Opinião

O tempo que se diz: entre Santo Agostinho e Benveniste
Agostinho rompe com a ideia de tempo como algo puramente externo, mensurável com um relógio. Para ele, o tempo se dá na interioridade: o passado vive na memória, o presente na atenção, o futuro na expectativa.
Por Marcelo Módolo - 10/05/2026


Imagem: Reprodução


Poucos pensadores influenciaram tão decisivamente a reflexão sobre o tempo quanto Aurélio Agostinho de Hipona (Aurelius Augustinus Hipponensis, 354-430). Nascido no norte da África, professor de retórica antes de sua conversão, Agostinho é autor das Confissões, obra em que a filosofia ganha um tom inesperadamente íntimo. É ali que ele formula uma pergunta que atravessa séculos: “O que é, pois, o tempo?”.

E a resposta – ou melhor, a dificuldade de responder – é reveladora: para Agostinho, sabemos o que é o tempo enquanto o vivemos; perdemo-lo quando tentamos explicá-lo.

Entre a experiência e a explicação, abre-se um espaço curioso. É nesse intervalo que a língua opera – não como espelho do tempo, mas como forma de situar o sujeito no ato de dizer. É o que o linguista Émile Benveniste chamou de enunciação: o momento em que a língua se atualiza e inscreve um sujeito no tempo.

Entre a alma e a gramática: o tempo como experiência vivida

Agostinho rompe com a ideia de tempo como algo puramente externo, mensurável com um relógio. Para ele, o tempo se dá na interioridade: o passado vive na memória, o presente na atenção, o futuro na expectativa. Não são três tempos objetivos, mas três modos de experiência.

Em uma perspectiva linguística, a expressão do tempo em português (como em outros idiomas) parece acompanhar essa reflexão. Quando dizemos “lembro da viagem”, “estou lendo agora” ou “vou resolver isso amanhã”, não apenas localizamos ações – organizamos experiências no fluxo da consciência.

É por isso que os tempos verbais não funcionam como etiquetas rígidas. Mais do que marcar quando algo ocorre, a língua indica como o falante se posiciona diante do tempo, isto é, como se inscreve, no próprio ato de enunciar, no fluxo entre o que já foi, o que é e o que ainda não é. É nesse sentido que o tempo linguístico é inseparável da enunciação.

O tempo verbal presente, por exemplo, pode indicar um instante limitado ao momento da enunciação (“É meio-dia e um minuto”), pode demarcar um período já iniciado e que se estenderá além do momento da enunciação (“O país já está em clima de Copa do Mundo”) ou ainda indicar uma “verdade” perene (“Filho de peixe peixinho é”). Ainda que sejam diferentes extensões de presente, todas têm um elemento comum: há uma coincidência entre o momento do evento e o momento da enunciação. O presente linguístico não equivale ao presente físico, uma vez que, na língua, o que temos é uma fração temporal linguisticamente construída.

Há, aqui, um ponto de encontro: a filosofia de Agostinho descreve o tempo como vivido; a língua o expressa com base na experiência. Na perspectiva da enunciação, esse tempo não é apenas representado, ele é produzido no próprio ato de dizer.

O tempo em uso: quando a língua pensa sem dizer que pensa

É no cotidiano que essa convergência se torna mais visível. Expressões simples carregam uma complexidade surpreendente. Quando dizemos “faz dez anos que não o vejo”, o tempo não aparece como algo que simplesmente passou: ele “faz”, como se estivesse em constante produção. Em “tem dias que penso nisso”, o tempo não é contado, mas vivido como recorrência. Já no gerúndio (“estou pensando”), o presente não é um ponto fixo, mas durativo.

Essas construções não são apenas escolhas estilísticas. Elas revelam uma maneira de compreender o tempo: não como linha objetiva, mas como experiência. Nesse sentido, a expressão do tempo em português parece confirmar a postulação agostiniana, uma vez que a língua manifesta uma espécie de olhar sobre o tempo, que, tal como defendeu o pensador, advém da interioridade.

Se Agostinho mostrou que o tempo escapa à definição, a língua parece mostrar que ele, ainda assim, pode ser dito. Entre o “já” e o “ainda”, entre o “foi” e o “vai ser”, seguimos falando. E, nesse gesto aparentemente banal – o de enunciar –, tocamos um dos problemas mais profundos da filosofia: como dar forma, em palavras, àquilo que nunca para de passar. Talvez seja esse o ponto em que Agostinho e Benveniste se encontram: o tempo escapa à definição, mas se deixa entrever no ato de dizê-lo.

O tempo no ato de dizer

Mesmo que haja limitações para definir o tempo, como quis Agostinho, ou para descrevê-lo cabalmente, como tentam as ciências, ao falar, inevitavelmente nos situamos nele.

Cada enunciado é menos uma medida do tempo do que um gesto demarcado temporalmente. E, nesse gesto – sempre provisório, sempre situado – a língua não resolve o enigma: torna-o habitável.


Marcelo Módolo
Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP,

Henrique Braga
Doutor pela FFLCH-USP

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