Opinião

Por uma ciência baseada em evidências na gestão da fadiga
Vivemos numa era de hiperconectividade e exigências mentais constantes, onde há frágeis limites entre o tempo laboral e o tempo de recuperação. A escala 6×1, acoplada às demandas adicionais da vida cotidiana...
Por André Frazão Helene, Tulio Eduardo Rodrigues e Frida Marina Fischer - 05/04/2026


Imagem: Reprodução


O atual debate sobre jornadas de trabalho, visando à modificação da escala 6×1, vai além da esfera das relações trabalhistas, para se tornar uma questão central de saúde pública e da neurofisiologia. A mobilização em torno da redução da jornada de trabalho tem como principal objetivo prevenir esgotamento físico e psíquico, e melhorar a qualidade de vida.

Vivemos numa era de hiperconectividade e exigências mentais constantes, onde há frágeis limites entre o tempo laboral e o tempo de recuperação. A escala 6×1, acoplada às demandas adicionais da vida cotidiana (como o tempo despendido em transporte, cuidados domésticos, saúde, educação, lazer, etc.), ao oferecer um intervalo de descanso insuficiente para a restauração completa do organismo, cria um estado de fadiga residual crônica. Que inclui a redução de horas de sono e de sua qualidade.

Tal cenário se traduz em um aumento nos índices de transtornos mentais, como a exaustão profissional (burnout), e em uma degradação pessoal que invade esferas do tecido familiar e comunitário. Economicamente, o custo é igualmente alto. O presenteísmo (estar presente no trabalho mesmo se sentindo mal ou estando doente e sem condições de trabalhar adequadamente) e o absenteísmo por doenças relacionadas ao trabalho e a rotatividade de pessoal oneram o sistema produtivo de forma visível e invisível.

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho fundamenta-se na cronobiologia e na neurofisiologia. As alterações do ciclo vigília-sono, somadas aos débitos de sono originados e/ou agravados pelas jornadas de trabalho (diurnas, não diurnas e/ou irregulares) frequentemente causam sonolência excessiva durante o trabalho e maiores riscos de incidentes e acidentes de trabalho. A estes acrescenta-se a fadiga cognitiva, que não é meramente um “cansaço”. É o declínio mensurável do controle executivo, da prontidão e flexibilidade do cérebro.

O córtex pré-frontal, que tem papel fundamental para a nossa capacidade de decisões, paga um preço químico alto pelos esforços em manter a atenção e tomar decisões em cenários de extensas jornadas de trabalho. Evidências mostram que o trabalho mental prolongado gera um acúmulo de resíduos metabólicos, como o de glutamato, que, por sua vez, leva a alterações dos padrões ideais de funcionamento cognitivo. Sem oportunidades adequadas de sono para realizar sua drenagem, o cérebro submerge no que se chama de “névoa cognitiva”. Nesse estado, a criatividade, a capacidade de solução de problemas e tomada de decisões diminui, e a chance de erros, mesmo em tarefas simples, se torna quase que uma inevitabilidade fisiológica.

Nesse cenário, a aviação civil brasileira surge como um laboratório crítico para essa discussão, como pode ser visto nos resultados obtidos pelo esforço acadêmico do Projeto Fadigômetro. Desenvolvido por uma coalizão entre associações de classe (Abrapac, Asagol e ATL) e pesquisadores (USP), e com o apoio da Comissão Nacional de Fadiga Humana, do Comitê Nacional de Prevenção de Acidentes Aeronáuticos e do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, o projeto produziu um conjunto de evidências que, somadas às já existentes na literatura, permitem debater a fadiga e suas consequências de forma quantitativa. Ao analisar escalas reais de trabalho de aeronautas usando modelos biomatemáticos e instrumentos validados, o Fadigômetro transformou a subjetividade do cansaço em dados parametrizados.

Em um conjunto de artigos publicados pelo grupo é possível encontrar um diagnóstico interessante sobre o risco sistêmico da fadiga. No artigo mais recente, publicado na Scientific Reports, os pesquisadores demonstram como as métricas de carga de trabalho estão diretamente correlacionadas com indicadores quantitativos críticos de sonolência e fadiga. Mais ainda, o estudo evidencia que certas configurações de jornada na aviação regular brasileira levam os profissionais a estados de alerta degradados por períodos de privação severa de sono, o que pode comprometer, inclusive, a segurança do transporte aéreo.

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Complementando essa análise, o grupo também explorou, em 2022, a modelagem biomatemática para prever a fadiga em operações aéreas, reforçando que o gerenciamento de risco não pode ser feito apenas com base no cumprimento de limites legais estáticos, mas que deve considerar o acúmulo dinâmico de cansaço. Esses aspectos se tornam mais significativos se forem considerados os aspectos descritos em outro trabalho do grupo. Nesse artigo o grupo lança luz sobre a sazonalidade dos indicadores de fadiga, mostrando que o risco não é uniforme e responde a variações na demanda e na organização das escalas ao longo do ano. Juntos, esses trabalhos observam que a fadiga é um parâmetro mensurável e que a sua negligência pode ter consequências diretas na integridade do sistema.

É dentro desse panorama que fica evidente um contrassenso absoluto. No mesmo momento em que a sociedade discute a redução da escala 6×1 e a ciência valida os perigos da exaustão, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) considera flexibilizar o Regulamento Brasileiro de Aviação Civil (RBAC) 117. A proposta de alterar padrões de gerenciamento de fadiga para permitir jornadas mais densas ou descansos menos eficientes na aviação é um movimento que ignora o capital de conhecimento construído não só pelo projeto Fadigômetro, mas também por toda uma série de conhecimentos bem-estabelecidos.

É central repensarmos as repercussões da fadiga no bem-estar humano e na segurança dos processos industriais e de serviços. Não se pode gerir sistemas complexos ignorando o fator humano. É impressionante que em um sistema baseado em altíssima tecnologia, como a aviação, se possa esquecer a importância humana e todo o conhecimento estabelecido para sua gestão.

Se desejarmos caminhar na direção de um padrão inteligente de gestão de processos, é fundamental a interação sinérgica entre todos os entes envolvidos. Universidades fornecem o rigor metodológico; empresas trazem a viabilidade operacional; associações de classe garantem o relato fiel e identificação de possíveis gargalos; órgãos reguladores, como a Anac, devem atuar como guardiões da segurança baseada em evidências; e os agentes legisladores precisam traduzir esse conhecimento em leis que protejam o trabalhador e o cidadão. O objetivo não deve ser encontrar um único padrão de análise simplista, mas sim a melhor concatenação de dados e práticas que garanta que a produtividade nunca seja buscada às custas da degradação biológica e qualidade de vida. A redução da jornada e a regulação estrita da fadiga não são entraves ao desenvolvimento; são, na verdade, os pilares de uma sociedade tecnologicamente avançada que compreendeu que o progresso real só existe quando se respeita a vida e a ciência que a sustenta.


André Frazão Helene
Professor do Instituto de Biociências da USP

Tulio Eduardo Rodrigues
Pós-doutor pelo Insitituto de Física da USP 

Frida Marina Fischer
Professora da Faculdade de Saúde Pública da USP

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional do maisconhecer.com 

 

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