Podemos dizer, sem sombra de dúvida, que Habermas era um dos últimos grandes filósofos vivos do Ocidente, daquela tradição que vem desde Sócrates, passando por Kant, Hegel e tantos outros que produziram obras compreensivas...

Jürgen Habermas
No dia 14 de março de 2026, faleceu, aos 96 anos, em Starnberg, na Alemanha, o filósofo, sociólogo e intelectual público Jürgen Habermas. Sua obra influenciou e influencia gerações de pesquisadores de diversas universidades pelo mundo, com grupos e centros de pesquisa em diversas áreas dedicados ao estudo de suas teorias.
A USP não é diferente, e centros ligados a ela, como o Cebrap, foram alguns dos responsáveis por introduzir o pensamento de Habermas no Brasil. Para o campo da comunicação, é leitura indispensável, e na Escola de Comunicações e Artes, onde leciono, o autor inspirou as pesquisas de importantes teóricos, como Mauro Wilton de Sousa e Ciro Marcondes Filho.
Podemos dizer, sem sombra de dúvida, que Habermas era um dos últimos grandes filósofos vivos do Ocidente, daquela tradição que vem desde Sócrates, passando por Kant, Hegel e tantos outros que produziram obras compreensivas, da crítica da razão à crítica estética, passando pela crítica moral e a teoria social.
Sua importância para a filosofia e o debate público é tremenda. Enquanto contribuiu para criticar o positivismo e o capitalismo em todas as suas implicações, foi responsável por manter viva a chama de uma razão possível, da crítica ao funcionalismo ao que denominava contextualismos pós-modernos, até o cenário atual de crise epistêmica e regressão política. E fez isso sempre disposto a rever suas teorias a partir de debates com interlocutores, quaisquer que estivessem dispostos a um diálogo franco e genuíno.
Pude testemunhar pessoalmente esse proceder intelectual e interpessoal de Habermas, quando, ao participar de uma Masterclass com ele no Instituto Max Planck, em Heidelberg, em 2013, foi não só receptivo a um comentário crítico que fiz sobre o lugar do acesso à informação, da transparência e da comunicação dos direitos em sua teoria do direito, mas também acolhedor ao puxar assunto, num dos intervalos do curso, com um mero estudante de doutorado brasileiro que aparentava estar deslocado naquele contexto.
No debate público alemão e internacional, Habermas foi responsável pela recuperação e a manutenção de culturas políticas democráticas na sociedades ocidentais, seguindo os passos de Horkheimer e Adorno desde o fim da Segunda Grande Guerra. Posicionou-se coerente e corajosamente sobre questões prementes do nosso tempo, como a tecnocracia e os obscurantismos resultantes do neoliberalismo e suas crises, reações militares internacionais a genocídios, como em Kosovo, no final dos anos de 1990, riscos das pesquisas sobre clonagem, a União Europeia e a retomada da religião nas esferas públicas democráticas.
Imediatamente após seu falecimento, jornalistas e intelectuais do mundo todo têm relembrado sua obra, sua vida e suas contribuições para a resiliência das democracias ocidentais. Mas se levarmos a sério aspectos menos enfatizados de seu pensamento, a morte de Habermas se transforma em algo completamente diferente de um simples ponto final de uma obra colossal.
Como pupilo direto de Adorno e harmonizador sem igual dos pensamentos de Hegel e Kant, Habermas formulou conceitos como entendimento, intersubjetividade, razão e ação comunicativas, esfera pública e deliberação, não somente enquanto expressões positivas e justificáveis de um movimento em direção ao esclarecimento iluminista, mas sobretudo enquanto potencial normativo implícito que se revela, pragmática e negativamente, por trás das violências e comunicações sistematicamente distorcidas de nossas sociedades.
O lugar da reflexão negativa no pensamento de Habermas não é trivial, mas sem entendê-lo, acabamos incorrendo nas frágeis e conhecidas críticas a um pretenso idealismo ingênuo, ou à “difícil aplicabilidade” de seu pensamento em países do Sul Global, e perdendo de vista as críticas apropriadas às parcialidades cognitivas, éticas e étnicas de seu pensamento.
Para Habermas, como em Hegel e também em Kant, negar ou violar o potencial de consenso implícito na linguagem e na comunicação é, ao mesmo tempo, afirmar seu potencial de realização, e revelar as forças que a bloqueiam. Por isso, pensar a morte de Habermas como o ponto final de uma grande obra é incorrer no que ele chamaria de “contradição performativa”, isto é, quando nossa proposição contradiz nossa própria ação.
Se, desse ponto de vista, podemos dizer que a morte de ninguém é absolutamente um ponto final, para alguém como Habermas, sua morte deve ser vista também como seu último discurso, e talvez o principal. Um discurso luminoso, um farol capaz de nos guiar num mundo que, ao insistir em negar radicalmente qualquer forma de racionalidade e entendimento possível, impõe a nós uma responsabilidade que só está à altura de seu próprio desafio: revelar, dia após dia, aquilo que a violência nunca será capaz de destruir completamente: nossa inclinação inevitável para a emancipação.
Vitor Blotta
Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP
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