Large Language Model). Aqui, o visitante não escolhe a sala que deseja atravessar, antes disso, é o museu que escolhe o visitante e também decide o que ele deve ver, com que intensidade e em que ordem. Não há planta baixa, guia ou plaquinhas na parede e nem mesmo rotas sugeridas, há apenas fluxos dinâmicos de visibilidade.

Nesse contexto, a Inteligência Artificial Generativa (IAG) emerge como o novo curador automatizado desse grande museu algorítmico. Um curador que não apenas decide quais obras expor nem a forma final do conteúdo, mas também desfaz os catálogos de origem, apagando metadados, distorcendo proveniências e reescrevendo as próprias obras para que elas se pareçam com aquilo que a cultura já aprendeu a desejar.

Como apontaria Gabriel Menotti, sua análise sobre IA generativa como curadoria algorítmica encontra-se em The model is the museum. Para Menotti, as plataformas se tornam instituições culturais por direito próprio, moldando repertórios, estabilizando tendências, distribuindo autoridade estética e, inevitavelmente, produzindo exclusões.

A operação não é neutra. Giselle Beiguelman, em Memória da amnésia, lembra que toda imagem digital é uma política da imagem e cada gesto técnico embute um regime de vigilância, um modo de ver e uma forma de esquecimento. O museu algorítmico, portanto, não apenas exibe: ele governa. Ele distribui luz e sombra. Ele determina quais narrativas se consolidam e quais retornam ao silêncio. Sua arquitetura invisível produz ruínas permanentes — ruínas que não decorrem do tempo, mas da atualização constante.

Eugênio Bucci, em A superindústria do imaginário, observa que vivemos sob um sistema que privatiza o olhar e transforma a circulação simbólica em mercadoria. No museu algorítmico, essa privatização é radicalizada: o acervo é permanentemente remodelado, como se o museu estivesse em reforma contínua. As obras não permanecem, elas são recombinadas, suavizadas, ajustadas à média. A imagem singular perde sua singularidade.

A “imagem média”, conceito desenvolvido por Hito Steyerl, em The Wretched of the Screen, torna-se aqui princípio organizador. Não importa o que se produz; importa que se produza aquilo que o cálculo considera mais provável, mais consumível, mais eficiente. A IAG transforma tudo em tendência. Ela comprime o diverso no previsível. Opera como uma máquina de normatividade estética.

Mas o problema não está apenas na obra final. Está no apagamento de seus rastros, de seus processos, de sua genealogia técnica. Vilém Flusser, em Filosofia da Caixa Preta, já advertia que os aparelhos programáveis produzem imagens desconectadas de suas condições de produção. Yuk Hui, em The Question Concerning Technology in China, complementa ao afirmar que cada tecnologia incorpora uma cosmologia própria, uma lógica de mundo. No museu algorítmico, essa cosmologia é calculada, otimizada e permanentemente atualizada, anulando historicidades e suprimindo tensões.

É aqui que a pesquisa que desenvolvo na Escola de Comunicações e Artes da USP se solidifica como uma possibilidade de existir, pois um design da memória pode ser uma prática que busca produzir justamente aquilo que o museu algorítmico tenta abolir: paradados, pistas, rastros, documentação ampliada. Paradados são inventários de operação, registros do processo criativo, das decisões automatizadas, das recombinações ocultas. São tentativas de devolver ao público a capacidade de compreender não apenas o que a imagem mostra, mas o que ela oculta.

Ensinar o público a escrever prompts torna-se, nesse sentido, um gesto de alfabetização crítica e componente direto do design da memória. O prompt não é mero comando; é negociação com o curador automático. Ele força o museu algorítmico a exibir aquilo que tenderia a omitir. Obriga-o a apresentar versões alternativas, narrativas sub-representadas, memórias que escapariam ao regime da média. O prompt é resistência. Ele tensiona o automatismo, exige especificidade, recupera singularidade.

O museu algorítmico, assim, não é apenas metáfora. É condição. É o novo ambiente cultural que administra nossa memória coletiva. Ele organiza o visível tal como instituições modernas organizaram o patrimônio: selecionando, exibindo, omitindo. Mas faz tudo isso de maneira silenciosa, opaca e acelerada.


Diante dele, o design da memória não pretende restaurar a estabilidade perdida. Busca abrir fendas, tornar visíveis operações invisíveis, reinscrever proveniências apagadas, reconstruir genealogias fragmentadas. Se a memória digital é um museu em mutação constante, cabe ao design da memória garantir que sua transformação não seja sinônimo de esquecimento.

O museu algorítmico jamais cessará de reorganizar o mundo. Mas podemos, ao menos, ensinar suas paredes a falar.


Charlley Luz
Doutorando da Escola de Comunicações e Artes da USP

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional do maisconhecer.com

 

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