Por interesse somente político, por canais públicos diferentes (governo federal, do estado do Rio e da prefeitura de Niterói), financiou-se uma agremiação para fazer um enredo de exaltação ao PT e ao Lula, o que nada tem com o Carnaval...

Domínio público
O Carnaval de 2026 talvez tenha atingido o apogeu da degradação das tradições estéticas brasileiras, dentre as quais as folias carnavalescas eram uma das mais abrangentes, envolvendo de maneiras distintas a população. Percebe-se que começa a se espalhar certa aversão ao período, com muita gente preferindo fugir para descansos, ou ficar em casa, do que brincar como folião!
A Antropologia tem livros clássicos, como “Carnavais, Malandros e Heróis”, de Roberto DaMatta, no qual o tema é analisado como um momento de catarse (extravasamento coletivo das frustrações e sofrimentos do cotidiano, por meio da quebra dos controles comportamentais, liberando-se o álcool, as drogas e o sexo durante os cinco dias), seguido depois pelo retorno da rotina enfadonha da vida por mais um ano! Como um padrão, a maior parte das sociedades conhecidas têm festas semelhantes.
Mas, o que acontece com o Brasil que sequer consegue preservar uma tradição de natureza prazerosa, barata, que abrange todas as camadas e que remonta ao passado secular, do Entrudo, do Carnaval de Veneza, das Dionisíacas ou Bacantes?! A palavra-chave é o verbo “preservar”! Em algum momento o significado profundo da palavra foi corrompido, ou por ignorância de conhecimentos estéticos (literatura, teatro, cinema, música, arquitetura, pintura) ou por pura intenção, subordinada à manipulação política!
Por ignorância, os brasileiros foram aceitando que artistas mequetrefes (que não são artistas, são “entretenedores”, pois artista é algo raro) se metessem no Carnaval, requentando ritmos que eles tocam o ano todo, retirando a originalidade exclusiva dos gêneros carnavalescos, como as marchas, frevos e sambas! Chamam isso de “releituras”, quando de fato é pouca densidade intelectual e criativa! Assim, o período de carnaval se tornou a repetição do que acontece no decorrer de todo o ano, com os mesmos shows e cantores, e agora também com os que nada cantam mas fazem barulho ensurdecedor, os DJs!
Por ignorância e interesses políticos, os prefeitos, que em regra, por luzes de conhecimentos estéticos se equiparam a uma lamparina, se metem a organizar eventos carnavalescos (quando deveriam apenas fornecer segurança e limpeza pública aos brincantes), pois intuem a oportunidade de parecerem populares junto à massa de possíveis eleitores, fornecendo-lhes doses cavalares de espetáculos sofríveis, promovendo os tais shows e desfiles toscos de “escolas de samba” cujos membros só se reúnem nesse período e, a maioria, tem grande dificuldade com os “bancos escolares”!
É um tanto irônico, ou trágico, as prefeituras embalarem o mau gosto numa “Programação de Carnaval”, distribuída em 04 ou 05 dias, afinal, o extravasamento das frustrações e neuroses, característica marcante do evento, deve ser espontâneo, vir de dentro, tal qual um bêbado, que depois de uns copos, derruba as travas do inconsciente e do autocontrole e se mostra como de fato ele é! Ou seja, o poder público deveria dar melhor destino ao dinheiro dos pagadores de impostos e deixar as pessoas viverem suas fantasias de diversão, com afrouxamento das regras disciplinares, de maneira livre, com espontaneidade! Não sendo assim o Carnaval perde a natureza dionisíaca ou bacante e se torna uma solenidade pública, como aconteceu no Rio de Janeiro!
Por interesse somente político, por canais públicos diferentes (governo federal, do estado do Rio e da prefeitura de Niterói), financiou-se uma agremiação para fazer um enredo de exaltação ao PT e ao Lula, o que nada tem com o Carnaval e sua essência satírica e humorística! O resultado foi um espetáculo vergonhoso de “puxa-saquismo” e mau gosto estético!

Domínio público
Porém, pior do que a degradação do sentido original da festa carnavalesca foi a procura de corromper o significado fundamental da palavra “conservador”, com o objetivo de atacar a visão de mundo conservadora, como algo antiquado, atrasado ou fora de moda! A tentativa revela a ignorância de conhecimentos teóricos e estéticos, além da má-fé intencional dos perpetradores da ação!
O desenvolvimento do enredo mostrou fantasias de latas de conserva com famílias e bíblias dentro, dando a entender, segundo suas mentes depravadas, que família e religião são coisas velhas e ultrapassadas, identificadas com a direita conservadora. Ora, é do cerne do pensamento “conservador” a ação consequente de “preservar”, é seu desdobramento lógico! Mas, preservar o quê?! Aquilo o que deu certo ao longo das gerações de humanos, aperfeiçoando aquilo que pode melhorar, portanto estando aberto às inovações que não descaracterizam o que deve ser permanente e deixando de lado o que deu errado!
O que existe em comum entre o gelo, o sal e as latas de conserva?! A qualidade de “preservar” os alimentos que eles têm, na forma do gelo e do sal, fundamental para a evolução humana ancestral; até a atualidade, na forma tecnológica de geladeiras, freezers e latas de conserva, geniais invenções que garantem a sobrevivência e a qualidade de vida de bilhões de pessoas! O que a visão de mundo conservadora enaltece é a preservação das qualidades positivas das diversas manifestações da vida em geral como a família, a religião e a estética, cada uma delas com funções muito claras, evidentemente com problemas aqui e ali ao longo da tempo, mas que devem ser defendidas contra a destruição tentada por indivíduos psiquicamente doentes, como ditadores egocêntricos do tipo Hitler, Stálin, Mao ou Fidel, e aqui no Brasil um pretenso chamado Lula!
Então, um alerta! Para evitar o que aconteceu com a degradação estética do Carnaval observem dois casos de “preservação” da tradição com absoluto sucesso! Em Parnaíba, existem dois restaurantes com especialidades diferentes, um em caranguejo (o Disk Caranguejo) e o outro em tilápia (o Charles Restaurante), ambos excelentes nos pratos principais, fazendo a mágica de transformar iguarias simples e tradicionais (comuns às classes populares) em pratos bem apresentados dentro dos critérios da boa culinária! Isto é, souberam manter a tradição do sabor evoluindo com as inovações dos novos tempos, com esmero no preparo, nas embalagens e na apresentação!
De uma modo explicativo simples, eis a visão conservadora! A propósito, para tristeza, muitos parnaibanos lamentam a decadência do rico patrimônio arquitetônico da cidade! Se a visão conservadora predominasse… Lembro que eu restaurei uma antiga geladeira “Clímax”, dos meus avós, abandonada em um dos casarões (não existem mais, destruídos pela ignorância estética!) da linhagem materna, ficou linda, funcionando como se saída da loja… fizeram uma intriga familiar e me acusaram de apropriação indébita! Não sei o que foi feito da geladeira, deve ter virado sucata, perdendo-se uma memória viva e funcionando do passado!
Geraldo Filho
Professor Doutor, Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar)
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