Brasil diante do colapso humano: protagonismo possível em uma era de desumanização
E é aqui que o Brasil emerge como um ator paradoxal — fragilizado internamente, mas potencialmente central no redesenho global da dignidade.

Midia Beluzzo - Imagem: Reprodução
Em um mundo marcado por crises simultâneas — climáticas, migratórias, econômicas e éticas — o debate sobre a “erosão do valor do homem” deixou de ser filosófico para se tornar urgente. Relatórios recentes de organismos como a Organização das Nações Unidas e a Organização Internacional para as Migrações apontam que mais de 110 milhões de pessoas vivem hoje em deslocamento forçado, enquanto cerca de 700 milhões enfrentam fome extrema. Nesse cenário, a questão que se impõe não é apenas “quem sofre”, mas “quem lidera” a reconstrução do humano. E é aqui que o Brasil emerge como um ator paradoxal — fragilizado internamente, mas potencialmente central no redesenho global da dignidade.
A crise humanitária contemporânea não se resume à escassez material. Trata-se de uma crise de sentido. A filósofa Hannah Arendt já alertava que a perda de direitos fundamentais começa quando o indivíduo deixa de ser reconhecido como pertencente à comunidade humana. Hoje, esse processo se manifesta na naturalização da desigualdade, na banalização da violência e na transformação de vidas em estatísticas.
O Brasil, por sua vez, ocupa uma posição singular. Com dimensões continentais, diversidade cultural profunda e uma das maiores economias do Sul Global, o país carrega contradições intensas: é simultaneamente potência ambiental e palco de devastação; referência em políticas sociais e exemplo de desigualdade estrutural persistente.
Historicamente, iniciativas como o Bolsa Família — amplamente estudado por instituições como a Universidade de Oxford — demonstraram a capacidade brasileira de inovar em políticas de redução da pobreza. Entre 2003 e 2014, o país retirou mais de 30 milhões de pessoas da extrema pobreza, segundo dados do Banco Mundial. Esse período consolidou uma percepção internacional de que o Brasil poderia oferecer soluções replicáveis para países em desenvolvimento.
No entanto, a última década expôs fragilidades profundas. O aumento da insegurança alimentar, que voltou a atingir mais de 30 milhões de brasileiros, e o crescimento das desigualdades regionais revelam que o protagonismo brasileiro não é um dado, mas uma disputa constante.
Ainda assim, é justamente nessa tensão que reside o potencial do país.
O sociólogo Boaventura de Sousa Santos argumenta que o Sul Global pode oferecer alternativas ao modelo hegemônico ocidental, especialmente ao valorizar formas coletivas de organização social. No Brasil, essa perspectiva ganha corpo em experiências locais: comunidades indígenas que preservam modos sustentáveis de vida, redes de solidariedade nas periferias urbanas e iniciativas de economia solidária que desafiam a lógica puramente mercantil.
Essas práticas apontam para um conceito ampliado de humanidade — não centrado apenas no indivíduo, mas nas relações. Em contraste com o modelo dominante, que frequentemente reduz o ser humano à sua capacidade produtiva, essas experiências recolocam a dignidade no centro.
O protagonismo brasileiro, portanto, não depende apenas de indicadores macroeconômicos ou de influência geopolítica. Ele se constrói na capacidade de articular três dimensões fundamentais:
1. Liderança ambiental com impacto humano
O Brasil abriga a maior parte da Floresta Amazônica, essencial para o equilíbrio climático global. A preservação da Amazônia não é apenas uma agenda ambiental, mas uma questão humanitária. Eventos extremos — secas, enchentes, ondas de calor — já afetam milhões de pessoas, sobretudo as mais vulneráveis.
2. Inovação social em larga escala
A experiência acumulada em políticas públicas de combate à pobreza e inclusão social coloca o Brasil em posição privilegiada para liderar uma nova geração de programas voltados à dignidade humana, especialmente em um contexto de automação e precarização do trabalho.
3. Diplomacia do Sul Global
Em fóruns internacionais, o país tem histórico de atuação em coalizões como os BRICS e em negociações multilaterais. Esse posicionamento pode ser reconfigurado para defender uma agenda centrada na redução das desigualdades globais e na proteção dos direitos humanos.
Mas há um obstáculo central: a própria crise interna de desumanização. A violência urbana, o racismo estrutural e a polarização política corroem a capacidade do país de se apresentar como exemplo. Como observou o filósofo Achille Mbembe, vivemos em uma era em que a gestão da vida e da morte — a “necropolítica” — define quem importa e quem pode ser descartado.
No Brasil, essa lógica se manifesta de forma contundente. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que a maioria das vítimas de violência letal são jovens negros e periféricos. A crise humanitária global, portanto, não é algo distante: ela se reproduz no cotidiano nacional.
Diante desse quadro, o verdadeiro protagonismo brasileiro não pode ser entendido como liderança tradicional. Trata-se, antes, de um protagonismo ético: a capacidade de enfrentar suas próprias contradições e, a partir delas, propor caminhos.
Isso implica reconhecer que a crise da humanidade não é apenas material, mas simbólica. O economista Amartya Sen já defendia que o desenvolvimento deve ser medido pela expansão das liberdades humanas, e não apenas pelo crescimento econômico. O Brasil, ao integrar políticas sociais, diversidade cultural e responsabilidade ambiental, tem condições de materializar essa visão.
Em um mundo em colapso, onde o valor do homem é constantemente relativizado, o protagonismo não se impõe pela força, mas pela capacidade de reimaginar o humano. O Brasil, com todas as suas fragilidades, talvez seja um dos poucos países onde essa reinvenção ainda é possível — não apesar de suas contradições, mas justamente por causa delas.
Laercio Damasceno
Jornalista e Diretor Responsável do Site MaisConhecer.com
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